"Fator Bolsonaro" esgota livro de Ustra em Curitiba | Jornal Plural
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22 jan 2019 - 0h00

“Fator Bolsonaro” esgota livro de Ustra em Curitiba

Livro de cabeceira do presidente Jair Bolsonaro, A verdade sufocada, do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, vendeu 112 exemplares desde setembro de 2018 em rede de livraria em Curitiba. Título está esgotado e leitores fazem fila de espera para comprar obra revisionista de torturador.

Desde que Jair Bolsonaro anunciou no programa Roda-Viva, da TV Cultura, que seu livro favorito era A verdade sufocada do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, falecido em outubro de 2015, simpatizantes do governo de extrema-direita de Bolsonaro começaram a caçá-lo em livrarias. Em Curitiba, o livro esgotou em algumas lojas e há gente fazendo fila de espera para comprar um exemplar.

As Livrarias Curitiba venderam 112 exemplares do livro desde setembro até a semana passada. O pico de vendas foi em outubro – 49 obras vendidas – quando Bolsonaro disputava o primeiro e o segundo turnos das eleições presidenciais.  De acordo com a subgerente da Livrarias Curitiba, Luciane Lima, a venda tende a crescer exponencialmente.  

Segundo o professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo e estudioso do regime militar, Marcos Napolitano, a procura pelo livro é somente a ponta do iceberg de um movimento da parte ultraconservadora da sociedade brasileira em busca de uma narrativa da extrema-direita sobre o regime militar. “Este fenômeno já ocorre na Internet e nas redes sociais há alguns anos”, analisa.

Para Napolitano, por outro lado, mais do que uma narrativa histórica crítica sobre a luta armada e a repressão estatal, trata-se de uma cantilena contra todos os movimentos sociais no Brasil. Principalmente aqueles que nada têm a ver com a tradição da guerrilha, como se todos fizessem parte de uma grande conspiração do “comunismo internacional” até os dias atuais. 

Sobre ser a obra de cabeceira de Jair Bolsonaro, Napolitano afirma que “ao citar o livro, claro que ele amplificou o seu alcance. Bolsonaro trouxe para o espaço público e para a política institucional a narrativa da extrema direita, que nunca teve espaço na mídia liberal, no sistema cultural ou na academia, por motivos diversos, que vão muito além de mera ‘conspiração do silêncio’. Esse pulo do gato deu certo do ponto de vista eleitoral, sobretudo no contexto de desmoralização da esquerda”.

Revisionismo

Lançado em 2006 pela editora do próprio coronel, o livro na 16ª edição, ainda que tenha ficado esgotado por um período. Em sua capa, Ustra diz contar “a história que a esquerda não quer que o Brasil conheça”. Trata-se de uma obra revisionista, que não é levada a sério pelos historiadores, e que tenta eximir de culpa os agentes do regime militar que torturaram e mataram entre 1964 e 1985.

Ustra chefiou o DOI-Codi, órgão do II Exército encarregado da Operação Bandeirantes, a Oban, uma das mais violentas operações da ditadura brasileira contra grupos opositores. O coronel foi apontado como responsável por inúmeros crimes, mas acabou livre de qualquer punição em função da Lei da Anistia, de 1979.

Ustra, na época do DOI-Codi.

Junto com a historiadora Maria Joseíta Silva Brilhante Ustra, à época sua esposa, o coronel escreveu 567 páginas sobre as “falsas fotografias de Vladimir Herzog”; sobre sua infância em Santa Maria, Rio Grande do Sul; longos depoimentos de sua carreira militar; seu “ponto de vista” sobre o que ocorreu durante a ditadura; justificações para as mais de 500 mortes ocorridas no período.

Agraciado por Bolsonaro, em abril de 2016, em discurso na Câmara dos Deputados durante a votação do processo de impeachment de Dilma Rousseff, Ustra negou que tivesse cometido crimes. O depoimento foi dado em 2013, para a Comissão Nacional da Verdade. Disse que somente seguia ordens de seus superiores.

Livro homenageia Olavo de Carvalho

O filósofo Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo e da extrema-direita, é um dos homenageados em A verdade sufocada. “Também não poderia deixar de agradecer aos que escreveram artigos, livros e mantêm sites onde esclareci minhas dúvidas”, escreveu Ustra.

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