A crônica não mata | Jornal Plural
14 abr 2021 - 0h01

A crônica não mata

Em tempos de guerra, o cronista vive uma longa noite de impotência. Sua espada é de borracha mole

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Rubem Braga disse que seu ideal seria escrever uma crônica tão divertida que fizesse rir certa moça doente que vivia no seu bairro. Quanto a mim, apenas gostaria de escrever uma crônica que matasse o dragão da maldade. A crônica, no entanto, não mata.

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Em tempos de guerra, o cronista vive uma longa noite de impotência. Sua espada é de borracha mole. No sonho, ele a desembainha somente para expor-se a mais um vexame. Puxa, então, um revólver. Ao acionar o gatilho, vê a arma desmontar-se em suas mãos. Tenta socar o inimigo, mas seus braços são pesados, combalidos apêndices de gelatina.

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A crônica não mata, mas nos dá a notícia de muitas mortes. Jacopo, por exemplo, conta que em Silena, na Líbia, um dragão, com seu hálito envenenado, semeava a peste por toda aquela província, provocando um imenso morticínio. Estúpido e incapaz, o rei dava de comer ao monstro sacrificando moças e rapazes sorteados entre o seu próprio povo. Vindo da Capadócia, São Jorge decidiu intervir. Matou o dragão, no que agiu corretamente. Mas errou ao deixar vivo o rei assassino.

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Há um ano uma bandeira do Brasil pende de uma janela do apartamento acima do meu. Do meu quarto posso vê-la tremulando. Durante parte considerável do dia, sua sombra invade minha casa. A sombra celebra algo que não consigo compreender. O sol desbota a bandeira, o tempo a esfarrapa. Mas a sombra, desde sempre descorada e sem estrelas, permanece a mesma, intocada.

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A crônica não mata ninguém, mas aos cronistas cabe o registro de cada assassinato cometido no mundo. Não fosse por eles, jamais saberíamos que em outubro de 1131, ao cruzar uma rua parisiense, um porco desatento acabou atropelado por um cavalo que, ao cair, derrubou também seu cavaleiro, causando-lhe a morte. A vítima, um menino de quinze anos, era Filipe, o Jovem Rei, primogênito de Luís VI, o Gordo. Por séculos, os cronistas se referiram ao príncipe falecido usando as seguintes palavras: “rex Philippus a porco interfectus”. Reputaram sua morte como tendo sido “turpis, ignominiosa, miseranda, flatigiosa, improba”. Já o animal que o matou — alterando, com tal crime, o curso da História — tornou-se gloriosamente conhecido como “o Porco Regicida”.

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Falei de Paris e agora passo a Georges Perec. Preso aqui em casa desde março de 2020, lembrei dele e de seu livro Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense. Fui até meu quarto e olhei para a cidade lá fora, preparado para inventariar por escrito, como fez Perec, tudo o que eu avistasse da minha janela na Amintas. Placas, carros, motos, prédios, árvores, ruas, estacionamentos, o HC, pichos, ambulâncias, bandeiras verde-amarelas, o Passeio Público, restaurantes, bicicletas, táxis, ônibus, pedestres mascarados, pascácios sem máscara, pombos. Logo se tornou evidente que tal exercício aleatório me esgotaria antes que se esgotasse a banalidade daquela Curitiba pandêmica. Diante de mim, nada havia que fosse especialmente notável. Ou melhor, apenas uma cena me pareceu, ao longe, extraordinária, quase uma miragem: no Círculo Militar, sob o sol quente de abril, um funcionário molhava o saibro das quadras de tênis com uma mangueira. Ao seu lado, velhos senhores se alongavam, risonhos, rodopiando suas raquetes, animados para mais uma partida amistosa.

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Sábado à tarde. Lá embaixo, um homem e uma mulher caminham pela Amintas. Ela sobe a rua, ele desce. Ambos usam máscaras e carregam sacolas de supermercado. Quando se cruzam, é como se entre eles se estabelecesse algum tipo de comunicação silenciosa. O homem avança cinco passos e olha para trás. Diminui a velocidade da marcha. A mulher se sente observada e, ao parar na esquina da Faivre, devolve o olhar. Os dois, agora, estão imóveis, a uma distância de poucos metros, e se encaram. De repente, meio hesitantes, voltam a caminhar, cada um para o seu lado. Levarão para casa, além das compras, a violenta impressão que lhes causou não um rosto humano ou a sua identidade, mas tão somente o par de olhos de um desconhecido. É a prova de que, entre nós, a vontade de amar ainda existe.

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De cada nova flor que se abre em seu jardim, minha mãe, isolada no Capão Raso há treze meses, me envia uma foto pelo celular. Com o conjunto dessas imagens organizei uma espécie de calendário de reflorescimentos, cobrindo todo o período da pandemia. Ficou assim: em março, justicias e tumbérgias; em abril, dálias e chuvas-de-ouro; em maio, acácias e buganvílias; em junho, flores-da-abissínia e manacás-de-cheiro; em julho, bromélias e orquídeas; em agosto, ranúnculos e magnólias; em setembro, glicínias e azaleias; em outubro, palmas e papoulas; em novembro, hortênsias e damas-da-noite; em dezembro, agapantos; em janeiro, aleluias e alamandas; em fevereiro, lírios-do-vento; novamente em março, jasmins-manga e estrelícias; e, finalmente, em abril, ora-pro-nóbis. Sim, a mesma crônica que assinala uma ou mais mortes, também pode, e deve, compilar cada renascimento.

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A crônica não mata. Nunca matou, jamais matará, e nem precisa matar. Meu ideal, portanto, seria escrever um texto que somente anunciasse ao mundo a morte definitiva de um monstro. Vivo por esse momento. Uma crônica assim, estou certo, não apenas faria rir aquela moça doente, vizinha de Rubem Braga, mas talvez até a curasse.


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