Profissionais da Saúde são ameaçados por denunciarem UPAs | Jornal Plural
19 mar 2021 - 22h06

Profissionais da Saúde são ameaçados por denunciarem UPAs

Ameaças de exoneração e processos administrativos vieram após reportagens do Plural

Na última semana, após o Plural divulgar a matéria “Cenário de Guerra em UPAS de Curitiba” – mostrando problemas nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), com fotos e testemunhos de funcionários da Rede Municipal de Saúde – vários servidores relataram se sentir coagidos pela Prefeitura, declarando ameaças de exoneração por expor o ambiente e a falta de insumos para atender aos pacientes.

“Somos ameaçados o tempo todo”, é o que diz o enfermeiro de uma UPA, que prefere não se identificar. Ao ser questionado sobre qual o teor das ameaças, ele afirma – “De processos, de exoneração. Somos também perseguidos pela terceirização das UPAS e nos acusam da ineficiência do serviço. Tudo é velado”, conta. “Eles fazem tudo de forma muito discreta, em tom de amizade, chamam pra conversar individualmente”, relata.

A profissional de outra UPA de Curitiba contou história parecida ao Plural. “O medo é de processos e exonerações. O Greca persegue a enfermagem. A gente não aguenta mais.”, afirma.

Em áudio gravado, Eliane Padilha Ceccon, diretora administrativa do Departamento de Urgência e Emergência (DUE), da Secretaria Municipal de Saúde, diz a funcionários da Rede que procura saber quem mostrou a imagem de uma senhora no chão, em cima de uma blusa, na UPA Pinheirinho. “Não instiguem ninguém a colocar nada na mídia, é um momento difícil. (…) Vamos nos valorizar e não deixar que outras pessoas estejam denegrindo a nossa imagem.”

“A gente está procurando saber quem foi, para tomar as medidas administrativas, porque o servidor, ele já está bem orientado que não é para fazer isto”, diz a diretora. Na imagem, a qual se refere a enfermeira Eliane Ceccon, uma senhora está deitada no chão de uma sala da UPA, onde ela e outros pacientes recebem oxigênio.

O aumento excessivo no consumo do gás medicinal, os problemas estruturais para o atendimento, a superlotação, falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), respiradores e medicamentos para intubação de pacientes já foram denunciadas pelos profissionais.

A Prefeitura foi questionada pelo Plural sobre o áudio e também sobre os relatos de ameaça de exoneração. No entanto, não houve resposta até o fechamento desta reportagem.

Medida ilegal

Na análise jurídica do advogado Bruno Zanello, mestre em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), a administração municipal não pode punir os servidores que denunciam condições inadequadas de trabalho. “Sejam denúncias em órgãos públicos, sejam denúncias destinadas à sociedade civil. A utilização de processos administrativos e disciplinares como mecanismos de constrangimento dos servidores trata-se de medida ilegal”, afirma. Também segundo Zanello, “a utilização de processo administrativo com finalidade de perseguição pode gerar responsabilização da autoridade responsável”.

O Sindicato dos Servidores Municipais de Enfermagem (Sismec) divulgou em suas redes sociais nota de esclarecimento, na qual a categoria diz que “repudia o áudio divulgado entre os profissionais de enfermagem atuantes nas UPAS de Curitiba pela diretora administrativa Sra. Eliane dos A. P. Ceccon , o qual tenta atribuir o caos instalado na Saúde da Capital à qualidade dos serviços prestados pelos profissionais, acusando e amedrontando”. Segundo os enfermeiros, a intenção da diretora é “calar a todos quanto às falhas, deficiências e omissões ocorridas nas unidades”.

Proibido entrar

Também, esta semana, o Sismec foi proibido de fazer visitas às UPAS. No ofício 133/21, enviado à entidade, a SMS comunica que “não está autorizada a realização de visitas aos equipamentos de saúde da rede municipal por integrantes dessa instituição sem prévia solicitação e autorização desta secretaria”. O documento foi assinado por Beatriz Battistella Nadas, superintendente da SMS.

“Esclarecemos que tal medida visa preservar a eficiência na prestação de assistência à saúde aos usuários dos serviços e a privacidade dos pacientes que estão sendo tratados, bem como manter as regras sanitárias vigentes em decorrência do atual do momento da pandemia.”

Sobre a proibição, o Sismec diz que “as visitas que vem realizando junto aos locais de trabalho, no intuito de orientar e averiguar condições de trabalho, fornecimento de EPIs e escalas, não será parado”. Porque, segundo a nota, o sindicato “trabalha na defesa da categoria e não no interesse da gestão”.

