Crianças são ouvidas em denúncia de agressões em pré-escola | Jornal Plural
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5 abr 2019 - 19h25

Crianças são ouvidas em denúncia de agressões em pré-escola

Diretora se apresentou ontem e negou excessos mas polícia confirma vídeo com tapas

Ao menos dez crianças, de até seis anos, estão sendo ouvidas por psicólogos do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente (Nucria) de Curitiba, no caso que envolve denúncias de agressões em uma escola particular do bairro Água Verde. Além delas, outras 31 pessoas também deviam prestar depoimentos até esta sexta-feira (5).

As testemunhas começaram a ser ouvidas no dia primeiro de abril, quando o boletim de ocorrência foi registrado por pais e professores. O número é um “recorde” nas oitivas da Polícia Civil, que instalou inquérito para apurar as acusações contra a diretora e proprietária da escola, que se apresentou espontaneamente nesta quinta (4), negando excessos no relacionamento com as crianças. A polícia, no entanto, confirmou uma das provas apresentadas, um vídeo em que a diretora aparece dando tapas na boca de uma criança de 3 anos.

“Ela negou que tenha havido algum tipo de excesso mas disse que realmente é uma pessoa muito rígida, muito rigorosa no estilo de ensino dela mas que houve excesso ela, de certa forma, negou”, disse a delegada do Nucria, Ellen Victer, durante entrevista coletiva na manhã desta sexta. Segundo ela, a diretora estava calma e tranquila e respondeu a todas as perguntas.

A delegada lembra que a lei prevê dois tipos de tortura com relação a crianças: a física e a psicológica. “E esta interfere muito em crianças desta idade.”

Com relação aos depoimentos, Ellen aponta que funcionários confirmaram que a diretora praticava atos excessivos com seus alunos. “Alguns funcionários negaram, disseram que nunca verificaram este tipo de atitude por parte da diretora, mas boa parte dos outros funcionários e pais de alunos disseram que realmente aconteciam estas agressões.”

O delegado José Barreto, também do Nucria, destacou que existiram relatos de outras situações, porém sem provas concretas.

Até agora a polícia tem apenas duas imagens como prova das acusações. O vídeo dos tapas e outro que mostra a diretora de costas sobre uma criança deitada, que se debate. As demais imagens contidas no equipamento de filmagem da escola foram para o Instituto de Criminalística e o laudo, que atesta se houve ou não a manipulação das gravações, deve sair nos próximos dias. Exames de corpo de delito em alguns alunos também foram solicitados e a polícia aguarda o resultado para concluir o inquérito ainda nos próximos dias.

“Temos provas muito contundentes, mas só com o laudo pericial poderemos formar nossa convicção jurídica”, diz a delegada.                                                                

Denúncias antigas

Pelas investigações, a polícia acredita que as agressões aconteciam desde a criação da escola, há 23 anos. “Crianças que hoje já são adultas, algumas estão prestando depoimento, se recordando do que acontecia na época em que estudavam naquele colégio, como castigos excessivos”, afirma a delegada Ellen. De acordo com ela, a primeira denúncia aconteceu em 2014, quando um processo chegou até o Tribunal de Justiça, mas foi arquivado por falta de provas. “Depois disso, não houve mais nenhum boletim de ocorrência, só o de segunda.”

A escola está fechada desde terça-feira (2) e até agora 120 pais já solicitaram a rescisão de contrato. Dois deles estavam em frente à delegacia nesta sexta, mas não puderam participar da coletiva de imprensa. “Viemos aqui para saber mais detalhes das investigações. Minha esposa e filha já foram ouvidas e estamos apavorados com essa situação”, conta o administrador Ricardo Pereira. “Também queremos saber por que as professoras demoraram tanto para denunciar estas agressões? Meu filho presenciava isso”, assegura o educador físico Gustavo Steinke.

A prisão da diretora pode ser pedida “se houver necessidade mas ela está à disposição para esclarecimentos complementares”, garante a delegada. Ao final das investigações, a suspeita pode ser indiciada pelos crimes de tortura/ castigo, fraude processual e coação no curso do processo. Só o crime de tortura pode levar a até 8 anos de prisão.

Mutirão para depoimentos

Para o delegado Barreto, os depoimentos do caso bateram o recorde da polícia civil em “termos de oitiva em tão pouco tempo”. Para conseguir atender a todos, foi feito um mutirão entre os escrivães mas, ainda assim, a orientação é de que os pais não procurem o Nucria sem serem intimados. “Aguardem em casa pois estamos ligando e agendando para fazer as oitivas pois, mesmo em mutirão, os escrivães não conseguem dar conta.  Pode ligar e passar o RG e o fone. Só serão ouvidos os que acharmos necessários para termos nossa convicção jurídica.” Os que não forem ouvidos, vão ser listados no relatório final e encaminhados ao poder Judiciário e poderão ser ouvidos durante o processo penal.

“Entendemos que todos os pais estão apreensivos e aflitos mas podem confiar no trabalho da polícia pois estamos correndo atrás de todas as provas a fim de que ela possa responder por estes crimes. Realmente é um crime que choca, que não pode passar impune, só que pelo fato dela não ter sido presa em flagrante demanda uma investigação, até porque existe o princípio da presunção de inocência, previsto na Constituição Federal. Então, vamos reunir todas as provas possíveis a fim de que ela, de fato, possa ser indiciada e responder por estes crimes tão grave”, conclui o delegado.

Manifestação

Na noite de quinta, dezenas de pais se reuniram em frente à escola para protestar. Muitos deles estavam com cartazes e camisetas do uniforme dos filhos. “Queremos colocar ela na mídia, mostrar a cara dela, queremos que ela seja presa”, dizia o empresário Marçal Ambrósio, presente na manifestação. “Meus dois filhos (4 e 2 anos) estudavam aqui desde os seis meses. Nós sabíamos que ela era dura, mas bater, isso nunca imaginamos.”

A diretora e seu advogado foram procurados pelo Plural mas não quiseram se manifestar sobre as denúncias.

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