O dia em que vi uma guerra de hashtags ao vivo | Jornal Plural
6 abr 2019 - 9h23

O dia em que vi uma guerra de hashtags ao vivo

Grupos a favor e contra a ditadura de 64 bateram boca na UFPR nesta semana.

No último dia 3 de abril, por volta das 21 horas, me vi entre um grupo que gritava palavras de ordem contra a ditadura e era contido por três bravos seguranças particulares. E uns seis rapazes que respondiam ao protesto aos gritos, transmitindo ao vivo tudo pelo celular como se fossem correspondentes da Globo no front.

De repente, o grupo atrás dos seguranças começa a entoar: “Ditadura não! Ditadura não! Ditadura não!”. A resposta do lado de cá não demora. Os homens, ainda de celular em punho, conversando com uma plateia digital ou imaginária – não sei precisar – respondem: “Dentadura não! Dentadura não!”, num trocadilho que certamente faria a festa entre as crianças de seis anos e também é um sucesso por ali.

A dentadura, me obrigo a explicar aqui, é uma referência à acusação preferida contra os manifestantes: a de que são petistas e que, portanto, estão sem mamata, que acabou. Sutil, não?

Do lado de lá, os que protestam gritam “fascistas”, “nazistas” contra o grupo no corredor. Um parece se ofender, mas outro concorda: “sou fascista sim”. A reportagem não conseguiu apurar se era piada.

Essa batalha de memes aconteceu no prédio da Administração, no Centro Politécnico da Universidade Federal e foi provocada pelo encontro do grupo intitulado UFPR Conservadora com grupos de esquerda durante a exibição do filme 1964: o Brasil entre armas e livros, uma versão com liberdade poética do Golpe Militar daquele ano.

O documentário faz uma leitura que, diz, questiona essa história de que a Ditadura interrompeu um período democrático e implantou um regime violento defendendo a ideia de que ela, na realidade, impediu a instalação iminente do comunismo no país.

Como toda batalha de memes, a daquele dia foi feita de meias verdades: os organizadores do evento diziam que o filme “não defende a ditadura” e até faz “críticas ao regime”. Outra meia verdade: a de que os que iam acompanhar o filme não precisavam gritar como os que protestavam lá fora, como disse o sujeito que pareceu ser responsável pelo evento. Isso depois de muitos dos presentes, inclusive o autor do comentário, ficarem nas janelas gritando “acabou a mamata” e “chora petista” para o pessoal do “ditadura não”.

Com uns dez ou 15 minutos de atraso (fiquei decepcionada, esperava mais pontualidade da UFPR Conservadora, grupo que promovia a exibição), desligam a execução dos Concertos de Brandemburgo, de Johann Sebastian Bach, e um rapaz em um peculiar terno com colete dá início ao evento e convida a todos a cantar o hino nacional. Todo mundo em pé, mão no peito, cantamos o hino assistindo a cenas de combate no telão. Há uma bandeira do Brasil numa mesa e outra pendurada na janela.

Meu plano era assistir o documentário inteiro lá, apesar de ele estar disponível na íntegra no youtube. Mas resolvi sair da sala no meio da exibição quando percebi que haviam trancado uma das portas de saída. Foi assim que fui parar no meio da gritaria no corredor. Circula livremente pelo corredor um grupo de homens. Dois são rapazes que encontrei quando cheguei no prédio, e que, de camiseta do Bolsonaro (uma com a típica estampa camuflada que remete ao exército e a lojas de artigos de pesca), posavam em frente a um dos cartazes contra a ditadura fazendo sinal de arminha. Do lado de fora, o pessoal do Ditadura Nunca Mais se preparava para o protesto, fazendo outros cartazes e fumando um último cigarro.

Durante todo o tempo que fiquei no corredor, o bate-boca de hashtags continuou sem muitas emoções. Dois ou três rapazes mais exaltados gritavam com os que protestavam atrás dos seguranças enquanto outros transmitiam tudo para a nuvem, lacrando muito, como é de praxe nesse mundo pós-moderno em que “tudo mudou”.

A coisa esquentava um pouco quando um ou outro rapaz mais nervoso se aproximava da corda humana formada pelos três seguranças para bater boca mais de perto. Mas aí um dos seguranças resolveu impôr um “combinado”, obrigando o rapazes do corredor a ficar atrás de uma linha imaginária.

Um dos rapazes mais nervosos tentou desrespeitar o acordo, mas foi contido pela ala dos “vamos respeitar”, enquanto o que me pareceu o adulto responsável, explicava para o segurança que sabia que “ele só está fazendo o seu trabalho”.

Decido voltar para o auditório para ver o filme, mas antes de entrar, pego o telefone e começo a filmar a movimentação. Sou interrompida por alguém que imagina que estou também transmitindo ao vivo essa emocionante batalha e que passa a cumprimentar e falar com a minha “audiência”. Aparentemente é só erguer o celular que essa audiência se materializa.

Dentro do auditório, volto a tempo de descobrir que um mar de armas e dinheiro chegou ao Brasil e está nas mãos de terroristas comunistas. Entre eles, a ex-presidente Dilma Rousseff, cuja foto é saudada com gritos pela plateia. Também descubro que o reino de terror patrocinado pela esquerda comunista provocou excessos de militares e policiais, mas sem a anuência do regime. São pouco mais de 21h30 e vejo que temos quase uma hora de filme ainda pela frente.

Decido que poderia continuar a ver, se a vida não fosse tão curta. Pego minha bolsa e deixo a sala. A confusão no corredor acabou. Os seguranças liberaram o corredor e parte dos manifestantes foi embora, enquanto uns três tentam conversar com o pessoal do lado de cá. É hora de ir para casa conferir se a batalha chegou nos trending topics.

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