O talho do Moreira | Jornal Plural
24 fev 2021 - 1h00

O talho do Moreira

Desde que me mudei para cá vejo idosos por toda parte, andando cabisbaixos, hesitantes, parados nas esquinas para olhar boquiabertos uma banalidade qualquer, sentados nos bancos de praça com suas máscaras mal colocadas

Vento furibundo. Não tenho carne nenhuma. Quero dizer, como vou buscar carne com esse vento? Parece que a casa está pulsando sob os bafos do Cão. A chuva é uma louca nua, corre para lá, para cá, se esfrega nas paredes, rola rindo pelo chão. Portas estalam, janelas gemem. A cadeira lá fora acaba de voar, os grampos saltam do varal. A luz da lâmpada oscila. É o fim do mundo? Antes fosse, só tenho macarrão e preciso comprar carne.

Dois bifes de fígado, talvez uma coxa de peru… Codornizes! – é preciso enfrentar esse vento.

Visto o casaco à prova d’água, as botas, tiro da caixa uma máscara nova. Surge no celular uma mensagem oficial. Há risco de inundações na região de Lisboa e Setúbal. Antes de sair, vou ao banheiro e descubro que até a água do vaso sanitário, holística, pulsa.

Quando chego à rua, a dança selvagem dos elementos me engole indiferente. Desisto de usar o guarda-chuva, ergo o capuz; inclino-me para enfrentar ombro a ombro o tranco da ventania. O calor da respiração sob a máscara embaça meus óculos. Não há ninguém na avenida trespassada pelas mil agulhas da chuva, exceto, sob o toldo da Casa Pandora, um mendigo negro, de rosto anguloso que me lembra Os Comedores de Batata do Van Gogh. O comércio está todo fechado. Nem mesmo o surdo-mudo abriu a banca de revistas, para ler, nos meus lábios ansiosos de fumante, Um Chesterfield azul, por favor.

Por que cargas d’água imaginei que o açougue, ou melhor, o talho estaria aberto? Deixo a avenida, percorro a ruazinha da lavanderia sentindo falta do vapor cheiroso de sabão que o duto na parede soprava sobre os passantes. Ao dobrar a esquina para entrar na viela do talho, é como se eu fechasse a porta. Ali não venta e a chuva cai serena, quase reta.

De uma janela lá no alto um homem velho me olha; não desvia o olhar abstrato quando o encaro.

Desde que me mudei para cá vejo idosos por toda parte, andando cabisbaixos, hesitantes, parados nas esquinas para olhar boquiabertos uma banalidade qualquer, sentados nos bancos de praça com suas máscaras mal colocadas. Aguardam vergados nas filas dos bancos, supermercados, farmácias, à espera de qualquer coisa que os ocupe. Muitos são analfabetos, produzidos em série pela máquina de alienação dos tempos de Salazar. Vez ou outra, quando os vejo, penso em como deve ser fosco envelhecer sem recursos para descrever sentimentos mínimos, mesmo que seja o degradê do horror de um corpo em declínio.

Diante da vitrine do talho, respiro aliviado. A luz está acesa; o vermelho das carnes surge como o morango entre as folhas; Moreira, de costas para mim, destrincha um coelho na bancada limpa. Teremos carne, diz o aparelho sexual das minhas papilas gustativas. Acendo um cigarro. De avental branco, magro, semicalvo, Moreira exibe a dignidade do ofício. “Muitos anos a virar frangos”, dizem os portugueses para o nosso “macaco velho”. Há quarenta anos ele manipula este cutelo, que há muito é uma extensão precisa do seu braço. Corta o coelho inteiro na velocidade em que amarro meus sapatos. Apago o cigarro no chão, atravesso a cortina de tiras plásticas.

– Então, o que é que o Marcos vai querer hoje?

Resolvo levar um pedaço de músculo.

– Este é bom, tem gelatina, ele diz.

– Exatamente.

Ele sorri. Pergunta-me se quero a carne inteira, peço que a corte em pedaços. Ele pica a carne em cubos incrivelmente simétricos.

– Tempos estranhos, digo.

– Há muita solidão, responde, o cutelo cintilando sob a luz fria. Nasci numa aldeia do norte, onde há muitos velhos.

– Curiosamente eu vinha pensando…

– Nós batíamos nas janelas deles para ver se diziam alguma coisa. Então era sinal de que estavam vivos. Agora uma pessoa morre e só se descobre pelo cheiro. Há muita solidão. Durante o dia, vá lá, há o que fazer. Mas as noites são terríveis, pá. De que lugar do Brasil o Marcos veio? Tenho lá um irmão.

Volto para casa segurando a ponta superior do capuz para que o vento não me destelhe. Estranho, esta rua parecia protegida. Lá está o homem na janela, atrás do vidro ligeiramente embaçado por sua respiração renitente.

Devo ser, para ele, o que ele é para mim. Um fantasma contumaz da realidade.

Viro a esquina, sou encarado pela ventania:

Como passará as noites o Moreira?


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