De acordo com o advogado Christian Mañas, mestre em Direito do Trabalho, os sindicatos têm uma função institucional e constitucional de averiguar as condições de saúde e segurança dos trabalhadores. “A fiscalização é uma prerrogativa dele, justamente para que não ocorram violações das normas. É função do sindicato fazer isso. Cuidando sempre com a privacidade dos pacientes.”

O Plural oculta rostos e detalhes para não identificar nem expor nenhum dos pacientes e funcionários que aparecem nas imagens publicadas em reportagens sobre a Rede de Saúde.


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5 comentários sobre “Profissionais da Saúde são ameaçados por denunciarem UPAs

  1. Bom dia a todos da área da saúde, na minha opinião secretário de saúde gerentes de upa não tem direito de ameaçar ninguém, tem erros na área da saúde tem e é uma coisa que pode ser resolvido entre eles, isto está parecendo uma malícia Onde você fica sendo refém de médicos gerentes de upa e secretários de saúde e até dos prefeitos, isto não pode acontecer, quem vai defender estes bravos profissionais, gostaria de saber se eles tem direito a ser defender, estes chefes de enfermagem gerentes secretarios pensam que é dono de tudo, são uns verdadeiroseis milicianos na área da saúde, um grande abraço a todos os enfermeiros e que deus proteja todos vocês destes vermes que os ameaçam.

  2. Obrigado, Plural. Tem importância histórica o registro jornalístico desta mensagem da diretora administrativa do DUE. O “recado” torpe que ela deixa: “vamos nos valorizar”, a ameaça dissimulada; a mensagem de que não se deve “estar colocando nada na mídia”…

    O verdade factual de que uma senhora necessitada de cuidados tenha sido largada no chão de uma UPA, em Curitiba, um ano após o início da pandemia, é emblemática. A imagem gritante do abandono, do desamparo e da falta de planejamento por parte da prefeitura não parece despertar compaixão da secretária. Para ela, aparentemente, a divulgação da imagem constitui o verdadeiro problema.

    Ficamos combinados: o prefeito-poesia-filosofia-cheirinho-de-mimosa-nossa-senhora-jesus-curitiba-com-capricho conduziu a cidade ao caos na saúde. E o problema, para eles, é a divulgação das imagens do caos? A culpa é das Cassandras! Deveríamos todos e todas sentir nojo de gente assim.

    Nas entrelinhas, a estratégia do município de Curitiba: à prefeitura não interessa que a comunidade tenha acesso à informação. Justamente em hora crítica, o negacionismo requentado e embalado por frases feitas de auto-ajuda (“com muita fé, com muito trabalho, com muito amor, tudo isso vai embora”) – e temperado com gerundismos. Dói nos ouvidos. Dói na alma.

    Este registro compõe um conjunto de documentos que permitirão estabelecer a verdade factual, contar a história, imputar responsabilidades, refletir a respeito das políticas, prioridades e personagens – Rafael Greca talvez não seja um homem vil, todavia, seu lugar na história será ao lado dos políticos abjetos, ladeado por Ratinhos e Bolsonaros.

    Necropolítica se faz com intenção e método. Querem também apagar a luz dos pinhais?

      1. Vejo como profundo avanço o Plural permitir a fala sobre como configura pressão a ameaça de terceirização. E subliminarmente também a sabujice da livre nomeação. Fatos em toda a administração pública que estes são institutos para evitar fazer concurso, já que este é impopular entre as chefias. “Eficiência”, não nos faça rir.
        “Até as pedras do caminho sabem” que o Tribunal de Justiça do Paraná emprega mais comissionados, “estagiários de pós-graduação” e terceirizados do que concursados e ninguém consegue mudar isso, nem o Conselho Nacional de Justica. A primeira instância sobrecarregada porque não fazem concursos. Até na Universidade Federal do Paraná, por ex., a contratação de funparianos com ou sem processo seletivo para bater ponto na instituição é realidade e muitos já são conhecidos das suas chefias há mil anos. Provavelmente não são todos, mas são muitos. Procura e acha situações, em qualquer poder.
        Sem concurso e estabilidade não existe como proteger a igualdade nas contratações. Não esperem, enquanto site de notícias, conhecer a realidade se isso cair.

    1. Uau! O comentário é melhor que a própria reportagem, tamanho esclarecimento acerca do que se passa! Bravo! E, quanto as ameaças aos enfermeiros e enfermeiras, fica meu apoio e consideração.

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