O encerramento do processo eleitoral no Noroeste do Paraná tem sido acompanhado por uma onda de relatos de violência política, agressões físicas e declarações de preconceito e discriminação. Registros em redes sociais e denúncias formais junto às autoridades policiais expõem o ambiente de forte tensão e polarização que atingiu municípios como Nova Esperança e Maringá no período eleitoral e pós-eleitoral.
Ataques racistas e xenofóbicos em Nova Esperança
Em Nova Esperança, a comemoração do resultado das urnas foi acompanhada por uma série de publicações com teor abertamente racista e xenofóbico nas redes sociais. Moradores e militantes contrários ao resultado do pleito utilizaram seus próprios stories e perfis para veicular vídeos e declarações com falas de intolerância que não se direcionavam apenas às pessoas que celebravam nas ruas, mas a todo o eleitorado do presidente eleito.
A gravidade das publicações gerou revolta ao atingir inclusive a miss da cidade, xingada de "macaca" em ataques explícitos de discriminação racial. Diante do impacto e do caráter criminoso dos episódios, moradores e entidades cobram um posicionamento público e firme das autoridades locais, bem como a tomada imediata das devidas providências legais e investigativas para punição dos responsáveis.
Relato de agressão física durante carreata pacífica em Maringá
Na área urbana de Maringá, episódios de intimidação e agressão física foram registrados na véspera da votação, no sábado (24) anterior ao pleito. O caso envolveu a artista, comunicadora e estudante de jornalismo Isabela Stresser, de 30 anos — que atuava na coordenação da equipe de comunicação do movimento da esquerda unificada na cidade —, durante uma carreata pacífica em apoio ao candidato Luiz Inácio Lula da Silva.
Em depoimento cedido à reportagem, Isabela relatou em detalhes os momentos vividos enquanto estava no comboio que liderava a mobilização:
"A carreata estava muito bonita, as pessoas estavam celebrando. Era um momento de união e celebração, na mesma força do povo se reconhecendo e indo para a rua. Eu jamais imaginaria que algo assim fosse acontecer. O susto e o medo que senti foram extremos", relatou a comunicadora.
Isabela explicou que estava apoiada no suporte do teto do veículo, acompanhando a movimentação, quando foi atingida sorrateiramente pelas costas:
"Eu escutei alguém gritando nas minhas costas e, em seguida, senti a pancada na cabeça. Segurei firme no suporte para não me desequilibrar. Quando olhei para frente, só vi a caixa preta de entrega de um motoboy que foi embora muito rápido entre os carros. Eu entrei no carro em choque, sem saber o que fazer, esperando que escorresse sangue da minha cabeça. Fui tomada por um desespero completo."
Diante do choque e da dor, a comunicadora desativou o compartilhamento de sua localização e buscou abrigo e socorro imediato com os colegas da campanha no comitê. Emocionada, ela destacou a decisão de denunciar a violência publicamente e o impacto do episódio:
"Quando cheguei ao Solagasta, estava em completo desespero e assustada. Levei quase uma hora para começar a me acalmar. Olhei para a equipe e decidi que iria comunicar o que tinha acontecido na internet. Fiz o post afirmando que tinha sido agredida pelas costas de forma covarde. O que aconteceu comigo não foi apenas um crime de violência contra a mulher, é também um crime eleitoral e federal. Por isso, a intenção é acionar todas as entidades para que não fique impune, nem comigo e nem com outras pessoas que sofreram agressões na cidade."
Após o ocorrido, Isabela foi encaminhada ao hospital, onde passou por exames neurológicos e tomografia. O caso foi registrado no plantão da Polícia Civil como lesão corporal e passou por perícia no Instituto Médico-Legal (IML). A defesa e a equipe acompanham o processo e buscam imagens de câmeras de segurança para identificar o agressor, avaliando também os agravantes no âmbito da legislação eleitoral.
Hostilidade no centro urbano
Já na noite de domingo (25), após a divulgação oficial dos resultados das urnas, atos de intolerância e hostilidade voltaram a atingir moradores no centro urbano de Maringá. Em relato cedido à reportagem, o jornalista Victor Simião detalhou a atitude hostil vivenciada por ele e um grupo de amigos enquanto caminhavam pela Zona 7 por volta das 23h30:
"Eu e um grupo de pessoas estávamos voltando para casa, na Zona 7, por volta das 23h30. Já estávamos em silêncio, embora a rua ainda estivesse exaltada. Estávamos felizes e, quando passamos em frente a um prédio, jogaram água em nós. Na hora, eu gritei e chamei a pessoa, uma covarde, para descer e conversar. Sem sucesso. O bolsonarismo perdeu e se tornou ainda mais violento. Mas não teve coragem de mostrar a cara."
Citação ao ambiente acadêmico
Os registros de preconceito e intolerância no município também alcançaram o meio universitário. No UniCesumar, manifestações de hostilidade contra estudantes bolsistas do Programa Universidade para Todos (ProUni), acompanhadas da circulação de imagens e discursos de apologia ao nazismo em grupos de alunos, ganharam repercussão no campus e nas redes sociais.
Condutas criminosas exigem apuração e providências das autoridades
Racismo, injúria racial, xenofobia, agressão física, incitação à violência e a veiculação de símbolos do nazismo são condutas tipificadas como crime pela legislação brasileira. Diante da gravidade dos episódios registrados na região, entidades da sociedade civil e vítimas cobram que a Polícia Civil, a Justiça Eleitoral, o Ministério Público e os Executivos municipais deem continuidade e rigor às apurações para que os responsáveis sejam devidamente identificados e punidos na forma da lei.