A pandemia e a imprensa-placebo | Jornal Plural
22 jul 2020 - 21h25

A pandemia e a imprensa-placebo

Repórteres e apresentadores não deixam de falar da pandemia, só não explicam porque os testes da Covid-19 não são oferecidos para a população

A vida não anda fácil para a maioria, ninguém quer morrer ou perder alguém da família ou um amigo na pandemia. Mas tem o aluguel, as prestações, o empréstimo pra abrir uma nova loja, o que foi plantado e não pode ser vendido…

Empregados e proprietários são as faces da mesma moeda desvalorizada pela pandemia, e em muitos casos o sofrimento é o mesmo.

Por isso que está todo mundo torcendo pra que uma vacina seja logo desenvolvida e aprovada: só a Ciência pode dar a resposta que o mundo todo espera.

Pra desenvolver uma vacina, são formados grupos de voluntários que vão receber a droga em testes acompanhados pelos cientistas. Acontece que uma parcela dos voluntários toma uma substância inerte que não apresenta interação com o organismo. Assim, os cientistas comparam os efeitos do que pode ser a vacina e o… placebo. Esse é o nome do que não salva, mas ajuda a salvar. Já foi comprovado que, em pacientes com doenças de origem psicológica, o simples ato de tomar o placebo pode provocar, sim, melhoras na condição do doente.

Importante: se já existir um medicamento comprovadamente eficaz para uma enfermidade, não pode ser dado o placebo, está no Código de Ética dos médicos. Se existe remédio, dá o remédio. Um copo de água com açúcar para acalmar uma pessoa é, digamos, um genérico popular de placebo.

Algo parecido anda acontecendo nos noticiários, em alguns jornais, telejornais e na internet. O povo sofrendo com a pandemia e o desgoverno, a economia sem financiamento, crianças sem ensino ou sem acesso ao ensino, uma série de dificuldades e, em vez da vacina, oferecem imprensa-placebo. Lembre que, na ciência, os voluntários não sabem se estão tomando o remédio ou não. Para o público, muitas vezes é bem parecido. Repórteres e apresentadores não deixam de falar da pandemia, só não explicam porque os testes da Covid-19 não são oferecidos para a população, não investigam porque os trabalhadores, os mais pobres, continuam tendo que se apertar em ônibus e estações, não contam que o cinquentão do governo está sendo distribuído por prefeitos em ano de possível reeleição.

Essa superficialidade acaba sendo o placebo, as pessoas assistem, mas aquilo não tem efeito prático, não tira o poder público da zona de conforto.

A maneira como as informações são apresentadas também são uma forma muito usada para se justificar: “Meu jornal falou, sim, de pandemia!”

Ok, mas deu pouco destaque, deu mais tempo na TV e espaço no portal da internet ao prefeito, ao governador, anunciando as medidas para enfrentar a pandemia. Uma notícia no alto da página não tem o mesmo alcance que uma nota lá embaixo…

Isso NÃO é teoria da conspiração. É método, quase sempre resultado da edição, é ela que acaba definindo a cara de um noticiário, o rumo que ele toma, quem ele realmente quer agradar.

Em Latim, “Placere” significa “Agradar”. É daí que pegaram a palavra placebo para uso na ciência e na medicina, é aquilo que não cura, não salva mas acaba dando ao sujeito uma sensação de que vai sair da encrenca melhor. A imprensa-placebo aposta muito nesse efeito, sempre tenta mostrar o naufrágio do Titanic como uma oportunidade maravilhosa para o aperfeiçoamento da navegação.

O pior disso tudo é que, infelizmente, disfarçados de imprensa-placebo, alguns oferecem placebo-placebo. Nada se salva, o público perde a confiança, desiste do tratamento ou parte para drogas ilícitas tipo fake news que são oferecidas pelos traficantes do zap, nas baladas das redes sociais.

De novo, não é uma paranoia criando monstros e conspirações, o placebo na imprensa é antigo, apenas se torna perigoso demais nas doses atualmente enfiadas nas veias do cidadão.

Compare o que sai nos noticiários nacionais e o que aparece nos boletins da província, compare.

A saída é buscar tratamento com gente séria, igualzinho quando alguém tenta oferecer uma sopa milagrosa e você recusa, busca auxílio do médico, confia na ciência.

É o jornalismo-vacina, eficaz, questionador, sem rabo preso, que tem compromisso com a maioria da população. Até mesmo onde o placebo jornalístico impera, ali também dá pra separar a pílula de farinha do medicamento com bula.

Não se deixe enganar acreditando que apenas grandes grupos fazem bom trabalho: muitas vidas são salvas no posto de saúde, no pronto-socorro acanhado…

Vamos torcer para que o coronavírus seja logo derrotado, confiando sempre na Ciência, no esforço de auxiliares, enfermeiros, médicos e pesquisadores.

Vamos tentar sempre buscar o entendimento entre o patrão e o empregado, será sempre melhor que a solução apareça com um aperto de mãos.

O jornalismo profissional sempre será o antídoto contra as fake news, contra a imprensa-placebo!


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