Senado faz lobby pela volta do amianto, o mineral assassino | Plural
20 Maio 2019 - 5h11

Senado faz lobby pela volta do amianto, o mineral assassino

Contrariando toda a literatura médica, políticos querem derrubar banimento do amianto no país

No fim de abril, um grupo de senadores foi visitar uma mina de amianto em Goiás. Liderados pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), os políticos começaram ali uma campanha de marketing e lobby pela liberação do uso do material no Brasil. Contrariando toda a literatura médica internacional, disseram não ver risco nenhum naquilo.

“Eu já tenho 56 anos de idade e tomo água de caixa d’água, desde criança, de amianto. Morei muito tempo debaixo de telha de amianto e nunca tive um problema. Eu acho que eu sou até um pouquinho fortinho. Nunca tive problema por isso”, disse em plenário o senador Vanderlan Cardoso (PP-GO).

Para se entender o tamanho da irresponsabilidade da campanha dos senadores (e da declaração de Vanderlan Cardoso em particular), seguem alguns números. O amianto, comprovadamente, causa mais de 100 mil mortes por ano no mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Antes da proibição pelo Supremo Tribunal Federal (STF), era um perigo que estava presente em pelo menos 40 empresas no Brasil, expondo 6.426 trabalhadores ao risco de desenvolverem doenças graves.

Se aspirado, o amianto pode causar problemas respiratórios incuráveis e um câncer que mata em poucos meses. Estudos mostram que as principais doenças causadas pelo amianto são o mesotelioma pleural, um câncer que atinge a membrana que reveste o pulmão, e a asbestose, conhecida como “pulmão de pedra”. No primeiro caso, a taxa de morbidade é de 80% a 90% e, após o diagnóstico, o paciente tem poucos meses de vida.

No Brasil, o uso do amianto só foi banido em todo o território nacional em 2017, por uma decisão do STF, após uma longa luta que uniu vítimas, advogados, médicos e sindicatos. Mesmo que não seja revertido, o banimento pode ser eficiente a longo prazo e impedir novos casos de exposição à fibra. Mas isso não apaga as consequências do uso intensivo do material durante décadas, considerado hoje a maior catástrofe sanitária do século 20.

Contaminação rápida

O oncologista clínico do Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba, João Soares Nunes, explicou que apenas aspirar a fibra é suficiente para que ocorra a contaminação. “Ela é microscópica e fica suspensa no ar como um talco. Ao entrar no pulmão, o amianto se aloja nos alvéolos, que são os ‘saquinhos’ onde o ar entra e sai. Devido a esse corpo estranho, a primeira reação do organismo é a inflamação”.

João Soares Nunes. Foto: Reprodução/Observatório do Amianto

Segundo o médico, a fibra se fixa eternamente nos alvéolos e provoca irritação. Se isso atingir uma grande parte do pulmão, o órgão começa a ser inutilizado. “É aí que acontece a asbestose, um processo crônico que dificulta a troca de oxigênio, do mesmo jeito que uma pessoa que fumou a vida inteira tem enfisema, um problema respiratório crônico”, afirma.

Se as células sofrem mutação durante a contaminação, a situação se torna ainda mais grave, com o desenvolvimento de tumores. “O efeito mutacional causa câncer, que pode atingir o pulmão; o peritônio, tecido que recobre os órgãos do abdômen; ou a pleura, que é o mesotelioma”, completa o oncologista.

Sintomas e diagnóstico

Um dos grandes desafios da medicina quando se trata da exposição ao amianto é o fato de que as doenças provocadas por ele são silenciosas e podem levar até 50 anos para se manifestarem. Elas são incuráveis e progridem agressivamente, mesmo que não se tenha mais nenhum contato com a fibra.

Por isso, o primeiro passo para o diagnóstico é a pessoa identificar se faz parte dos grupos de risco: trabalhadores de fábricas que utilizavam o material, moradores de casas com telhas ou caixas d’água de amianto, vizinhos de minas ou de indústrias, ou compradores de produtos com a fibra.

“Quem está no grupo de risco precisa ficar atento. No caso da asbestose, o paciente não vai perceber tão cedo que está ficando sem ar. O pulmão vai sendo destruído e, depois de muitos anos, ele pode notar a falta de fôlego para subir uma escada ou correr para o ponto de ônibus, por exemplo”.

O mesotelioma também é silencioso e apresenta sintomas quando está mais avançado, como dor no peito, nas costas e na lateral do corpo. O ideal é que o exposto procure um médico para fazer um check-up mesmo que não esteja sentindo nada de anormal.

Nunes ressalta que essas doenças não têm cura, apenas procedimentos que visam retardar o avanço da patologia. “Em caso de asbestose, geralmente são tomadas medidas para otimizar a parte boa do pulmão, já que a afetada não voltará mais ao normal. Para isso, o paciente toma medicamentos, faz fisioterapia e usa bombinhas, como as de asma. Mas é um tratamento que será necessário a vida toda”.

Já o mesotelioma, dependendo do caso, pode ser tratado com cirurgia, quimioterapia e radioterapia. A doença, no entanto, não tem cura e apresenta alta taxa de mortalidade.

Tapando o sol com a peneira

Nada disso parece suficiente para demover os senadores brasileiros que foram à Minaçu – uma das últimas minas a parar a produção depois da decisão do STF. Como Goiás não tinha lei proibindo o amianto, o estado foi um dos que tiveram permissão inicialmente para manter a produção. No entanto, a liminar da ministra Rosa Weber acabou caindo e todo o país hoje está livre do amianto.

Para Vanderlan Cardoso, um erro. Citando as 2,8 mil famílias da região que tiravam dali seu sustento, o senador diz que é preciso reverter a decisão do STF. Davi Alcolumbre fez coro.

“A visita do Senado em Minaçu é para verificar in loco esta situação. É angustiante ver uma decisão jurídica sobrepor-se à vida das pessoas, que têm o seu sustento com dignidade. A criação da comissão é uma atitude louvável “, disse o presidente do Senado.

Para compreender melhor o tamanho dos riscos envolvidos: a mina goiana visitada é da mineradora Sama, que pertence à Eternit. Na Itália, o principal executivo da mesma Eternit, o suíço Stephan Schmidheiny , foi condenado a 18 anos de prisão em 2013 por “desastre sanitário e ambiental permanente” (a sentença foi revertida em 2014). Segundo a justiça, a empresa seria responsável por nada menos do que três mil mortes no entorno de suas fábricas.

Até agora, não existe nenhum sinal de que o país vá recuar do banimento. Mas com a onda de retrocessos ambientais que vêm ocorrendo e com a força do lobby por trás da mineração, não é difícil imaginar que as coisas possam mudar.

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