Minha carne é cartorial, meu coração é igual | Jornal Plural
15 fev 2021 - 7h43

Minha carne é cartorial, meu coração é igual

Eu, como todo mundo, conheço a história do carnaval, até simpatizo com o conceito: subversão, revanche, a farra às raias da barbárie

Quem pode, afinal, apontar o exato momento em que começou a se transformar no que é?

(Agora, um instante. Acabei de dizer algo profundo, espero que você pare e pense a respeito.)

De modo que não sei quando foi que comecei a achar o carnaval uma festa extremamente aborrecida, quando me tornei este homem mais monótono do que um funcionário de cartório. O que, é claro, nunca significou que eu quisesse abolir a brincadeira de todo o território nacional, chacinar os foliões em rituais de psychobilly e esterilizar com cal viva as ruas por onde antes passavam os bloquinhos.

Eu, como todo mundo, conheço a história do carnaval, até simpatizo com o conceito: subversão, revanche, a farra às raias da barbárie. É uma ótima ideia.

Tanto que já fui a carnavais. Me livrei da estática mental, encontrei a turma – vi todo mundo com roupas espalhafatosas e coloridas, alegre e reluzindo a glitter –, arrumei uma cerveja e me enfiei no meio da multidão, para então ficar de uma hora para outra miseravelmente confuso e aparvalhado e começar a delinear rotas de fuga.

Pode ser um problema físico, de hardware – embora eu tenha acabado de pensar nisso e nem mesmo saiba se essa frase faz sentido.

Repeti a operação algumas vezes, até que desisti, me rendi à minha própria inépcia carnavalesca e deixei pra lá. Mais ou menos como desisti de aprender a dirigir depois da quinta tentativa e de tocar violão depois da terceira.

Uma das vantagens de ir empilhando um ano em cima do outro é que você aprende a poupar tempo desistindo das coisas mais rapidamente. E reconhecer essas pequenas pode funcionar quase como um analgésico.

Se minha memória não me trai (e ela me trai com frequência), quando eu era pequeno, gostava de carnaval. O problema com essa lembrança é que lááá onde eu morava, no interior, havia umas festinhas, mas elas não eram nem remotamente assemelhadas a carnaval. Minha hipótese é que, no fundo, como um bom membro da geração que cresceu nos anos 90, e portanto viciado em televisão, eu gostava mesmo é de assistir aos desfiles. O que, hoje, considero igualmente uma aporrinhação.

Por sorte, vim parar em Curitiba, e como uma visita inconveniente, que nunca vai embora, ainda cá estou. Me descobri desgostoso com o carnaval em uma cidade definitivamente avessa ao carnaval (embora eu espere que não me ouçam os integrantes de escolas de samba da capital que anualmente aparecem no Boa Noite Paraná garantindo que sim, é claro que Curitiba tem carnaval).

Estou escrevendo tudo isso porque sou magnânimo. Em uma época de carnaval sem carnaval, percebo os amigos amuados, tristes, taciturnos, sorumbáticos, ensimesmados. Eu, no entanto, tenho notória experiência em atravessar carnavais sem carnaval.

Há muitas coisas que podem ser feitas. Você pode rever, por exemplo, toda a saga de Planeta dos Macacos. Melhor ainda, toda a saga de Alien. Ou testar uma receita de cupim recheado que aprendeu no YouTube. Ou entrar em um torneio de pôquer online. Fique atento ao canal History. Se tivermos sorte, eles colocarão na grade uma maratona de Trato Feito ou de Alienígenas do Passado. Se tudo der errado, uma bebedeira bem administrada de quatro dias lhe garantirá paz de espírito – no fim das contas, você vai se surpreender, acaba sendo muito parecido com carnaval, mas sem toda a chatice da muvuca.

É claro que eu preferiria que tudo estivesse em ordem e todos vocês estivessem saracoteando por aí cantando alguma nova versão de “Cabeleira do Zezé”, dessas enquadradas no espírito da época, mas o que é que se pode fazer?E, por favor, compreendam: uma vez na vida, pelo menos, eu merecia me sair melhor em fevereiro, não merecia?


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