2 set 2021 - 20h10

“Desaprovado” na UFPR abriu mão de vaga em Medicina em outra universidade pública

Já estudante que entrou na nova lista tinha desistido de tentar vaga na Federal

O resultado do vestibular 2021 da Universidade Federal do Paraná (UFPR) já é um plot twist histórico, e o que era para ser um banho de lama virou um banho de água fria para 31 candidatos. Eles foram substituídos por concorrentes na lista de aprovados depois que a universidade descobriu um erro nas notas usadas para a classificação final, divulgada na última terça-feira (31) e corrigida no fim da noite desta quarta (1º) por meio de um comunicado oficial lançado no site e nas redes da instituição.

Enquanto em Cascavel a estudante Milena Scoz não entendia o porquê de seu nome passar a constar entre os aprovados em Medicina no campus de Toledo, no Oeste do Paraná, Lucas Samir Schreder, de Joinville, em Santa Catarina, preferia não ter atualizado a página da universidade. Schreder é um dos quatro candidatos que deixaram de fazer parte da lista na qual agora constam os nomes de Scoz e outros três estudantes. Um desespero que, para ele, veio em dose dupla. Poucas horas antes, o catarinense havia recebido a confirmação de que sua inscrição no curso de Medicina na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), no Rio Grande do Sul, estava oficialmente cancelada, como ele mesmo tinha solicitado logo depois de ter certeza que se mudaria para Toledo. “Aprovado” na UFPR, o estudante abriu mão da vaga na universidade gaúcha, onde conseguiu entrar com notas do Enem pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Mas, ao fim, viu suas duas chances de realizar o sonho de ser médico se desmancharem no mesmo instante.

Quem sai da lista de aprovados

“Um pouco antes [da correção] estavam rolando aqueles rumores de que eles tinham feito coisa errada porque ainda não tinham divulgado o boletim de desempenho individual. Mas eu achei normal, pensei que todo ano era assim.  Mas quando eles divulgaram a nova lista foi que fiquei sabendo que meu nome não estava mais lá, e o de muita gente também não”, relatou ao Plural o candidato, de 20 anos, que desde 2019 estuda exclusivamente para ingressar em uma faculdade de Medicina.

A reviravolta no enredo veio de recursos referentes à prova de produção de textos aceitos, mas que não foram computados nas notas finais de 467 candidatos. O erro só foi descoberto pela universidade após a publicação do resultado oficial. Com a correção, a nota de 31 candidatos subiu o suficiente para classificá-los no quadro total de vagas – empurrando o mesmo total de alunos para fora da lista.

O problema afetou vagas em sete dos 127 cursos ofertados pela universidade. A maior parte dos beneficiados – e prejudicados – foi do curso de Medicina. No campus Toledo, onde entrou Scoz e saiu Schereder, foram quatro substituições. No campus de Curitiba, houve 21 remanejamentos. Houve ainda mudanças em duas vagas de Direito; e uma vaga nos cursos de Odontologia, Fisioterapia, Biomedicina e Medicina Veterinária campus Curitiba.

“O NC [Núcleo de Concursos]/UFPR lamenta profundamente o ocorrido e reforça que se tratou de uma falha pontual que não afeta a idoneidade do Processo Seletivo e, tampouco, a integridade do sistema de processamento”, pontuou a instituição na nota em que explica as mudanças.

O episódio fatídico cai com sobrepeso no colo da universidade, que se vê enfrentando sua segunda grande polêmica em pouco mais de meio ano. Em fevereiro, o Núcleo de Concursos alegou insegurança diante da piora no cenário da pandemia e suspendeu em cima da hora o concurso da Polícia Civil do Paraná, do qual era a organizadora responsável. A notícia pegou milhares de candidatos de surpresa, muitos dos quais já tinham se deslocado de outros estados para fazer os exames em Curitiba, e o transtorno redeu à UFPR uma multa de R$ 1,3 milhão.

Em decorrência da crise, a universidade adiou o vestibular, que também sofreu mudanças de percurso, precisando ser adaptado de última hora pra ocorrer em fase única, ao invés de duas, por causa da instabilidade provocada pela pandemia.

Desta vez, o número de prejudicados foi menor em relação ao concurso da Polícia Civil, mas o impacto é tão grande quanto. Ainda em busca dos detalhes, a UFPR informou ter aberto uma comissão de sindicância para “apurar todos os fatos e eventuais responsabilidades”, mesmo que a falha possivelmente esteja ligada ao sistema de processamento de dados. Segundo a universidade, para incorporar os pontos adquiridos com o deferimento dos recursos foi criado um programa capaz de rodar os ajustes preservando a integridade do banco de dados. Contudo, por uma falha no processamento, o comando commit – uma espécie de comando que atualiza o banco de dados – não foi executado, e o resultado, por sua vez, ficou sem a alteração devida.

Os pontos que deveriam ter sido contabilizados foram os que os 467 candidatos que tiveram recurso aceito para reavaliação da redação ganharam após revisão da banca examinadora. A interposição de recurso administrativo contra a correção da prova de compreensão e produção de textos segue os padrões de outros concursos públicos e na UFPR é um direito dos inscritos previsto em edital, desde que os questionamentos sejam fundamentados de acordo com o conteúdo programático das provas.

Quem entra na lista de aprovados

Com argumentação considerada válida pela banca de recurso, a estudante Milena Scoz, de 21 anos, conseguiu usar o instrumento para elevar em seis pontos a nota da sua redação. A diferença a colocou na 23ª posição entre as 24 vagas reservadas para concorrência geral no curso de Medicina do campus Toledo. “Eu tremia, pensava que era coisa da minha cabeça”, contou a futura médica.

