Em dois anos, o ex-procurador Deltan Dallagnol recebeu R$ 837.862,07 do Partido Novo para atuar como "embaixador" da legenda. Ele se filiou ao Novo em setembro de 2023, depois de ter seu mandato de deputado federal cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) , e passou a receber um salário "compatível com o de deputado". Desde 2025, os pagamentos são feitos para a empresa Comply Aperfeiçoamento Profissional e Pessoal, que tem como sócios, além de Deltan, a mulher dele e seus três filhos.
As prestações de contas do diretório nacional do Novo à Justiça Eleitoral mostram que o candidato suspenso ao Senado recebeu R$ 89.709,35 em 2023; R$ 365.652,72 em 2024; e R$ 382.500,00 em 2025. A prestação não inclui pagamentos em outubro, novembro e dezembro de 2025. Os números relativos a 2026 ainda não estão disponíveis.
Os pagamentos podem envolver recursos públicos: desde fevereiro de 2023, o Novo passou a utilizar o Fundo Partidário, destinado à manutenção das legendas. A não utilização de recursos públicos foi uma das bandeiras de fundação do Novo, em 2011 (o partido só obteve o registro em 2015). Em fevereiro de 2024, o diretório nacional aprovou por unanimidade o uso do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), conhecido como Fundão Eleitoral.
Mês a mês
Veja as datas dos pagamentos e quanto Deltan Dallagnol recebeu em cada mês:
31/10/2023 – R$ 28.470,03
10/11/2023 – R$ 30.483,16
05/12/2023 – R$ 273,00
11/12/2023 – R$ 30.483,16
Total em 2023 – R$ 89.709,35
10/01/2024 – R$ 30.483,16
09/02/2024 – R$ 30.449,76
08/03/2024 – R$ 30.471,98
10/04/2024 – R$ 30.471,98
10/05/2024 – R$ 30.471,98
10/06/2024 – R$ 30.471,98
10/07/2024 – R$ 30.471,98
09/08/2024 – R$ 30.471,98
10/09/2024 – R$ 30.471,98
10/10/2024 – R$ 30.471,98
08/11/2024 – R$ 30.471,98
10/12/2024 – R$ 30.471,98
Total em 2024: R$ 365.652,72
10/01/2025 – R$ 42.500,00
11/02/2025 – R$ 42.500,00
07/03/2025 – R$ 42.500,00
14/04/2025 – R$ 42.500,00
09/05/2025 – R$ 42.500,00
11/06/2025 – R$ 42.500,00
08/07/2025 – R$ 42.500,00
12/08/2025 – R$ 42.500,00
08/09/2025 – R$ 42.500,00
Total em 2025 – R$ 382.500,00
Fonte: Divulgação das prestações de contas anuais, Tribunal Superior Eleitoral
Os pagamentos mais recentes, de acordo com os dados declarados ao TSE, foram no valor de R$ 42,5 mil por mês – atualmente o salário de deputado federal é de R$ 46.366,19.

Propaganda e publicidade
Até dezembro de 2024 as notas eram expedidas em nome de Dallagnol e identificavam os pagamentos como "salários e ordenados". A partir de janeiro de 2025, os pagamentos passaram a ser feitos para a Comply Aperfeiçoamento Profissional e Pessoal Ltda, empresa que pertence à família Dallagnol.
A consulta ao CNPJ da Comply no portal do Ministério da Fazenda indica Deltan Dallagnol e a mulher dele, Fernanda Mourão Ribeiro Dallagnol, como sócios-administradores da empresa. Também fazem parte da sociedade os três filhos do casal, Thomas Ribeiro Dallagnol, Sofia Ribeiro Dallagnol, e Luísa Ribeirto Dallagnol, como sócios menores.
A Comply tem capital social declarado de R$ 10 mil e suas áreas de atuação são "edição de livros", "produção de filmes para publicidade", "Portais, provedores de conteúdo e outros serviços de informação na internet", "Marketing direto", "Serviços de organização de feiras", "Cursos preparatórios para concursos", "Outras atividade de ensino" e "atividades de artistas plásticos, jornalistas independentes e escritores".
Candidatura suspensa e gastos de R$ 3,7 milhões
Deltan Dallagnol teve a candidatura suspensa no dia 19 de setembro pelo ministro do Tribunal Superior Eleitoral Floriano de Azevedo Marques. No dia 8, o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) aceitou o registro da candidatura por 4 votos a 3, mas a Federação Brasil Esperança recorreu ao TSE, pois Dallagnol teve o mandato cassado em 2023 com base na Lei da Ficha Limpa e poderá ser declarado inelegível pela Corte. Na última segunda-feira (20), o pleno do TSE manteve a candidatura suspensa por 5 votos a 2.
O ex-procurador da operação Lava Jato já declarou gastos de R$ 3.795.383,87 em uma campanha que pode ter o registro indeferido. Ele declarou ter recebido mais de R$ 4 milhões: R$ 2,1 milhões do Fundo Partidário, R$ 300 mil do FEFC e R$ 1.650.682 em doações pessoais.
