Curitiba é inundada por mulheres em busca de direitos | Plural
9 mar 2019 - 10h39

Curitiba é inundada por mulheres em busca de direitos

Fotos de Giorgia Prates/Plural Ainda faltam quinze minutos para às 18h, mas as escadarias do prédio histórico da Universidade Federal do Paraná, na Praça Santos…

Fotos de Giorgia Prates/Plural

Ainda faltam quinze minutos para às 18h, mas as escadarias do prédio histórico da Universidade Federal do Paraná, na Praça Santos Andrade, já borbulham com manifestantes e cartazes. Camisetas com frases estampadas circulam pela praça, cobrindo o petit-pavê: “Política faz meu gênero”, “Lute como uma garota”, “Ele não”, e semelhantes.

Uma senhora deixa a praça, em direção à XV de Novembro, trajando uma camiseta preta com os dizeres: “As garotas boas vão para o céu, as más vão à luta”. Transeuntes passam pela região e observam a concentração que antecede a já tradicional marcha do dia oito de março.

Já passa das seis da tarde quando a chuva finalmente começa a cair. Mesmo debaixo d’água, a manifestação tem início com o Ato II, contra a Reforma da Previdência. “Pode chover, pode molhar, a mulherada tá na rua pra lutar”, bradam. Às 18h21, a faixa que abre a marcha já está posicionada atrás do carro de som, de frente para a Rua João Negrão. Sob os olhares atentos dos passantes e motoristas que circulam pela região, a caminhada tem início por volta das 18h30, rumo à Boca Maldita. A saída acontece ao som de um coro que brada em uníssono: “Se cuida, se cuida seu machista, a América Latina vai ser toda feminista”.

É difícil precisar quando essas manifestações, durante o dia oito de março, começaram a acontecer. Quando Rosani Moreira, uma das seis coordenadoras da Frente Feminista de Curitiba e Região Metropolitana, mudou-se para a cidade, por volta de 1989, esse tipo de evento já acontecia na capital paranaense. Nos últimos quatro anos, a Frente tem sido responsável por organizar a marcha, e outras ações nessa data.

A Frente é um espaço de discussão e militância que busca agregar mulheres inseridas e interessadas nas mais diversas causas. É em razão dessa diversidade que o próprio movimento, conhecido como 8M, congrega uma série diversa de reivindicações: pautas como o feminicídio e a violência contra as mulheres; o direito ao aborto seguro; a lesbofobia; a transfobia; os problemas relativos ao acesso à terra e à moradia; a mulher migrante; a contrariedade à reforma da Previdência e ao projeto Escola Sem Partido, entre outras, são algumas das bandeiras levantadas pela manifestação.

“Marcar o dia das mulheres é falar dessas pautas e lembrar de quantas perderam a vida para que pudéssemos, hoje, estar aqui, garantindo um pouco mais da nossa liberdade”, explica Santa de Souza, integrante da coordenação do 8M. A organização acontece com o objetivo de lembrar essas lutas e extrapolar o sentido comemorativo do Dia da Mulher, de acordo com ela.

A caminhada parte da Praça Santos Andrade saindo pela João Negrão. A multidão vira à direita e passa a ocupar a Rua Marechal Deodoro. A orientação é que ocupem a rua, não as calçadas. No pavimento em frente às lojas e prédios comerciais, muitas pessoas assistem à passagem da marcha. Algumas dão gritos, demonstrando apoio às palavras de ordem e aos discursos proferidos ao microfone. Em uma esquina, alguns homens têm seus gritos de “Bolsonaro!” abafados pelos sons da manifestação – uma reação às expressões contrárias ao presidente eleito.

Para Sara Gorsdorf, 68 anos, aposentada e integrante de uma ONG de direitos humanos, o movimento ‘Ele não’ foi, entre as mulheres, um grande ponto de mudança: “A questão conseguiu aglutinar e agregar uma série de mulheres que ficavam à distância, vendo, mas não participando”, afirma ao explicar essa, que é sua primeira participação no movimento. O atual governo também foi o que levou, em especial, Ana Carolina Dartora, 35, às ruas nesse oito de março. Feminista e negra, Ana é professora de história da rede pública do Paraná, e está na sua quarta participação no 8M de Curitiba. 

“Estamos com um governo muito hostil para as mulheres. A figura do Jair Bolsonaro fez muitas declarações que nos ofendem diretamente”, salienta. Além da Reforma da Trabalhista, a Reforma da Previdência também está entre as questões políticas que preocupam Ana, e a Frente Feminista. “É imprescindível eu estar aqui como feminista, como professora, por respeito a mim mesma, pela minha história, por quem eu sou e pelas mulheres do Brasil. Eu achei que esse ano a gente tinha que estar na rua de qualquer jeito”, finaliza.

A marcha segue até chegar ao cruzamento das Marechais, quando o asfalto da Marechal Deodoro se encontra com o da Floriano Peixoto. Nesse momento, acontece o Ato III, das mulheres trans, seguido pelo das mulheres negras. De lá, a marcha anda em direção à XV de Novembro.

Já passa das 19h quando o calçadão mais movimentado de Curitiba está completamente preenchido pelos manifestantes. Ali, o movimento se encaminha para seu Ato final: “Mulheres unidas desarmam a opressão”. A ação consiste em uma série de discursos, dos quais diversas mulheres participaram falando sobre temas diversos, como feminicídio, o assassinato de Marielle Franco, e a vida das mulheres.

Durante as falas, palavras como “Racismo” e “Feminicídio” foram queimadas em uma fogueira acesa no calçadão. De acordo com as militantes idealizadoras da ação final, o intuito por trás da performance era reforçar o aspecto de luta da data, convidando à adoção de uma postura de enfrentamento.

Iniciado ao meio dia, as ações do 8M 2019 se encerram por volta das 20h20, em meio à Boca Maldita. Enquanto manifestantes deixavam o calçadão, os batuques do “Bloca Ela Pode Ela Vai” ainda podem ser ouvidos, embalando com seu som o início de mais uma noite de sexta-feira na capital paranaense.

O resultado de toda essa movimentação? Uma demonstração de força e união, como reforça Ana Carolina: “Ver tanta gente construindo essa nova forma de ver o mundo – colocando mulheres e homens em patamar igual – dá um gás. Ver mulheres de todos os lugares, mulheres diversas… A rua sempre traz um gás”.

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