Hidroxicreolina | Jornal Plural
12 abr 2021 - 1h00

Hidroxicreolina

Nessa incrível, inimaginável doença que tomou conta do Brasil, o bolsonarismo, nenhuma verdade importa: um médico bolsonarista ignora a medicina se ela não se encaixar em seu fanatismo político

Hoje esse senhor já é falecido, mas no início dos anos 90 ele tinha uma lojinha no centro de Araucária, e no centro de Araucária as lojinhas eram muito ecléticas nos anos 90, então ele vendia roupas e carnes, porque, tendo o pensamento empresarial aguçado, já sabia que ao se diversificar o produto diversifica-se o público.

Um dia ele colocou uma plaquinha na frente da loja anunciando um produto novo, em um novo nicho, o dos fármacos: elixir cura-tudo, e sob tão promissor título a lista de doenças combatidas pelo fluido milagroso: aids, câncer, doença do mundo, varíola, dengue, calo, barriga presa, impotência, sarna, cólera e muitas outras.

O remédio, um líquido preto, vinha em um frasco transparente obviamente reutilizado de algum outro produto, denotando sua fabricação caseira. O sucesso era garantido pelo dono da venda: eu que fiz esse elixir, pode confiar.

E apesar de ter sido em Araucária, e apesar de ter sido nos anos 90, a vigilância sanitária eventualmente bateu lá e constatou que a mistura entre creolina, ervas aleatórias, melagrião e leite de rosas não poderia ser vendida como remédio, talvez nem sequer pudesse ser vendida a título algum, e que o tiozinho deveria descer até a delegacia se explicar.

Quase deu cadeia. Prática ilegal da medicina, estelionato, sei lá quantos outros artigos puderam ser incluídos na denúncia, mas ficou feio pro dono da bodega.

Isso já faz uns trinta anos, mas hoje a única coisa que separa aquele charlatão de uma parte dos médicos brasileiros é o diploma.

Se um médico hoje misturasse creolina, ervas aleatórias, melagrião e leite de rosas e receitasse isso a um paciente de Covid, via oral, tópica ou por nebulização, a despeito da inexistência de qualquer comprovação científica, quem poderia impedir? Afinal, se ele tem o diploma, ele sabe o que está fazendo, e não importa se existe prova de eficácia ou se isso pode fazer mal ao paciente. Um médico é um médico, ele sabe.

Nessa incrível, inimaginável doença que tomou conta do Brasil, o bolsonarismo, nenhuma verdade importa: um médico bolsonarista ignora a medicina se ela não se encaixar em seu fanatismo político.

O charlatão da vendinha de Araucária hoje já é falecido, e isso é ótimo. Fosse vivo poderia acabar virando ministro. Pra assumir esse cargo, hoje, não é necessário saber absolutamente nada — na verdade é até melhor que não saiba.


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