Nítido abismo

Quando acordei, estava em uma cama estranha, num quarto que nunca tinha visto. A luz do sol se estendia pelo assoalho encerado, vibrava nas cortinas brancas

Marcos Pamplona

Atrás do cão

Na lanchonete da estação, comprei um sanduíche de presunto. Deixei-o diante do cão. Com calma, ele catou o pão e percorreu o sombrio corredor que leva às ruínas da antiga estação de comboios do Barreiro

Marcos Pamplona

Boi desgarrado

Nossos corpos se tocavam na perfeita ignorância do passado, confiantes no interesse comum pelo teatro, por Sófocles, Artaud, pela urgência de um grito

Marcos Pamplona

Nos braços do amor

Nosso amor começou tímido, na adolescência, quando os adultos nos afastavam a toda hora. “Vá fazer alguma coisa”, diziam, como se deitado no sofá, com um livro nas mãos, eu não estivesse fazendo nada

Marcos Pamplona

O quintal

Ao contrário das nossas, sempre temporárias, precárias, caóticas, a moradia dos meus avós exalava a calma de uma família estável e bem organizada

Marcos Pamplona

O anjo da incerteza

Você pode achar esquisito, mas o que sinto agora é ternura e respeito pelos confusos, pelos hesitantes, pelos tímidos, perdidos, céticos, por todos aqueles que caminham sobre a mais profunda ignorância, sem impor seu exemplo a ninguém

Marcos Pamplona