"Ponho a ciência à disposição da cidade", diz Eloy Casagrande | Jornal Plural
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15 out 2020 - 15h46

“Ponho a ciência à disposição da cidade”, diz Eloy Casagrande

Candidato da Rede pretende fazer uma política de valorização das universidades e da saúde pública

O candidato da Rede Sustentabilidade à Prefeitura de Curitiba, Eloy Casagrande, afirmou, durante entrevista ao Plural nesta terça-feira (13), que vai incentivar a pesquisa científica caso seja eleito. Apesar de sua candidatura ser considerada pequena, Casagrande sustenta que o objetivo do partido é colocar novas ideias que possam melhorar a vida dos curitibanos. O candidato argumenta que quer acabar com o descrédito das descobertas das universidades, construído ao longo dos anos. “Eu coloco a ciência à disposição da cidade e a gente tem bastante a oferecer nisso”, disse Casagrande.

Professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) há 20 anos, Casagrande tem 61 anos e é doutor em Engenharia de Recursos Minerais e Meio Ambiente pela Universidade de Nottingham, na Inglaterra. Pesquisador, ele orientou pesquisas de mestrado e doutorado em várias áreas. Além disso, é autor de mais de 120 artigos científicos nas áreas de educação, inovação, gestão, tecnologias sustentáveis e meio ambiente.

Eloy Casagrande foi candidato a vereador em 2016 e recebeu 1.400 votos, tendo sido o mais votado do seu partido. Na conversa com o jornalista Rogerio Galindo, o engenheiro reconheceu que terá muitas dificuldades no pleito, já que sua candidatura não tem direito a tempo de TV e não há muito dinheiro para a campanha eleitoral. Por isso, uma união com outras candidaturas progressistas não está descartada para o segundo turno. “Vamos ver como avança tudo isso, mas isso é uma decisão partidária, não depende só de mim”, afirmou o candidato.

Na conversa, Casagrande ainda falou sobre sua história, sobre a ausência de mulheres na chapa majoritária da Rede, crise hídrica, educação, transporte público e terceirização das UPAS. Além disso, o candidato também falou sobre suas propostas para o desenvolvimento da cultura na cidade.

Confira trechos da entrevista:

A Rede caiu na cláusula de barreira, não tem tempo de tevê, não precisa ser convidada para os debates e não tem fundo eleitoral. Como disputar a eleição assim?

Foi um fundo eleitoral mínimo. É muito difícil uma campanha em que você ainda tem que enfrentar nomes que estão há bastante tempo na política. Nomes que inclusive têm um fundo eleitoral muito avantajado comparado com o nosso. O que a gente está querendo colocar é justamente as ideias, para que elas possam progredir.

O diferencial que a gente apresenta é o de alguém que está há muitos anos fazendo projetos para a academia, e para fora também. Passei por duas pós-graduações fora do Brasil, fiz doutorado e pós-doutorado, quando voltei busquei orientar minhas pesquisas para serem aplicadas, sendo sempre voltadas para os problemas da cidade. Muita coisa na área ambiental, na educação, na área de tecnologia e sempre tentando construir a parceria com a gestão pública. As vezes saímos frustrados por essa parceria não acontecer.

A sociedade brasileira dá as costas para suas universidades, seus pesquisadores. Estamos vendo o descrédito que foi construído com os professores nos últimos anos, o modo como a gestão pública trata os professores e como alguns candidatos que estão ai que já trataram os professores. Me coloco como o oposto de tudo isso. Eu coloco a ciência à disposição de uma cidade e a gente tem bastante a oferecer nisso.

Será que não era melhor se unir para fazer uma coalizão progressista?

Acho que sim. Tem um ponto importante nesse seu argumento, tendo em vista que temos fragmentado muitas pautas, pautas semelhantes até se você for comparar as minhas com algumas que estão ai. Não quer dizer que não podemos fazer uma frente única ai, vamos ver como avança tudo isso. Eu concordo em parte com o seu argumento, mas isso é uma decisão partidária, não depende só de mim. Há esperança de que os partidos coloquem nomes que possam vencer a cláusula de barreira em 2022 também.

