Ano de isolamento nos deu uma parábola: um Papa na praça vazia | Jornal Plural
26 dez 2020 - 12h05

Ano de isolamento nos deu uma parábola: um Papa na praça vazia

O Papa Francisco nos fez perceber a parábola do vazio, o vazio da praça de São Pedro

No filme mental em que rodam as imagens destacadas de uma das principais crises dos últimos cem anos, ao lado de rostos mascarados e machucados, de olhos perdidos e ruas despovoadas, a oração em uma Praça São Pedro vazia, será, certamente, uma das mais simbólicas representações deste momento da História. À frente do nada e de todos ao mesmo tempo, o Papa Francisco, líder máximo da igreja Católica, dirigiu-se à multidão enclausurada em suas casas para lembrar que a tempestade deixou todos à mercê de suas próprias fragilidades. A pandemia continua, e o sentido da expressão segue reverberando.   

“O Papa Francisco nos fez perceber a parábola do vazio, o vazio da praça de São Pedro. Mas, ao mesmo tempo, ele apresentava um barco cheio de gente à deriva no mar, significando que toda humanidade está simplesmente em um único barco”, recorda o Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Londrina, Dom Geremias Steinmetz.

A referência é à mensagem da bênção Urbi et Orbi proferida em caráter extraordinário pelo Bispo de Roma no dia 27 de março, quando a pandemia do coronavírus atingia seu primeiro pico avassalador no mundo. Acima dos protocolos, que preveem o rito apenas nos dias de Natal e Páscoa e quando um novo sumo pontífice é eleito, o Papa Francisco caminhou pela Praça São Pedro vazia e chuvosa e pronunciou que a crise que assombrou 2020 era a mesma derrubava a maquiagem dos estereótipos “com que mascaramos o nosso «eu» sempre preocupado com a própria imagem”.

A declaração é, segundo Dom Geremias Steinmetz, a síntese de um ano sem precedentes para várias gerações. Além de suas consequências diretas – com milhares de mortes e adoecidos –, a pandemia evidenciou, por um lado, a derrocada de projetos e sistemas solidificados no individualismo; por outro, marcou 2020 como um tempo de generosidade e renovação, que, segundo ele, revelaram um caminho coletivo de superação.

“Nós, Igreja, tivemos que nos refazer dentro das casas, no sentido de levar o anúncio da palavra de Deus com formatos diferentes. Mas o mais bonito de tudo é que também crescemos muito na caridade. Foi exatamente o diálogo que a Igreja empreendeu com a sociedade, não de uma forma impositiva, mas de respeito ao que era realmente importante, que fez deste o momento em que passamos a ajudar, a atender, a incentivar um verdadeiro pacto pela vida”, interpreta.

Por isso, a força coletiva, que se constrói e se refaz quando a miséria humana desencadeia o colapso, é o que alimenta a esperança de um Natal tão diferente para a igreja Católica. As celebrações adaptadas e os encontros mais tímidos continuam como a realidade do momento, mas, a exemplo da parábola da praça vazia, as palavras que ecoam das catedrais nesta época do ano não se perdem, nem se deixam intimidar.

“Apesar de tudo, é importante deixar a todos a mensagem de muto otimismo porque o Natal é isso. O Natal é tempo de a gente ser extremamente positivo, de a gente ser otimista diante da realidade, porque Deus não escolheu a realidade para se encarnar na nossa História. Ele simplesmente está na História da humanidade e, com sua mensagem, quer continuar fazendo a diferença, principalmente com sua mensagem de paz.

Um 2021 de diálogo

Para o religioso, os pequenos hábitos do dia a dia remodelados com a mudança provocada pela crise do coronavírus continuarão fortes e expressivos em 2021. Pelo menos, é o que espera. Ao falar do mundo, e, principalmente, do Brasil, Dom Geremias Steinmetz acredita que o novo ciclo eclesiástico poderá ser uma oportunidade de retomada do diálogo que se dissolveu diante de tanta negação, sofrimento e guerras ideológicas.

A crença vai ao encontro do tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021, anunciada em outubro pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), braço da Igreja Católica que reúne os Bispos católicos brasileiros. A proposta do debate do próximo ano é resgatar a importância do diálogo em meio ao contexto de polarização que se espalhou pelo país.

“A gente espera que isso tudo o que está acontecendo se reverta em possibilidades para que o nosso povo possa compreender cada vez mais a vida. Vemos que a violência contra a mulher, contra a criança, contra a nossa Amazônia, estupros que cresceram durante a pandemia, todas estas lutas que pareciam estar em um caminho de vitória agora voltam mais fortes. Em um tempo em que, no Brasil, a gente enfrenta cada vez mais discursos preconceituosos contra grupos, contra pessoas, contra as fake news, que continuam fazendo muito mal, temos que, de fato, continuar pregando a paz e mostrar o que é viver e construir a paz no Brasil de hoje”, reflete o Arcebispo.

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