As Mulheres da Lapa | Jornal Plural
15 fev 2021 - 14h40

As Mulheres da Lapa

Pedro não sabia exatamente quem eram as mulheres que o aguardavam, afinal a fonte da informação já não andava mais com a gente fazia tempo

Há quem pense que o atual governo inventou as fake news, o que é um absurdo. Mestres nessa arte? Sim. Profissionais da mentirância? Óbvio. A epítome do engodo? Sem dúvida. Porém não os inventores.

Claro que antigamente, antes de instituírem a globalização, a gente não dizia fake news, dizia “mentira” mesmo. A gente ficava confuso (em vez de bugado) e a mentiraiada não tinha tanto a ver com política.

Sendo piá, adolescente e carente de fontes confiáveis de informação, um dos principais tópicos sobre os quais eram disseminadas as fake news eram as mulheres, claro. Algum conhecido mais velho fazia o papel de WhatsApp para nos manter informados.

Foi um desses, um Homem Experiente de Uns Vinte e Dois Anos, acho, que nos informou de algo inesperado: no domingo, as Mulheres da Lapa ficam sentadas na escadaria esperando os Homens de Araucária passarem de moto.

Isso sim era uma revelação. Já sabíamos que as Mulheres de Araucária não se interessavam muito quando passávamos a pé na frente delas, mas nunca poderíamos imaginar algo tão específico sobre as Mulheres da Lapa.

Esse mesmo Homem Experiente nos ensinou várias outras particularidades igualmente precisas sobre as mulheres, algumas muito íntimas, fruto, segundo ele, de extensa pesquisa e confissões de algumas delas, que até conversavam com ele.

A maior parte das informações foi esquecida por todos do nosso pequeno grupo de amigos. Exceto pelo Pedro. Ficou marcada nele a imagem de uma escadaria na Lapa cheia de mulheres aguardando sua passagem no domingo à tarde.

Alguns anos depois, ao completar dezoito, Pedro já tinha uma economia, pequena, mas suficiente para dar entrada em uma moto na loja de usados do Centro. Aquela ideia fermentada há anos em sua cabecinha ganhava corpo. Mulheres da Lapa, é nesse domingo que sua interminável espera acabará.

Pedro não sabia exatamente quem eram as mulheres que o aguardavam, afinal a fonte da informação já não andava mais com a gente fazia tempo. Na sua cabeça eram todas lindíssimas, prontas para demonstrar todo seu amor guardado e minuciosamente alimentado ano após ano, na expectativa da passagem de um Araucariense de Moto.

Que mal teriam feito as lapeanas para amargar tão romântica espera? Na cabeça de Pedro elas permaneciam lá, esperançosas e sentadinhas na escada, desde o dia em que ele soube de sua existência. Debaixo de chuva e de sol, talvez com uma sombrinha, um pouco chorosas no fim da tarde porque era mais um domingo em que araucariense nenhum havia passado de moto. Como cortava seu coração aquela cena.

Claro que nenhum de nós soube de tudo isso antes. Com medo de que outro araucariense roubasse sua ideia, Pedro não nos deu a chance de tirá-la de sua cabeça porque a manteve em segredo o tempo todo.

Só ficamos sabendo que tinha sido preso depois de uns dez dias.

No domingo ele foi à Lapa, belíssima cidade de belíssimas mulheres, mas aparentemente todas ficaram em casa naquela tarde. Pedro não sabia exatamente em qual escadaria ou em qual horário elas costumavam se encontrar para o evento semanal, então rodou o que pôde. Até encontrou uma escada ou outra, uma especialmente grande na frente de uma igreja, mas nenhuma continha mulher alguma, menos ainda com ar de quem aguarda um Homem de Araucária de Moto.

Eventualmente a Duríssima Realidade se fez notar e Pedro decidiu enfrentar a BR sentido Araucária novamente. Amargurado e ainda tendo que pagar pedágio, tristão mesmo, pobre Pedrinho, chamávamos de Pedrinho já antes desse episódio que o fez tão pequeno, tão tristinho que nem se ligou na velocidade e quando viu já estava com a Polícia Rodoviária na cola.

Parou, trêmulo, quase desmaiou na frente do guarda, tomou esculacho, não tinha carteira, foi preso, moto apreendida, o vexame completo, recebeu naquela tarde de domingo uma valiosa lição para a vida, o que tratando-se de Pedro não adiantou muito, porque passou a se referir às mulheres da Lapa desde então em termos pouco lisonjeiros, muito embora nunca as tenha conhecido.

A vida nos separou. Hoje Pedro já passou dos 40 e me mandou solicitação de amizade numa famosa rede social. Vasculhei um pouco seu perfil e vi que ele defende tratamento precoce com cloroquina e ivermectina contra a Covid, apesar de a Duríssima Realidade mostrar todos os dias que não funciona.

Para Pedro, a realidade não importa: as Mulheres da Lapa seguem até hoje, lindas e sentadinhas na escadaria, esperando sua passagem de moto.


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