Política do Paraná segue dominada por homens brancos | Jornal Plural
7 dez 2020 - 20h53

Política do Paraná segue dominada por homens brancos

Eleição de negros, mulheres e LGBTI continua sendo raridade no estado

Os resultados das eleições municipais mostraram que o Paraná ainda encontra dificuldades para renovar e diversificar o seu cenário político. Também houve avanços significativos na representatividade política, principalmente entre eleitas para vereadora em Curitiba. No entanto, seja para as prefeituras ou para as câmaras municipais, o perfil do político paranaense continua a ser de homens, brancos, héteros e cisnormativos.

Curitiba reelegeu Rafael Greca (DEM) para um segundo mandato como prefeito e Eduardo Pimentel (PSD) como vice-prefeito. O Executivo exclusivamente masculino da capital indica a tendência das candidaturas eleitas no resto do estado também. 

Em uma comparação entre o perfil da população e das pessoas eleitas é possível perceber que apesar da maior parte dos paranaenses serem mulheres (52,6%), segundo o último censo do IBGE, as prefeituras serão ocupadas majoritariamente por homens: eles são 89,7% dos eleitos.

Esse é um resultado um pouco melhor do que o último pleito municipal, quando apenas 30 das 399 prefeituras passaram a contra uma prefeita. Agora, são 40 cidades com uma mulher no comando do Executivo.

Mesmo entre as candidaturas que tinham uma mulher como vice-prefeita como forma de diversidade e maior representação, foram poucas as que conseguiram. O estado conta com apenas 53 vice-prefeitas, ou seja, 13,6% do total. Virtualmente, em quatro anos essa área não conseguiu nenhum avanço, já que em 2016 as eleitas eram 52.

Com uma chapa inteiramente branca e masculina Greca foi reeleito em Curitiba. Foto: Lucillia Guimaraes/SMCS

A vice-prefeitura pode ser vista como um passo para a diversificação da política, já que muitas vezes esse é um cargo encarado como um treinamento para se assumir o Executivo. Mas ainda assim, “a esperança de avanço ficou abaixo do que era esperado”, avalia Carolina de Paula, cientista política e diretora da Agência de Pesquisa Aplicada do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (DataIESP).

No Legislativo a situação também não apresenta grandes renovações para a representatividade de gênero. Em Curitiba, assim como em 2016, 21% das cadeiras da Câmara Municipal para a nova legislatura. E nesse sentido, a capital está mais diversa que o restante do estado, já que 85% dos vereadores do Paraná são homens. Um resultado ligeiramente melhor do que a de 2016, quando 87,7% dos eleitos eram homens.

Um passo à frente: negros, negras e LGBTs

Outra forma de verificar a diversidade política é a representatividade de diferentes grupos étnico-raciais. E nesse sentido, o estado continua com a maioria de seus representantes sendo brancos: 80%. O restante é dividido entre negros (19%), amarelos (0,2%) e indígenas (0,1%).

Mesmo entre as mulheres eleitas, a maioria é branca: 85,1%, porcentagem maior do que entre os homens (80% dos eleitos são brancos). Isso significa que a mulher negra continua sendo a mais subrepresentada em todo o Paraná.

Já no que diz respeito aos candidatos LGBT, uma pesquisa da Aliança Nacional LGBTI+ indica que em todo o estado apenas duas candidaturas para o legislativo foram eleitas. Isso significa uma representatividade de menos de 0,1%.

Esse perfil de eleitos, segundo Megg Oliveira, travesti preta, doutora em Educação, professora na Universidade Federal do Paraná (UFPR), ativista do movimento social de negros e negras e do movimento LGBT, é resultado do conservadorismo da população paranaense. Um dos efeitos disso é que muitas pessoas continuam vendo a política como um lugar no qual as pessoas que já a ocupam tradicionalmente tem direito, seja pela família já estar na política ou pela imagem pública que passa.

“E esse conservadorismo também está muito presente na periferia. Muitas pessoas periféricas votam em um discurso contrário à periferia, pessoas negras continuam votando em candidatos brancos, tradicionais. Falta uma certa coerência em votar em pessoas que realmente te representam, que tenham um discurso que fale sobre a sua realidade mesmo”, afirma Oliveira.

Além disso, candidaturas diversas, como as de pessoas LGBT enfrentaram dificuldades como a falta de investimentos. “É muito importante que todas as minorias sejam representadas, então as dificuldades é algo que precisamos vencer, assim como a violência e o preconceito”, diz Toni Reis, diretor presidente Aliança Nacional LGBTI+.

Para ele, apesar das dificuldades, a população paranaense está mais aberta ao diálogo, principalmente considerando o histórico da cidade, que na década de 1990 não estava disposta nem a falar sobre o tema. “Agora, os movimentos conseguem dialogar mais com os políticos, inclusive os que pensam diferente. O prefeito eleito de Curitiba, por exemplo, assinou nosso termo de compromisso com a igualdade de direitos para a população LGBT”.

Para de Paula, essa falta de representatividade também é uma das consequências das características desse pleito, marcado pela pandemia e por pouco diálogo e ressonância na sociedade. “Essa eleição foi uma de continuidade. As reeleições foram facilitadas pelo contexto, além de dificultar muito para qualquer pessoa ou grupo que vinha conta o sistema”.

Apesar disso, o estado também registrou as eleições de Carol Dartora (PT), em Curitiba, a primeira mulher negra eleita como vereadora na cidade, Brenda Ferrari (PV), em Lapa, uma mulher trans e Marquinhos da Eletromóveis (PTB), em Mariluz, um homem gay. Esses são marcos expressivos e avanços que foram comemorados pelos movimentos sociais. 

As vitoriosas exceções

Carol Dartora na praça Zumbi dos Palmares: primeira negra eleita vereadora em Curitiba. Crédito da foto: Facebook.

A eleição de Carol Dartora (PT) para a Câmara Municipal de Curitiba foi um marco comemorado em todo o Brasil. Isso porque ela foi a primeira mulher negra eleita na cidade em 300 anos de história. A vitória, para Megg Oliveira, é ainda mais importante, porque Dartora se colocou dessa forma na campanha. “Ela foi eleita com uma campanha em que demarcava esse local social: uma mulher negra e periférica”.

Para a vereadora eleita Carol Dartora uma das maiores dificuldades da campanha é que uma mulher legra não é vista como uma possível líder. “Mesmo que tenhamos mais qualificações, mais anos de educação, sempre temos que nos preocupar em nos provar como competentes”, conta ela.

E essa é outra forma que a política pode ser desigual, já que muitas vezes os homens brancos eleitos não são questionados em relação a isso. Oliveira aponta que não apenas em Curitiba, como em todo o Brasil, políticos homens não enfrentam os mesmos questionamentos em relação a suas credenciais. “Muitas vezes ser filho de um político já basta. Mas pessoas negras, LGBT, mulheres precisam se provar.”

Dartora vê isso como uma consequência da forma como a sociedade está dividida e se relaciona: gênero, raça e classe. E, segundo essa estrutura, “nós sabemos de todas as barreiras de candidaturas de mulheres negras têm que enfrentar. Se as oportunidades fossem realmente iguais, estaríamos mais nesses locais”.

E ter mais pessoas com uma aproximação ideológica, que veja as estruturas da sociedade e as formas de preconceito enfrentadas por essas populações é muito importante. Nesse sentido, Dartora afirma se apoiar em seu partido na construção de seu gabinete. Mas Oliveira chama a atenção para o mandato de Branda Ferrari (PV), que por estar em cidades menores não possuem esse apoio tão articulado, inclusive de movimentos sociais.

Por isso que, apesar dos grandes avanos, os movimentos sociais, a vereadora Dartora e os cientistas políticos acreditam que ainda há muito espaço para crescer. “O diálogo ainda encontra dificuldades, mas a nossa vitória mostra que é possível”, diz a vereadora eleita de Curitiba.

“As pessoas não gostam de encarar as desigualdades, elas acreditam que se uma pessoa não foi eleita foi por falta de mérito e não por preconceito. Então o debate ainda é muito marcado pela negação do racismo, do machismo e da LGBTfobia, que são muito presentes entre os curitibanos e paranaenses. Mas estamos no caminho”.

Exemplos disso é a ameaça de morte que Dartora sofreu no último domingo (6). Na ocasião ela afirmou que seguiria “ainda mais resoluta a lutar por um mundo onde todos e todas tenham direito e acesso a igualdade e dignidade”. Isso ocorreu logo depois do prefeito Rafael Greca negar que houvesse racismo em Curitiba.

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