Natural de Toledo, Scoz mora hoje em Cascavel, onde cursa o primeiro período de Medicina em uma universidade particular da cidade. O vestibular prestado na UFPR este ano foi a última tentativa dela de entrar em uma universidade pública. Há mais de quatro anos se preparando para ser aprovada, a jovem decidiu que não valia mais a pena perder tempo na rotina de estudante de cursinho.

Mas o destino mudou enquanto ela jantava nesta quarta-feira. Foi um post nas redes sociais informando sobre a disponibilidade do boletim de desempenho individual que a fez ver seu nome na lista de aprovados recém retificada pela UFPR.

“Foi realmente uma coisa que eu não esperava”, conta. “Quando eu olhei no meu boletim, estava em 23º lugar entre as 24 vagas para ampla [concorrência]. Eu achei estranho porque nesta posição eu teria passado, mas não passei. Só que no final da página estava escrito que eu estava aprovada, aí achei que tinha visto a lista errada porque aquilo não era possível. Foi quando eu retornei para o edital, li a nota que Federal tinha colocado, vi a nova lista e vi que meu nome estava lá. Aí tudo fez mais sentido”.

Até então, a estudante não sabia como tinha ficado sua nota da redação após a reavaliação, justamente por causa da demora na divulgação do boletim de desempenho individual. Como o candidato de Joinville, ela também se deparou com rumores de que a demora da instituição em compartilhar os dados de desempenho pudesse indicar algum erro na lista de classificados.

Com a volta à cidade natal garantida, Scoz desfruta agora uma sensação de alegria e alívio incomparável, mas também diz estar em choque pelos colegas que perderam a vaga com a mudança.

“Me solidarizo com as outras pessoas que tiveram o nome da lista retirado porque eu imagino que se fosse eu, ia ser um pesadelo. Mas acredito que isso já e culpa da Federal”.

Recurso

De fato, a UFPR deverá enfrentar uma chuva de questionamentos. Com a ajuda da família, Lucas Schreder já encontrou um advogado para mover recurso contra a universidade – algo que, segundo ele, deve ser reiterado por todos os demais prejudicados pela retificação. Já há, neste sentido, uma mobilização coletiva sendo organizada.

“Eu estou bem angustiado, não só pelo processo todo, mas agora para esperar sair a segunda chamada”, comenta o estudante de Joinville. A aprovação em segunda chamada – feita quando o total de vagas não é preenchido – é outra possibilidade em que se agarra o candidato, já que ele é o 3º desta lista de espera.

Em resposta encaminhada à reportagem, a UFPR informou que as chamadas complementares “deverão absorver boa parte dos nomes retirados da lista de aprovados na versão retificada”. Por outro lado, a instituição descarta a possibilidade de reincorporar compulsoriamente os 31 candidatos prejudicados pela reversão do processo. “A legislação que regula o assunto não prevê a possibilidade de criação de vagas temporárias, em decorrência de um fato eventual, como é o caso agora”, afirma.

Para a advogada Sthefani Peres, dona do escritório de mesmo nome e mestranda em Direito pela UniCuritiba, os precedentes jurídicos indicam que não deve ser muito grande a chance de ganho dos candidatos que tentarem garantir o acesso à vaga retirada por meio da Justiça. Isso porque, segundo ela, não é proibido à administração pública rever atos e constatar vícios em processos.

“Não vejo muto como dizer que a pessoa teve um direito adquirido, porque foram somente horas de diferença da divulgação, e nem fato consumado. Mas é meu entendimento. Claro que as pessoas vão tentar, e até deveriam mesmo se entendem que é de direito”, explica.

No entanto, a especialista analisa que as possibilidades são maiores em casos de processos que exijam indenização por danos danos morais, uma vez que a retirada dos nomes precede a frustração e o abalo emocional dos candidatos que perderam as vagas de um dia para o outro.

“Cada aluno desse vai ter uma história para contar, que pode ser avaliada se a pessoa quiser pleitear uma indenização”, acrescenta a advogada, destacando que, embora exista essa possibilidade, o deferimento do pedido vai depender da avaliação do juiz.

Em vídeo divulgado no fim desta quinta-feira, o diretor do Núcleo de Concursos da UFPR, Alexandre Trovon, voltou a explicar a falha que levou à divulgação errada e reiterou que o órgão lamenta a situação. Segundo ele, a universidade não tinha outro caminho a seguir.

“O Núcleo de Concursos lamenta e se solidariza com esses 31 candidatos. Mas não havia outra alternativa senão efetuar a correção das notas, respeitando os outros 31 candidatos que deveriam ter sido aprovados”.

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3 comentários sobre ““Desaprovado” na UFPR abriu mão de vaga em Medicina em outra universidade pública

  1. Além de lamentar, lamentar novamente. Frustração, assim como alegria, não se mede. Aula instituição do porte da UFPR determinadas falhas não são permitidas… deve ser a “automia” fazendo mal…

  2. Infelizmente isso é o resultado de uma reitoria que distribuiu cargos para os cabos eleitorais virtuais (tendo em vista o modelo da última eleição). Deve-se considerar que o NC foi dirigido por um Gestor da Informação, contudo após o loteamento de “cargos e funções” o mesmo departamento teve um professor de letras e agora um matemático….. Não desabonando a capacidade administrativa dos mesmos. Mas lá é necessário muito além de capacidade administrativa e pxsqsmo, precisa ter técnica, expertise na área, algo que enquanto tivermos o coorporativismo implantado, jamais mudará… Esperando as próximas do NC…. Aguardem….

  3. Aconteceu a mesma coisa no vestibular da UFPR de 1990, porém foram mais de 200 “desaprovados” na época, que culminou em um imbróglio jurídico.

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