Há algumas diferenças às vezes na forma de conduzir a política, tem muitos partidos que estão consolidados com caciques já estabelecidos e quando você tenta incluir uma pauta nova, um nome novo, muitas vezes você tem dificuldades. A Rede, sendo um partido novo, ainda tem a possibilidade de construir isso, através de consenso, no diálogo, para colocar novos nomes.

Às vezes não há esse espaço nos novos partidos como a gente percebe, são sempre as mesmas figuras carimbadas, exceto um ou outro.

Eu acho que seria muito difícil eu ter uma candidatura em um partido como esse. É interesse que a gente possa evoluir e ver como a campanha anda, depois uma conversa depois das eleições. Acredito que a gente possa ter um nome no segundo turno, para fazer uma frente única se for o caso de ter que concorrer com o atual prefeito,

Sua chapa é uma das poucas sem mulheres. Não seria importante a questão da representatividade?

Nós fizemos essa discussão interna e decidimos ter essa representatividade na chapa das vereadoras. Temos mais candidatas a vereadoras do que candidatos homens. Meu vice foi escolhido por ser uma pessoa que está engajada em um problema social da cidade muito grande, que é a situação dos adolescentes, das crianças. Ele foi eleito no Conselho Tutelar e tem esse conhecimento que pode agregar ao meu conhecimento, mais voltado para a cidade em outros problemas urbanos, meio ambiente, transporte, moradia social, trazendo essa outra visão.

A sustentabilidade é um tripé onde você discute a questão social, econômica e ambiental. Atualmente, um dos grandes gargalos de Curitiba são problemas socioeconômicos, como moradias sociais, moradores de rua, periferias.

Em torno de 450 áreas que foram ocupadas em Curitiba, 40 mil famílias estão esperando casa. Nossa composição pensou um pouco nisso, no entendimento dessa realidade de Curitiba. Mas a gente tem a representatividade feminina bem forte.

O que pode ser feito a curto prazo para amenizar a crise hídrica?

Há mais de 20 anos estávamos alertando para esse problema. Só quatro reservatórios abastecem a cidade e nunca se procurou uma alternativa para a segurança hídrica, os nossos rios são todos poluídos. Nunca se teve um projeto de despoluição efetiva dos rios e nem um aproveitamento melhor das bacias próximas mais da cidade ou até dentro da própria cidade.

Por exemplo, poderia se buscar água próximo de Curitiba, a 60 quilômetros na Bacia do Assungui, em uma conversa com a Sanepar. Outro lado que a gente defende é como você trabalhar o consumo da água na ponta. Nós temos uma lei que mal funciona da coleta e uso da água de chuva. Isso precisa ser trazido como um programa. A Sanepar agora resolveu no último momento distribuir caixas da água.

Isso é uma coisa que poderia ter sido feita há muito tempo para as pessoas que não têm água. Mas um modelo de incentivo da criação de pequenos reservatórios, sejam eles comuns ou individuais, isso vai do planejamento de engenharia, de urbanismo. Acho que isso, tem que ser feito associado a um projeto de urbanismo para recuperar os rios, por exemplo. Nós estamos sobre os leitos de vários rios em Curitiba.

Estivemos recentemente na Bacia do Atuba, do Rio Bacacheri. No nosso plano de governo a gente planeja parques lineares em volta dos rios, para dar uma proteção a esses rios. O parque linear cria serviços, cria áreas de lazer, protege as margens dos rios, pode ter uma ciclovia ali, jardinetes, sistemas de drenagem para captar água de chuva. Essas são tecnologias que a gente já pratica dentro da universidade. A gente já testou isso, já viu isso.

Recentemente, a gente fez o Congresso de Wetlands – tratamento de esgoto doméstico atráves de plantas, já testado em outros países. Nós mesmos temos projetos aqui na periferia de Curitiba. A gente não consegue que o Poder Público coloque isso em prática. Por isso, a gente precisa fazer com que isso entre na política, na gestão pública. Isso é um pouco do nosso projeto de governo.

O que o sr. acha da gestão Greca na pandemia?

