9 abr 2022 - 21h00

De Pinhais, b-boy Dinho sonha em transformar o mundo com o hip hop

Conheça a história do dançarino de breaking que pode representar o Brasil nas Olimpíadas de 2024

Wender Souza sempre foi um menino agitado. Os pais até o matricularam numa escola de futebol na esperança que o filho usasse toda a energia para se tornar um grande jogador. Depois de uns dias, no entanto, o técnico alertou: “esse aí pode ser filósofo ou repórter porque fala bastante”. Mas não era falar nem jogar bola que fazia Wender vibrar. O que o menino de 10 anos mais queria e gostava de fazer era dançar breaking. 

Wender nasceu em Curitiba, mas cresceu em Pinhais, na Região Metropolitana da capital, com seis irmãos, três por parte de mãe e três por parte de pai. “Me tiveram aos 45 do segundo tempo”, brinca. A infância passou toda dançando, atividade que inclusive o fez repetir de ano na escola. “Na hora da educação física não queria ir com a galera para a quadra jogar futebol, queria ficar treinando um movimento novo que eu tinha aprendido. Eu estava sempre dançando onde ia, festa de aniversário, na escola, hora do recreio…eu queria só dançar.”

Como já havia feito capoeira, foi fácil para Wender, que passou a ser conhecido como Dinho Stil, entender os movimentos do breaking, estilo de dança hip hop pela qual se apaixonou. Isso porque, diversos passos parecidos com os do breaking (como o Pike, em que o dançarino se apoia em uma mão e chuta as pernas para o alto) já eram praticados por capoeiristas no Brasil desde o século XVI. 

Foto: Reprodução/Facebook

Depois de alguns anos dançando pela Vila Perdizes II, onde morava, e bairros vizinhos, Dinho descobriu um dos mais antigos points que reunia b-boys e b-girls (dançarinos de breaking) de todo o país: o Shopping Itália, em Curitiba. “Quando eu comecei a ir pro Shopping Itália que minha dança alavancou, conheci pessoal de Curitiba, São Paulo, Santa Catarina, e ali que eu entrei no grupo que estou até hoje [o Stil Contact].”

Dinho então começou a disputar campeonatos de breaking pelo Brasil inteiro, mas ainda não via a dança como uma ocupação profissional. “Eu ainda era muito novo e imaturo para ter esse discernimento do que eu realmente queria para minha vida. Eu não sabia filtrar o que todo mundo dizia, que ‘dança não era trabalho’, ‘que era só um passatempo’, mas eu sabia que era o que eu gostava de fazer.”

A perspectiva de Dinho mudou em 2009, quando venceu uma etapa eliminatória em Belo Horizonte (MG) e pôde ir para a Suíça disputar o Campeonato Mundial de Breaking. “Foi um choque. Ver todos os b-boys do mundo pessoalmente que na época eu só via em DVD e fitas cassetes.”

Foto: Cecília Zarpelon

Quando voltou ao Brasil, o b-boy decidiu que levaria sua dança para o resto do mundo e realizaria o sonho de poder transformar a sociedade com o hip hop. “Sem sonhos a gente não tem porque viver. Um sonho infinito que tenho é poder inspirar outras pessoas e usar a dança como instrumento para trazer uma mudança coletiva.”

Foi pensando nisso que Dinho aprendeu outros três idiomas: inglês, espanhol e francês, e há um ano e meio estuda mandarim. Como uma criança curiosa, nas palavras dele, o b-boy está sempre aprendendo algo novo, desde Psicologia e Filosofia até montar motorhomes pela França, onde mora há seis anos. Dinho também anda de moto, treina break pelo menos quatro vezes por semana, faz meditação, corre e é voluntário de uma organização de proteção a animais abandonados.

Definir o b-boy em poucas palavras não é tarefa fácil, até porque, segundo ele, se definir é se autolimitar. “Nós estamos em constante transformação a partir do que a gente lê, vê, das pessoas que convivemos, o trabalho que frequentamos, a cidade que a gente mora.” Mas, a dança dá conta de exteriorizar grande parte da identidade de Dinho: “O hip hop significa tudo para mim, é meu estilo de vida, quem eu sou. Não é só quando eu estou dançando breaking que eu sou b-boy. É através da dança que eu posso ser quem eu sou hoje.”

