Filme usa um senso de humor querido para falar de velhice e morte
6 out 2020 - 9h00

Filme usa um senso de humor querido para falar de velhice e morte

No documentário “As mortes de Dick Johnson”, da Netflix, a cineasta Kirsten Johnson mira a câmera para o próprio pai

Dick Johnson aceitou participar do projeto da filha cineasta, Kirsten. Mas Dick não é um personagem típico de documentário. Ele não matou ninguém, não foi acusado de matar ninguém, não é uma figura histórica que influenciou milhões de vidas, não é um artista genial, não descobriu nem inventou nada, não é um chef famoso.

Dick é um senhor viúvo de 86 anos. Um médico psiquiatra que acabou de fechar o consultório em que trabalhou a vida inteira, em Seattle, no estado de Washington (EUA).

Ele começou a dar sinais sérios de perda de memória: falando de pessoas que já morreram como se estivessem vivas – mesmo tendo sido informado que elas morreram –, esquecendo nomes de gente muito próxima, sofrendo para administrar a agenda de pacientes sem confundir horários.

Uma das coisas extraordinárias a respeito desse senhor parece ser o quanto ele é amado pela família e por amigos. Tanto que a filha não consegue imaginar como será a vida sem ele.

Como uma forma de se preparar para o pior, Kirsten fez então “As mortes de Dick Johnson”, um filme em que imagina vários fins possíveis para o pai. E encena cada um deles com a ajuda de Dick.

Numa cena, ele está caminhando pela calçada e uma impressora enorme cai na sua cabeça – como as bigornas dos desenhos animados. Em outra, também na rua, um operário acerta a cabeça de Dick com uma tábua de madeira e o golpe se revela fatal – como se fosse a versão sinistra de uma gag de comédia muda.

O mais incrível a respeito do documentário de Kirsten Johnson é a forma como ela consegue usar um senso de humor querido, que brinca com situações absurdas, para falar de medos e tristezas muito humanas.

Os medos e as tristezas têm a ver com a doença de Dick e com perda da autonomia na velhice. É aquele momento em que ocorre uma inversão de papéis e a filha se vê tendo de cuidar do pai que sempre cuidou dela.

Isso não é dito com todas as letras, mas Dick parece sofrer de Alzheimer, mesma doença que afetou sua esposa, a mãe de Kirsten.

O prognóstico é brutal. Se viver o suficiente, ele vai perder a memória e se esquecer de todo mundo, inclusive da filha e de si mesmo.

Mas isso é depois. Agora, Dick Johnson ainda está vivo e está aqui. Isso que é importante.

Streaming

“As mortes de Dick Johnson” está em cartaz na Netflix.

Se puder, assine o Plural. Você pode escolher o valor que quer pagar. Isso faz muita diferença para nós: ser financiados por leitoras e leitores. As assinaturas nos mantêm funcionando com uma equipe que hoje tem oito pessoas e dezenas de colaboradores. Somos um jornal que cobre Curitiba em meio aos obstáculos da pandemia e fazemos isso com reportagens objetivas, textos de opinião e de cultura, charges e crônicas. Obrigado pela leitura.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias