A palavra é dele | Jornal Plural
21 abr 2021 - 0h08

A palavra é dele

Afinal, por que uma pessoa deve mudar quando todo mundo pode perdoá-lo?

– E agora falamos com ele, Rubião, eleito um dos homens mais bonitos dessa edição e que acabou de sair da casa. Tudo bem, Rubião?

– Bom demais.

– Rubião, é surpresa pra você ter saído da casa mais famosa do Brasil?

– É um jogo, né? Então essas coisas acontecem. Deixo aqui o meu agradecimento a todos que torceram por mim.

– Muita gente torceu, Rubião. Inclusive você tem uma agenda cheia aqui fora, esta semana. Muitas entrevistas, diversos programas que querem te receber.

– Bom demais!

– Mas conta aqui pra gente, ao vivo pra todo o Brasil. Por que você acha que saiu?

– Sei lá, tenho impressão que começou alguma coisa de intriga, talvez as pessoas aqui fora ficaram com uma impressão errada de algo que falei. O povo que manda, né?

– É, teve alguma coisa assim.

– Mas nem imagino o que seja. É que, muitas vezes, as pessoas não entendem que é só um jeito de falar, não sou eu.

– Sei. Então, quando você disse que “Hitler fez muito pouco”, foi só um jeito de falar?

– Ah, certeza que foi. Mas nem me lembro de falar isso. Foi numa festa? Eu devia tá bebaço.

– Foi logo depois de um almoço.

– Ah, pior! Eu fico meio grogue depois de comer. Soninho e tal.

– E por que você acha que continuou na casa por tanto tempo?

– … acho que as pessoas entendem que eu, desse meu jeito, não posso ser, assim, responsável MESMO pelo que eu falo, né?

– Exatamente! Palmas pro Rubião, senhoras e senhores!

– Bom demais.

*****

– Rubião, meu querido, tá gostando aqui do nosso café da manhã ao vivo, pro Brasil todinho?

– Uma delícia tudo, obrigado por me receber no seu programa.

– E conta pra nossa amiga telespectadora como que você tá se sentindo agora, aqui, fora da casa?

– Eu sinto… Bom, eu falei ontem à noite com o Chico, que é meu manager, e vou precisar estar repensando as minhas atitudes. Preciso rever coisas. Mas eu fico feliz de saber que… quando a gente fala… como é que é mesmo?

– As controvérsias.

– Isso, as controvérsias! Elas não sou eu, sabe? Porque isso tudo aí, no fundo mesmo, é só um jeito de falar.

– Fico feliz porque eu, enquanto mulher, fiquei um pouco preocupadinha com coisas que você disse umas semanas atrás.

– Sinto muito, não gostaria de deixar ninguém chateada. Ainda mais com um cafezão bom demais desse.

– A gente fica feliz que você goste, Rubião.

– Mas, se você me permitir perguntar, foi o quê que eu falei?

– Ah, você deve lembrar. Quando você disse pro Tobias que “se não serve pra transar, pelo menos serve pra uns tapas na cara”.

– Ah, eu devia tá bêbado demais. Inclusive conversei com o Chico, meu manager, e vou fazer uma campanha contra os problemas do alcoolismo e a violência.

– Bom saber da campanha! Parabéns!

– Opa, é o mínimo, né?

– Mas não… Você falou isso de tarde, de dentro da piscina, depois de uma sessão de exercício.

– Então tá explicado. O exercício me deixa meio grogue e a eu faço umas sequências pesadas.

– Você acha que foi por isso que não foi eliminado antes? Porque você estava em outras eliminações.

– Sim. Numa que saiu aquela menina…

– A Fran.

– Isso, a Fran. Faz sentido, né? Porque tava meio largada, ela parecei meio desanimada. Sabe quando parece que tá o tempo todo naqueles dias?

– E a Judite?

– É que a Ju teve esse defeito grave, né? Era pra ela ter ficado com alguém e não ficou. Quando não fica e não pode chamar de “namorada de” fulano, aí acaba perdendo o interesse.

– E você acha, então, que a “mulher largada” e a que “não ficou com um cara” são melhores opções do que você?

– Imagina, eu não falo nada, quem falou foi o público. Eu não sei me expressar tão bem quanto a senhora.

– Você! Me chama de você.

– Opa! Chamo sim. Espero que VOCÊ e todo mundo do Brasil perdoe esse meu jeito de falar. Tô vendo com o Chico, meu manager, pra poder arrumar isso. Porque o Brasil merece. E VOCÊ merece.

– Ai, esses meninos, né? Fofos! Vamos ver umas fotos sensuais suas na casa?

– Bom demais!

*****

– Exatamente às 19h45. Rubião, conta pra nós: já bateu um arrependimento?

– Claro, arrependido, muito. A gente fica surpreso de ver, quando sai da casa, como o nosso jeito de falar pode ser visto pelas pessoas como preconceito. E não é. Juro.

– E só pra deixar bem claro, pra todo o Brasil: você não é preconceituoso?

– Absolutamente.

– Então, quando você disse “esses merdas tinham que voltar tudo pra África” não foi uma fala preconceituosa sua?

– Foi numa festa? A bebida me…

– Foi no café da manhã, Rubião.

– Eu acordo muito alterado pelo soninho.

– Mas essa frase é comprometedora, bicho!

– Eu vi que, na verdade, a edição não mostrou a frase inteira. Eu falei com o Chico, meu manager, a frase inteira seria “e nós temo que voltar pra Europa e as pessoas da família da Ângela tem que voltar pra Japão, pra gente devolver esse país para os povos originários, reestabelecendo o equilíbrio com a natureza”. Eu sou bastante bio-consciente.

– Você sabe que a sua parceira de jogo, Ângela Lee, é de origem chinesa?

– Sei, sim.

– Rubião… De verdade, eu não sei como você resistiu a tantas eliminações…

– Ah, talvez porque eu e você sejamos muito parecidos e as pessoas querem ver pessoas como nós na televisão?

– Ô loco, bicho! Brincadeira esse Rubião! Sucesso pra você, garoto!

– Bom demais.

*****

– Bom, e aqui vai a nossa última pergunta.

– Claro, mas se quiser perguntar mais pode perguntar.

– Não precisa, não. Só pra ficar registrado que o senhor Rubens Allonzo Algaci Júnior estava, ao longo do programa, usando um medicamento que afetava o raciocínio e que, por isso, coisas que nunca seriam faladas por ele acabaram sendo proferidas ao longo da veiculação. O senhor confirma isso?

– Confirmo sim e, qualquer coisa, é só ligar pro meu médico que, por acaso, é irmão do Chico, meu manager, que ele tem as receitas todinhas.

– Não vai ser necessário, senhor Rubens.

– Ah não?

– Não. Todo mundo aqui da delegacia também é branco. Antes de você ir… Podemos tirar uma selfie?

– Bom demais.


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