A cultura hip hop e o breaking nas Olimpíadas 

Para o b-boy, que hoje tem mais de 20 anos de experiência como dançarino, ainda há muito caminho a percorrer para que as pessoas entendam o que o hip hop significa. “O Brasil está muito atrasado na questão desse olhar sociocultural. O pessoal já tem um pré julgamento, associa o hip hop ao vandalismo e à marginalização por ser algo que vem da periferia. Mas o hip hop é a busca por um mundo mais igual, mais amoroso e empático. É uma luta diária de buscar o lugar merecido de cada um. Através do hip hop, da dança, a gente cresce como ser humano.”

Agora como um esporte olímpico, o breaking terá mais visibilidade e uma chance maior de alcançar milhões de pessoas, na opinião de Dinho. “O breaking não vai deixar de ser breaking, não vai deixar de ser cultura, não vai deixar de ser arte. A dança salva a vida de muitas pessoas já, agora tendo essa visibilidade é possível que salve muito mais.”

Foi em dezembro de 2020 que o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou o breaking como modalidade olímpica dos Jogos de Paris 2024. Desde então, foi escalada a primeira seleção de breaking do Brasil vinculada ao Conselho Nacional de Dança Desportiva (CNDD), da qual Dinho é o único representante do sul do país. 

Essa, no entanto, ainda não é a seleção definitiva que irá para as próximas Olimpíadas. Neste ano, os atletas irão competir e, dependendo da qualificação de cada um, serão decididas as posições para a seleção final. Serão 16 b-boys e 16 b-girls que competirão pela medalha em batalhas de um contra um. Cada apresentação terá em média 1 minuto de duração e cada dançarino terá duas entradas ao longo das eliminatórias e três na final.

Atualmente, a Federação Internacional de Dança Esportiva, a WDSF (World Dance Sports Federation), está trabalhando junto do COI para regulamentar os critérios de arbitragem das batalhas.

A dança é uma linguagem viva

De acordo com o professor de dança especialista em Artes Híbridas, Emerson Camargo, é difícil determinar a história oficial das danças urbanas justamente porque ela ainda está em curso. “Essas danças ainda passam por mutações e criações. Como elas são muito novas em relação às outras, que tem séculos de idade (como o ballet clássico), elas vão se adaptando porque é uma linguagem viva.”

Emerson conta que o hip hop começou a se desenvolver em 1970, nas ruas do Bronx, em Nova York, a partir da influência de um DJ jamaicano que trouxe aos Estados Unidos os conceitos de break (quebra, em português), que é uma interrupção no ritmo da música que prolonga a parte instrumental, e talk over (falar por cima), mais conhecido como rap. Lá foram se consolidando as quatro manifestações artísticas que compõem a cultura hip hop: o grafite, o DJ, o MC (mestre de cerimônias) e o breaking. 

“O rapper cantava naquele intervalo que só fica a batida da música. Aí os DJs aumentavam esse intervalo, que é o break, para o pessoal dançar. Então por isso que eram chamados de breakboys, ou b-boys. O breaking permite várias movimentações agregadas das culturas. A parte do chão, com as acrobacias, são os chamados power moves. Há também os freezes, que são os movimentos congelados e o footwork que é o sapateado no chão”, explica.

Ao longo do tempo, o hip hop sofreu influências da capoeira, do sapateado da Broadway, dos movimentos das artes marciais de Bruce Lee, além de outros estilos musicais como o soul, o funk e o blues. E foi com o filme “Flashdance”, de 1983, e os clipes de Michael Jackson que a cultura realmente se popularizou e se espalhou pelo mundo. 

No Brasil, o breaking chegou a partir dos anos 1980 e logo passou a ocupar o metrô São Bento, em São Paulo, e o Shopping Itália, em Curitiba. “Por muito tempo a dança de rua veio para nós com atraso. A gente não tinha muita informação. Com os clipes musicais, vimos que o hip hop podia ser dançado na voz e não só nas batidas mais fortes da música. Podíamos usar todas as nuances do ritmo, o contratempo, swing, balanço, não ser tão direto e quadrado como era a dança de rua brasileira.”

À medida que o hip hop se desenvolvia, nasciam novas danças de rua, como o Locking, Popping, o Vogue, Dancehall, Raggajam e o House. “Se eu fosse fazer uma árvore genealógica das danças urbanas teria muitos galhos, muitas ramificações e raízes. Hoje, eu separo assim: as danças que são ligadas à cultura hip hop (break, locking e popping), aquelas que têm relação com a música hip hop, mas não necessariamente com a cultura, e as que são ligadas a outras culturas (como o house, o vogue e o dancehall).”

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