Newchance | Jornal Plural
21 abr 2021 - 0h07

Newchance

É uma loja estreita, longa e escura onde mal se pode andar. Prateleiras, balcões e araras estão atulhados de milhares de artigos usados, objetos tão diversos que os olhos e o olfato não encontram repouso naquele caleidoscópio do mundo kitsch da pequena burguesia

Há uma loja no Barreiro que costumo visitar. Entro hesitante, como que pedindo desculpas antecipadas, porque não tenciono comprar nada. Chama-se Newchance, mas a afetação de elegância que o nome em inglês sugere nada tem a ver com o lugar. É uma loja estreita, longa e escura onde mal se pode andar. Prateleiras, balcões e araras estão atulhados de milhares de artigos usados, objetos tão diversos que os olhos e o olfato não encontram repouso naquele caleidoscópio do mundo kitsch da pequena burguesia.

Na vitrine uma pastorinha de porcelana branca e azul segura as duas pontas do vestido, junto a um cabritinho que olha terno para ela. Ao lado, um quadro com quatro azulejos emoldurados ordena: “Amai-vos, porra!”. O tom bucólico e piegas da pastorinha e a vulgaridade sem pejo do quadro acompanham o visitante loja adentro. 

Logo na entrada há uma estante de bestsellers, entre os quais um leitor mais exigente encontrará algum romance perdido de Mia Couto ou um razoável compêndio de história. Em frente aos livros, o busto de um manequim poderá estar usando um casaco cintilante da Adidas, com o capuz sobre a cabeça e uns óculos escuros enormes, de plástico barato. A partir dali a confusão se estabelece. Você olha ora para uma bolsa verde que imita couro, cravejada de tachinhas douradas; ora para uma saudosa terrina de vovó salpicada de rosas, ora para um vinil do Metálica ou da Amália Rodrigues. Sente cheiro de roupa guardada, de sapatos velhos, de livros, de velas, madeira antiga, brinquedos de borracha. Mulheres africanas, brasileiras e portuguesas remexem aqui e ali, em busca de algo que as redima. E de repente uma jovem negra surgirá excitada daquela barafunda, os braços cheios de roupas que agora chamam de vintage. Ou uma velhinha trará delicadamente nas mãos a placa fina de metal em que a Santa Ceia emerge em incerto relevo.

Fico ali meio sem jeito, quase nunca há homens na Newchance. E, como disse, não compro nada. Mas finjo escolher algo, reviro os bestsellers inutilmente, em busca de vida inteligente; ou examino uma xícara orientalizada, um eletrodoméstico que atravessou décadas intacto, bonequinhos de soldados franceses de chumbo, colares de vidro colorido… As mulheres fingem não me estranhar, mas às vezes a dona, uma senhora loira, pesada e lenta surge lá do fundo, vem até mim com doçura no olhar: “Posso ajudá-lo?”. Respondo que estou só olhando. Estou olhando inclusive a dona, que arrasta os pés inchados, rosados como frangos atados em sandálias (os pés de minha mãe, que empurrava moribundos nas macas pelos corredores da Santa Casa de Misericórdia o dia inteiro e, à noite, levantava-os no sofá para ver novela de lado).

A Newchance é a minha nova chance de viver a infância que passei – ou seus ecos – nos subúrbios de Curitiba, nos anos 70. Fitas K7, carrinhos de lata, pastores alemães, costelas-de-adão, bobes, quadros com toscas paisagens idílicas, samambaias, mesas de fórmica, vestidos estampados com um laranja e um marrom que andavam sempre juntos. Aqui e ali um cristo, uma pietá, uma rosa de plástico. Minha avó ouvindo Julio Iglesias, que nadie sepa mi sufrir, enquanto eu aprendia no quarto que devíamos respeitar os símbolos nacionais, jamais rasgar a bandeira daquele país dominado por tiranos, jamais rasgar o pendão da esperança que não tínhamos. Meu avô a pintar eternamente as cercas que guardavam nossa pobreza digna, nosso conveniente silêncio. E matar um passarinho com uma funda, e depois olhá-lo morto como quem estupidamente apagou uma chama no escuro. E correr por aqueles campos entre fábricas e madeireiras, campos que ainda correm por mim. Sentir o cheiro do mato crestado pela geada, quando o sol o secava e eu ia para escola usando congas, calça de tergal azul e camisa branca (no bolso da camisa o nome da escola, homenagem à esposa de um governador bandido).  

– Posso ajudá-lo? – repete a doce voz da mulher que tem os pés de minha mãe.

Pressinto o antigo vento. E vejo subir na penumbra o fio da pipa que um dia alcei ao céu, e que jamais voltou.


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