Comando Santa Regina | Jornal Plural
1 fev 2021 - 9h00

Comando Santa Regina

A notícia se espalhou pela escola na hora do recreio. O pau vai comer

Foi do Michel a iniciativa de criar o Comando Santa Regina. Não sei se a motivação dele era a segurança pública, o gosto por sair na porrada ou se a maconha em exagero só estava causando algum efeito adverso em sua cabeça ainda em formação.

O fato é que a escola municipal ficava na vila, fazendo com que afluíssem a ela representantes do São Sebastião e do Tayrá, locais muito perigosos. Lá pra baixo, perto do Parque Cachoeira, já existia o CMB (Comando Manoel Bandeira), famoso pelas brigas épicas com o CSF (Comando São Francisco), este último composto pelos carçudos que voltavam do Studio Flash de madrugada e passavam a pé pela Archelau.

Os briguentos do Tayrá criaram então o CT, e a falta de santidade na sigla combinava com o pragmatismo ao decidir quem eram seus inimigos: todo mundo. O São Sebastião, liderado por um pessoal que, dizia-se, tinha até um treizoitão, não ficava pra trás, e elegeu o Tayrá como seu inimigo principal.

A gente sobrou – no meio, espremido. A vila era menor e éramos pacíficos, pequenos e gordinhos. Eu entendia muito pouco sobre o funcionamento dos Comandos. Quando ouvia que no Rio de Janeiro havia o Comando Vermelho, eu achava que lá os grupos de briguentos se dividiam por cores e não por bairros.

Por meu tamanho e natureza dócil, na escola sempre precisei lançar mão da diplomacia para não me tornar alvo dos diversos Comandos que ali se encontravam. Além disso, pior do que a ideia de odiar alguém só porque a pessoa mora pra lá da rotatória era a ideia de apanhar de alguém só por morar do lado de cá. E na época ainda nem rotatória tinha.

Enfim, talvez tenha sido essa a motivação do Michel. Defesa. Guerra fria. Se declarássemos a fundação do Comando Santa Regina, as vilas ao redor talvez nos respeitassem. Foi mais ou menos isso que ele disse quando me chamou na frente de casa. Recusei o convite, assim como todos os outros piás que andavam com a gente.

No dia seguinte, entendi tudo quando, no muro da escola, eu vi pichado: CSR, em letras garrafais. Michel aproveitou que a legislação não estabelecia um número mínimo de integrantes para fundar um Comando e se autodeclarou dono do Santa Regina. Um Juan Guaidó mais jovem e menos inconsequente.

Pensei “pronto”.

Havia um acordo tácito e benéfico a todos de que as brigas não deveriam acontecer em ambiente escolar. Fora dele, porém, valia tudo. E por razões estratégicas, a ruazinha de subida do lado da escola, fora da vista dos professores, era ótima para que eventuais contendas tivessem lugar. Exatamente na frente da minha casa, por exemplo, incontáveis duplas de rapazotes briguentos decidiram demonstrar superioridade um sobre o outro por meio do emprego da violência.

Foi esse o local escolhido, em votação unânime (2 votos a favor e 0 contra), para que o CSS (São Sebastião) e o CT (Tayrá) resolvessem as diferenças. A notícia se espalhou pela escola na hora do recreio. É hoje que o pau vai comer. Não seria um contra um, mas a batalha final das duas vilas. Uma briga de Titãs. Será que vai dar tiro? Parece que o Rafael Seco foi embora mais cedo, talvez buscar o oitão.

A excitação tomou conta de todos. Ou quase todos. O Michel não gostou. Na vila dele? Never. Que respeitassem os limites impostos pelo CSR, de muita personalidade apesar de recente, e fossem brigar ou pra lá da rotatória ou lá pra frente do salão paroquial. O Santa Regina não era mais território de uso comum.

Na hora marcada pra pancadaria todos se posicionaram da forma mais estratégica possível. Como eu era mais baixinho precisei subir no eterno montinho de areia que havia em frente de casa, o que me permitiu ver com clareza os dois principais nomes entre os grupos rivais se aproximando para começar a desfiar um contra o outro um longo rosário de impropérios, atentando verbalmente contra a moral do inimigo e de seus familiares, numa preliminar de baixíssimo calão como aquecimento para o embate físico.

De fora da rodinha vi Michel abrindo o caminho até o centro, todo machão, aquela cena incrivelmente clichê, colocando a mão espalmada no peito de ambos e gritando que na vila dele aquilo não ia mais acontecer, coitado, coragem, porque os dois se uniram para dar nele um cacete daqueles que a piazada comenta por décadas, eis que eu estou aqui, já mais de 25 anos depois, relembrando a fatídica tarde de 1995 em que Michel, sem querer, acabou pacificando as vilas rivais, porque nada é capaz de unir grupos inimigos mais do que o odiar a mesma coisa, o que deveria servir como uma grande lição para os tempos em que vivemos.


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