“A situação é grave; veio um tsunami na última semana”, diz secretária de saúde de Curitiba | Jornal Plural
27 nov 2020 - 17h45

“A situação é grave; veio um tsunami na última semana”, diz secretária de saúde de Curitiba

Com hospitais lotados, Prefeitura restringe bares e culpa jovens pela transmissão; escolas e comércios continuam abertos

“Não era o momento pra ter aumento de caso, esperávamos isso pra fevereiro”, admite a secretária de Saúde de Curitiba, Marcia Huçulak, em coletiva de imprensa nesta sexta-feira (26). “A situação é grave; (…) veio um tsunami na última semana.”

O aumento expressivo de pessoas contaminadas pesou – foram 51% a mais na última semana -, mas o que determinou mesmo a mudança de atitude da Prefeitura de Curitiba quanto às medidas de contenção do coronavírus foram: a ocupação nos leitos de UTI e o número de óbitos.

Com isso, o município voltou a decretar Bandeira Laranja, o que, apesar de restringir bares, eventos e festas, não atinge o comércio nem outras atividades não essenciais.

A diferença nas bandeiras de agora e da anterior, em junho – que têm a mesma cor laranja, porém muita diferença nas restrições – se deve, segundo a secretária de saúde, ao aprendizado. “Aprendemos todo dia com o vírus, que nos dá aulas. A primeira bandeira laranja em junho, não tínhamos muito aprendizado, hoje temos um monitoramento.”

De acordo com ela, é este monitoramento que permitiu à Secretaria Municipal de Saúde (SMS) fechar bares e permitir shoppings, restaurantes, academias, cinemas, parques e praças. Escolas particulares da Capital também continuam liberadas para aulas presenciais. A justificativa é de que estes seriam ambientes controlados, diferentes daqueles em que não se consegue controlar o fluxo e a atividade do público, como os bares.

“Batemos os 75 mil casos positivos mas temos, além deles, os contatos. Grande parte do contágio é intrafamiliar. As pessoas flexibilizaram as medidas de precaução e levam o vírus pra dentro da sua casa. Jovens que vão no bar, num churrasco, fumam narguile e contaminam toda família, como um que passou para 18 familiares, sendo que 3 vieram a óbito”, diz a secretária, lembrando que o maior número de confirmados com Covid-19 neste momento são pessoas entre 15 e 49 anos. “Precisamos fazer o bloqueio na cadeia de transmissão”, reforça.

Mesmo com os hospitais das Redes Pública e Particular lotados, e com o colapso do sistema de saúde já anunciado, a secretária descartou a abertura de hospitais de campanha na cidade, ao menos por enquanto. A ideia é fazer com que a Região Metropolitana abra mais leitos. “Já pedimos para São José dos Pinhais e Araucária ampliarem o atendimento para não sobrecarregar o sistema de saúde da Capital.”

Hospital São José está com as dez vagas de UTI ocupadas e UPAS sem leitos. Foto: PMSJP

Natal e ônibus

Com as festas de fim de ano chegando, a SMS também se preocupa com as reuniões familiares. “Não comemore aniversários, não dá pra reunir várias pessoas, só quem mora junto na casa. Por favor, não!”, pede Márcia Huçulak.

Questionada sobre os eventos natalinos liberados pela Prefeitura, que chegam a permitir mil pessoas, a secretária anunciou que eles terão o público reduzido e manterão o distanciamento social. “Não podemos tirar das pessoas a esperança da virada do ano, que o Natal traz, num momento tão difícil como este”, avalia.

Como também não houve fechamento ou redução no horário de funcionamento do comércio para as vendas de Natal, os ônibus devem seguir lotados de trabalhadores, especialmente nos horários de pico. Mas, segundo a SMS, isso não será um problema pois “haverá fiscalização e linhas que já operam com 100% dos veículos”.

Coletivos seguem lotados. Foto: Angieli Maros/Plural.jor

Escolas

Mesmo com a transmissão principalmente entre jovens, a SMS sustenta que não há problemas em manter a autorização de aulas presenciais nas escolas particulares – liberadas um dia após a reeleição do prefeito Rafael Greca (DEM), em 16 de novembro. “Não consideramos risco, entendemos que escolas estão com protocolo restrito e controle sobre as atividades educacionais, e os pais têm a opção de mandar ou não, o sistema é híbrido”, defende o médico infectologista da SMS, Alcides Oliveira.

Ele ressalta estudos evidenciando a baixa transmissibilidade do vírus entre crianças. “Se o ambiente está seguro, o risco é baixo. A Educação é fundamental para a sociedade e a possibilidade de frequentar aula é uma forma de reduzir a desigualdade que poderá surgir. A sociedade precisa da escola, se não teremos sérios prejuízos na aprendizagem, comportamento e desenvolvimento das crianças”, diz.

O infectologista só não explicou por que a liberação inclui apenas as escolas particulares e não as da Rede Pública de Ensino, que é onde se tem a maior parte de denúncias de violência contra menores.

Retorno presencial dos estudantes foi liberado na Rede Particular de Curitiba. Foto: Seed

Leitos

Sobre a abertura de novos leitos e o fechamento de 24 Postos de Saúde e duas Unidades de Pronto Atendimento, Márcia Huçulak afirmou que foi necessário para dar suporte aos pacientes moderados e aliviar os hospitais. “Nossa equipe está exaurida, nossos intensivistas não aguentam mais intubar pessoas. Estamos fazendo o possível e o impossível.”

Ainda assim, ela admite que a situação pode piorar. “Tudo é finito na vida, meu bem, vai chegar um momento em que não terá mais pra onde correr; não temos mais intensivistas, precisamos de profissionais e os hospitais da Rede Privada já anunciam o esgotamento. A situação é grave.”

Se puder, assine o Plural. Você pode escolher o valor que quer pagar. Isso faz muita diferença para nós: ser financiados por leitoras e leitores. As assinaturas nos mantêm funcionando com uma equipe que hoje tem oito pessoas e dezenas de colaboradores. Somos um jornal que cobre Curitiba em meio aos obstáculos da pandemia e fazemos isso com reportagens objetivas, textos de opinião e de cultura, charges e crônicas. Obrigado pela leitura.

2 comentários sobre ““A situação é grave; veio um tsunami na última semana”, diz secretária de saúde de Curitiba

  1. Mauren, obrigado pela matéria. Estou me sentindo um especialista.. . Desde que o R ficou maior do que 1 eu já sabia que o aumento do número de casos seria exponencial. Mas o pessoal da secretaria de saúde não? Ou eu sou um gênio ou eles não sabe nem mentir! No dia em que liberaram a ocupação de ambientes fechados por até 50 pessoas eu fui comparar com as medidas tomadas pela prefeitura de Colônia, na Alemanha. Lá, com a metade (proporcional) do número de casos, a ocupação máxima seria de 5… Bom, o cidadão comum, os médicos, os professores, os motoristas de ônibus, os jornalistas, a classe trabalhadora em geral, não financiam as campanhas eleitorais.

    1. A secretária se diz surpresa! Ahhh coitadinha, que inocente. Só quem tem esse louco viés confirmatório e negacionista ou é totalmente incompetente não sabia que isso iria acontecer. Deixar abrir cinemas e casas noturnas, lugares totalmente fechados onde qualquer contaminado vai ficar respirando o mesmo ar que os outros por pelo menos 2 horas e achar que ninguém vai se contaminar se seguirem aquelas regrinhas? Parece piada, mas infelizmente é essa tragédia que estamos vendo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias