A prefeitura não vai decretar Bandeira Laranja. E agora? | Jornal Plural
25 nov 2020 - 11h05

A prefeitura não vai decretar Bandeira Laranja. E agora?

Veja o que acontece se Curitiba não restringir atividades não essenciais

A prefeitura de Curitiba parece ter decidido evitar tomar novas medidas de restrição a atividades não essenciais na cidade, apesar do aumento de casos da Covid-19 nos últimos dias. Mas o fato é que a cidade registra 89% dos leitos de UTI Covid-19 ocupados, a transmissão do vírus está fora de controle e o sistema de saúde, tanto público quanto privado, dá sinais de estar perto do colapso.

Em entrevista à rádio Bandnews FM nesta segunda-feira (23), a secretária municipal de Saúde, Márcia Huçulak, disse que se dá muita atenção para a bandeira e que algumas restrições deverão ser estabelecidas para setores específicos. A impressão é que uma quarentena mais restrita, como a que fechou shoppings, cinemas e até os supermercados aos domingos não está nos planos da prefeitura.

Mas o que isso significa para o cidadão curitibano? O Plural explica:

Sistema de Saúde no limite

Médicos ouvidos pelo Plural são unânimes em afirmar que mesmo que houvesse a determinação de um lockdown na cidade esta semana, o número de casos de Covid-19 permaneceriam pressionando o Sistema de Saúde por pelo menos mais 10 dias, uma vez que temos 11 mil casos ativos, ou seja, 11 mil pessoas doentes e ainda transmitindo a doença.

Sem lockdown ou qualquer outra medida de isolamento social, aumentará a ocupação de leitos, exigindo abertura de novas vagas, compras ou empréstimos de equipamentos e suspensão de todo procedimento médico que possa ocupar leitos, que precisarão ser liberados para dar conta da demanda da Covid-19.

Mas o maior desafio mesmo é garantir profissionais para manter toda essa estrutura funcionando. A própria secretária de Saúde afirmou na sexta-feira passada (20) que as equipes profissionais estão exaustas. “Não conseguimos mais dobrar plantão”, disse, explicando que médicos e enfermeiras estão “exauridos”.

Profissionais da Saúde ouvidos pelo Plural afirmam que não se trata de prever aqui algo como aconteceu em Manaus, onde as imagens de covas abertas para os mortos da Covid-19 rodaram o mundo. Mas certamente o ganho que tivemos com a melhora no “manejo” dos pacientes poderá ser perdido quando for necessário convocar profissionais menos experientes para trabalhar em casos graves. “A UTI é basicamente manejo de paciente. A experiência e a especialização contam muito”, ressalta uma profissional.

Sem proteção para trabalhadores

Claro que mesmo sem o prefeito decretar restrições, a população pode tomar medidas por conta própria. Mas não é tão simples assim. Trabalhadores assalariados de setores que comportam o trabalho em casa ficam sem o respaldo oficial para solicitar esta modalidade de trabalho para o empregador.

“Na verdade, a prefeitura decretar o lockdown é a única forma para que os trabalhadores estejam realmente protegidos. Imagine, como um bancário de um banco privado vai dizer que não vai trabalhar porque é do grupo de risco? A Reforma Trabalhista esvaziou o movimento sindical, agora o trabalhador tem zero mecanismo de defesa. Sem restrições, as empresas vão continuar exigindo o trabalho presencial”, explica a advogada Daniele Biondo Crocetti.

Segundo ela, a recomendação para as empresas é que mesmo sem lockdown os trabalhadores sejam mantidos trabalhando de casa. “Isso reduz o afastamento por doença, e detém o aumento no contágio“, diz. Mas nem todo empresário vai tomar essa iniciativa sem o indicativo governamental.

Shoppings continuam abertos normalmente. Foto: Jess Carvalho

Orçamento em risco

Alguns profissionais indicam que a aposta da prefeitura com a manutenção da bandeira amarela é evitar uma retração ainda maior na receita do município. Fechar tudo no início da pandemia resultou numa perda estimada de R$ 659 milhões, segundo dados apresentados pela Prefeitura à Câmara.

“Estamos atravessando a maior crise de arrecadação que a cidade já viu”, disse o secretário de Planejamento, Finanças e Orçamento, Vitor Puppi, perante a Comissão de Economia Finanças e Fiscalização da Câmara, em setembro. O pior resultado foi justamente no Imposto Sobre Serviços (ISS), que sofreu impacto direto da redução nas atividades. A previsão, em setembro, era de uma queda, só nesta fonte, de R$ 141 milhões.

Enquanto isso, nos dois primeiros quadrimestres as despesas aumentaram 1,4%, principalmente por conta dos gastos com saúde. Se as atividades econômicas da cidade pararem novamente, o tamanho do estrago nas contas públicas aumenta.

Mas mesmo sem medidas de suspensão de atividades não essenciais, a previsão continua pouco animadora. Com o desemprego em alta, a redução no pagamento do 13º e férias em dezembro para quem teve suspensão ou redução no contrato de trabalho, a previsão é de retração nos gastos previstos nesta época do ano, com consequente queda na arrecadação prevista.

Flexibilização dos cuidados

Não é primeira vez que a humanidade lida com o surto de uma doença. Da década de 1980, quando a AIDS apareceu e começou a fazer vítimas, até hoje muito trabalho foi feito para conscientizar a população sobre Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e a síndrome.

São quase 40 anos de campanhas de saúde pública, a exploração exaustiva do assunto na televisão, no Jornalismo e no cinema, o ensino de educação sexual nas escolas. Mesmo assim, a conscientização sobre a doença ainda é necessária, diz um epidemiologista ouvido pelo Plural. “E temos ainda muitos que resistem à camisinha”, lamenta.

O esforço de conscientização, diz, tem que ser constante. Ininterrupto. Por isso, a comunicação ambígua da prefeitura de Curitiba, com as “broncas” da secretária de Saúde na população, contrastam com a atitude “flexível” das políticas públicas. “Não é uma mensagem clara”, critica.

A confusão aliada ao cansaço e ao fim de ano pode levar as pessoas a se exporem mais, resultando em muitos doentes, mais gente internada em estado grave e mais óbitos.

Lojas continuam cheias. Foto: Jess Carvalho

Ênfase no cuidado pessoal

Sem a ação do Estado, cabe à população se organizar da melhor forma possível para enfrentar os próximos meses. Se durar o mesmo tempo que a primeira onda da doença na cidade, este pico que começou agora deve ir até final de janeiro.

Isso significa redobrar os cuidados, tentar estabelecer uma rotina de isolamento domiciliar e limitar o contato às pessoas do núcleo familiar.

Pode não parecer muito, principalmente quando uma saída curta de casa resulta em inúmeros encontros com aglomerações, pessoas sem máscara e desrespeito ao distanciamento social. Mas faz, sim, diferença. No mínimo, porque protege a sua família e você da doença.

É hora de respirar fundo, renovar os cardápios de delivery e fazer planos para um Natal pequeno, em casa e sem visitas. Não vai ser fácil, mas vai passar e você estará seguro com os seus.

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