“Não vamos deixar reabrir a Ilha do Mel”, dizem moradores | Jornal Plural
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6 ago 2020 - 17h17

“Não vamos deixar reabrir a Ilha do Mel”, dizem moradores

Governo autorizará visitantes em 15 de agosto e nativos temem contaminações por coronavírus, ainda não registradas na Unidade de Conservação do PR

A Secretaria do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo (Sedest) e o Instituto Água e Terra (IAT) reiteraram, nesta quarta-feira (5), os planos de reabertura das Unidades de Conservação do Paraná para o dia 15 de agosto – o que inclui a Ilha do Mel.

Apesar de empresários defenderem a retomada do Turismo na região, moradores asseguram que não permitirão a entrada de visitantes, por medo da contaminação por Covid-19. Até agora, nenhum caso da doença foi registrado na Ilha, que está com a visitação suspensa desde 21 de março.

“Não ouviram a gente, só a Junta Comercial. Para nós, não é viável abrir agora, pra na alta temporada estarmos todos contaminados e termos que fechar de novo. Temos muitas crianças e idosos aqui. Não tem porque apressar. Queremos responsabilidade, consciência e respeito pelos nativos e trabalhadores. Não vamos deixar reabrir a Ilha”, diz Flávio Damasceno, morador em Encantadas.

Com cerca de 1,3 mil moradores, a Ilha do Mel é uma Unidade de Conservação (UC) gerida pelo Estado e dividida em Estação Ecológica (95%) e Parque Ecológico (5%). O Turismo só é permitido na área do parque, que possui 140 pousadas em seu entorno.

“Nosso Posto de Saúde não tem UTI, respirador, nem atendimento de emergência para transporte. Na baixa temporada ficamos largados; se alguém passar mal tem que colocar num barco e levar pra Paranaguá pois a Prefeitura não tem suporte. O trapiche está em obras, não tem como fazer isolamento”, afirma Damasceno.  “Se o governo insistir, não vamos fornecer hospedagem nem alimentação. O turista não vai poder nem comprar nos mercados da Ilha. Não dá pra mandar gente pra cá.”

A última reunião dos moradores de Encantadas foi na Escola Estadual Felipe Valentim. “A própria comunidade resolver se mobilizar. Só o comércio participou de reunião de protocolo pra reabertura, mas a comunidade não tinha conhecimento. Não temos estrutura para receber turista, nem nenhum caso de Covid. Prova que estamos nos cuidando, o que vai mudar quando a ilha abrir em meio a esse pico”, acredita a diretora da escola, Kelly Cristina de Araújo.

Os moradores estão organizando um abaixo-assinado, que irão encaminhar para a Prefeitura de Paranaguá (responsável pelos decretos de reabertura do comércio), para o governo do Estado e também para o Ministério Público.

Sem estrutura para turistas

A Associação dos Nativos da Ilha do Mel (Animpo) participou de uma reunião, nesta quarta-feira (5), com os governos municipal e estadual, Associação dos Comerciantes da Ilha do Mel (Acoim), União das Mulheres da Ilha (Emilha) e outras entidades representativas.

“Paranaguá garantiu que a Ilha só abre depois que todos entrarem no consenso e tiverem toda estrutura, mas por enquanto não tem nada decidido. Ficam nesse jogo de empurra, o Estado larga a mão e passa a bola pro Município, mas na reunião de hoje o secretário de Cultura e Turismo de Pontal do Sul confirmou que hoje não temos estrutura pra atender os turistas”, reforça o secretário da Animpo, Felipe Andrews.

“Provavelmente vem outro decreto proibindo a visitação, até decidirem o que fazer, como o controle do embarque em Pontal, Paranaguá e na própria Ilha, além da fiscalização, pois muitos locais não têm fiscalização.”

Os moradores querem uma estratégia para abrir com segurança e irão juntar os abaixo-assinados de cada região da Ilha para protestar. “Não dependemos de Estado e Município pra decidir se vai abrir ou não. Não vai ser comerciante, governo nem prefeitura se os moradores não quiserem, pois têm que respeitar nossa comunidade tradicional e nossa opinião”, ressalta Andrews. “Nem que a gente tenha que fechar todos os terminais de embarque.”

Trapiche de Encantadas está em obras. Foto: José Fernando Ogura/AEN

Divergência entre governos

Apesar do governo do Estado garantir a previsão de reabertura para 15 de agosto, a Prefeitura de Paranaguá informou que não há definição sobre a reabertura da Ilha do Mel. “A Secretaria Municipal de Saúde e o Estado do Paraná estão debatendo sobre os protocolos e as datas para atendimento ou não. É importante ressaltar que a abertura foi uma solicitação da Associação Comercial da Ilha do Mel. A área do Parque (Ecológico) é de responsabilidade Estadual e o Município não tem responsabilidade”, disse, em nota.

Também em nota enviada ao Plural, a Secretaria do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo e o Instituto Água e Terra informam que “em reunião do IAT com a Animpo, Emilhas, Acoim, Adetur e outras associações, provocada pela Prefeitura de Paranaguá, na manhã de hoje (5), foi reiterada a abertura de todas as Unidades de Conservação no dia 15/08/2020”.

O texto diz que “após reunião, na última sexta-feira (31), organizada pela Prefeitura de Paranaguá, ficou definido que serão instaladas barreiras sanitárias no acesso aos terminais de embarque para a Ilha, em Pontal e Paranaguá; fiscalização nos trapiches na Ilha do Mel conferindo a apresentação de carteirinha de residente ou o comprovante de recolhimento de taxa de embarque. Todas essas ações ficaram de responsabilidade dos municípios”.

A Secretaria de Turismo assegura que irá ofertar capacitação dos comerciantes em relação aos protocolos de segurança sanitária e social. “E a Prefeitura de Paranaguá fará a capacitação dos profissionais de saúde. Com relação às obras do trapiche, elas prosseguem e a previsão de conclusão é novembro.”

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2 comentários sobre ““Não vamos deixar reabrir a Ilha do Mel”, dizem moradores

  1. Acredito não ser o momento para reabrir para turismo que tanto fortalece a economia da ilha. Estamos em agosto, nenhum caso da Covid na ilha e tapiche em obras. Aguardar conclusão das obras e analisar possível reabertura em novembro. Governo poderia dá suporte financeiro aos comerciantes da ilha até novembro, por exemplo.

  2. Vamos fazer assim: quem tá com o rabo cheio de dinheiro e com medinho, se esconde embaixo da cama. Quem Precisa trabalhar, recebe os turistas. Ninguém está sendo obrigado a sair beijando turista. Chega dessa fraudemia, prcisamos viver.

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