A minha Malena | Jornal Plural
19 abr 2021 - 7h42

A minha Malena

A frase me provocou um estardalhaço ao longo dos meses seguintes. Dei de ouvir mais tango e de pensar no gênero sob diversas perspectivas

Da mesinha ao lado do palco, eu permanecia boquiaberto, como diante de uma revelação. A cantora desfiava, um a um, os tangos mais pungentes de seu repertório, fazendo se acompanhar apenas por um violonista. Interpretava cada verso como se se rasgasse em público e quando fitava a plateia com os olhos sempre muito expressivos dava a cada expectador a impressão de que era para si que ela cantava. Devia ter pouco mais de sessenta anos, lábios opulentos e sobrancelhas agudas que lhe ajudavam a pontuar cada inflexão da música. Trazia os cabelos atados em um coque, escondido sob um chapéu à la Gardel, o que fazia parecer que pertencia à metade do século passado. Meus conhecimentos rudimentares em espanhol não me permitiam compreender integralmente a letra, mas pouco importava: ela punha tanta verdade na voz, que mesmo um escandinavo compreenderia que versava sobre um amor colossalmente devastado – e a forma como o fazia tornava até bonito o sofrimento. 

Quando terminou a primeira sessão, inventei uma saída ao banheiro e levantei-me meio virando o rosto para que meus amigos não percebessem que eu estava comovido como o diabo. O ano era 2013 e era a primeira vez que eu ouvia tango assim, ao vivo, e a experiência me batera de forma mais arrebatadora do que eu poderia supor. A atmosfera do espaço contribuía para tal: estávamos no Baar Fun-Fun, fundado em 1895 e um dos templos do tango, encravado em um canto da Ciudad Vieja, em Montevidéu. Se eu fumasse, teria sacado um cigarro da carteira e o acendido sem pestanejar, à guisa de tentar pôr as ideias em ordem. O remédio foi ir ao balcão me agarrar a um conhaque duplo, que haveria de cair bem naquela noite fria de maio.

Topei com a cantora, que degustava um Martini com certa solenidade, recostada ao bar. Mandei minha timidez às favas e entabulei conversa. A artista estava, então, sem o chapéu de feltro e, de perto, parecia ainda mais expressiva, articulando cada palavra com precisão exata. Apesar da elegância, pareceu-me que tinha um quê de tristeza perene – impressão realçada pelos modos vagos de tamborilar a ponta dos dedos sobre o balcão, enquanto falava. Lá pelas tantas, tasquei uma pergunta-clichê: como era capaz de cantar de forma tão genuína, como se realmente tivesse sentido as desventuras que interpretava? Ato-contínuo, o questionamento me pareceu obtusamente estúpido, o me fez corar e me arrepender. A resposta, no entanto, cravou-se como uma sentença definitiva:

Hay que sufrir por amor, porque sufrir por amor es mejor que sufrir por una enfermedad”, disse, como se me ensinasse uma lição vital.

A frase me provocou um estardalhaço ao longo dos meses seguintes. Dei de ouvir mais tango e de pensar no gênero sob diversas perspectivas. Não sou pesquisador, mas, humildemente, tracei um paralelo entre o ritmo portenho e o nosso samba-canção. Não em relação à representatividade, é claro (como se sabe, o tango simboliza até hoje toda a bacia do Rio da Prata). Falo da temática: ambos cantam amores devassados, romances contrariados, desencontros amargos e doloridas separações, com doses lancinantes de sentimento – e de sentimentalismo. Bote reparo nas letras de Lupicínio e Antônio Maria ou nas canções interpretadas por astros do naipe de Orlando Silva, Tito Madi, Elizete Cardoso, Dolores Duran e Maysa, cujo exemplo mais simbólico talvez seja “Ninguém me ama” (Antônio Maria/Fernando Lobo): “Ninguém me ama, ninguém me quer/ Ninguém me chama de ‘meu amor’”.

Voltemos ao tango. Uma das composições que ouvi com maior acuidade foi “Malena”, que descreve uma cantora “com voz de sombra”, que “em cada verso põe seu coração” e que “tem o frio do último encontro”. Adiante, outros dois versos me impressionaram pelas metáforas que combinavam elementos concretos com abstrações: “Tus ojos son oscuros como el olvido,/ Tus labios apretados como el rencor” (algo como “Teus olhos são escuros como o esquecimento/ Teus lábios apertados como o ressentimento”). A descrição exagerada me fez pensar na cantora da letra. Terá existido? Não sosseguei até conseguir a resposta: sim, Malena era uma pessoa real.

Conta a história que, de volta a Buenos Aires, o poeta argentino Homero Manzi fez escala no Brasil. Em um café – aí, há uma divergência entre as fontes: ou foi em São Paulo, ou em Porto Alegre –, assistiu à apresentação de uma cantora cujo nome artístico era Malena e que o extasiou pela forma como interpretava. Embevecido, Manzi escreveu a letra de um tango que pôs o nome de “Malena”, em devotada homenagem à artista. Já na Argentina, deu os versos ao compositor Lucio Demare, que, na hora, apenas meteu o papel no paletó. Tempos depois, quando reencontrou o manuscrito no bolso, Demare estava na Confeitaria El Guindado e, sem acreditar na musicalidade dos versos que tinha em mãos, compôs a melodia ali mesmo, em quinze minutos, e estreou o tango naquela mesma noite, com sua orquestra, na Boate Novelty. A partir daí, fez-se a História: “Malena” atravessou as décadas como um dos mais célebres expoentes do gênero portenho.

O irônico nessa milonga toda é que a verdadeira Malena – cujo nome de batismo era Elena Tortolero – incluiu a música em seu repertório anos adiante, sem saber que havia sido a inspiradora dos versos. Na ocasião, ela estava radicada no México e tinha conquistado relativa fama, apresentando-se em boates e cabarés. Quando lhe contaram que Manzi revelara que tinha escrito a letra para ela, após vê-la ao palco, Malena ficou tão impressionada e se achou tão indigna da personagem descrita pelo poeta argentino… que deixou de cantar para todo o sempre. A Malena de Manzi silenciou a Malena da vida real.

Já a cantora do Fun-Fun de quem falei no início, permanece-me anônima. Após nossa rápida prosa ao balcão, cometi a displicência de não lhe perguntar o nome. Já em casa, vasculhei cada rincão virtual, segui cada pista, mas foi em vão: fui incapaz de conseguir descobrir sua identidade. Não ficava bem, no entanto, que eu me referisse a ela apenas como “a cantora”. Impessoal e vago demais. Fiz o que pude, sacando uma solução boba: passei a chamá-la de a “minha Malena”. É certo que não sou um Manzi e, diferentemente de Elena Tortolero, espero que ela cante até o último de seus dias, como se sofresse por amor, porque sofrer por amor é melhor do que sofrer por uma enfermidade.


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