Não estou trabalhando com a visão de pós-pandemia, estou trabalhando com uma pandemia ainda presente no próximo ano. Quem sabe a gente consegue resolver isso com alguma vacina disponível. Mas mesmo tendo vacina disponível, vamos levar muito tempo para imunizar todas as pessoas. Vamos ter que ter algumas decisões sobre prioridades.

Quanto a como foi tratado desde o começo, só digo uma coisa: eu sempre trabalhei com precaução, isso é uma parte da pesquisa que a gente usa sempre. Tivemos três meses para que a cidade se preparasse para isso. Houve uma série de medidas confusas, a mensagem não chegava direito, aquele abre e fecha, troca bandeira. Eu agiria de outra forma, como fizeram em outros países como Nova Zelândia, Vietnã.

Eu aplicaria o tripê que seria de testes em massa, rastreamento e isolamento. Lá no começo se tivesse feito esse modelo implantando com um lockdown temporário pelo menos, a gente poderia ter segurado um pouco o número de mortes. Mas isso foi um erro tático que a gente viu em todo o estado, no Brasil né. E a outra situação é que houve um Cômite de Crise formado, mas que nunca foi consultado.

Quando você tem um problema novo que não sabe enfrentar, tem que ter especialistas te orientando com uma visão sistêmica né. Os setores não foram chamados para conversar. Eu acho que devia ter um conselho um pouco mais ágil em relação às medidas que estavam sendo tomadas.

Para retomar a educação vamos ter que ter essa conversa, com pais de alunos, com professores que estão sendo sacrificados neste momento com essa educação improvisada, trabalhando o dobro com os recursos do próprio bolso inclusive. As crianças também subjugadas a um modelo que não é educação à distância, é um modelo que foi improvisado de uma sala de aula para um vídeo. É completamente diferente, é uma discussão mais ampla do modelo de educação que nós vamos querer pra frente.

Nós vivemos uma crise de educação há muito tempo, esse modelo de sala de aula não é um modelo que eu defendo. Eu defendo a sala de aula muito mais aberta na rua, ao ar livre, o que seria bem apropriado agora.

Nós temos um projeto inclusive de construir Centros de Educação Ambiental em todos os parques de Curitiba. Isso não custa caro, é mais barato que aqueles R$ 12 milhões que o prefeito está gastando com o Parque João Turin, no São Lourenço. Uma obra faraônica, onde você tem uma estética duvidosa inclusive, mas é o estilo dele. O dinheiro público tem que ser melhor discutido para coisas que sejam mais eficientes.

Eu construiria Centros de Educação Ambiental como fiz nos Escritórios Verdes da Universidade Tecnológica, com tecnologia sustentável, com hortas urbanas, com energia solar, envolvendo as escolas, as pessoas que frequentam o parque. Eu levaria a escola para rua, acho que esse é o modelo que a gente precisa discutir para o próximo ano.


Um dos problemas no pós-pandemia é o fato de que seis mil crianças migraram para a escola pública. Como o senhor imagina que a educação e a saúde públicas vão aguentar essa sobrecarga ?

Eu acho que vai ter algum tipo de acerto, parcerias que a gente pode fazer com a escola pública dando algum suporte para poder absorver. Não vai poder construir uma escola para seis mil crianças da noite para o dia né. Eu creio que uma parceria com a escola privada como existe no ensino de infância, em que algumas escolas complementam CMEIS nos primeiros anos do 1 aos 5 anos. Você pode talvez desenvolver algum mecanismo de ajuda. Temos um orçamento em Curitiba razoável né que vai de R$ 9 bilhões a R$ 10 bilhões por ano.

Acredito que tem que chamar todos os setores da sociedade. Vou ter uma conversa com o Sindicato das Escolas Privadas de Curitiba para saber a visão deles. Não sei se o atual prefeito chamou as escolas particulares para uma conversa. Acho que é preciso essa conversa com a escola privada para saber como vão se sustentar no próximo ano. São milhares de pessoas desempregadas, professores desempregados, técnicas das escolas que podem ficar desempregadas, isso causa mais problemas econômicos e sociais para Curitiba.

Como sempre trabalhei com parcerias, sei que as pessoas acreditam em uma boa ideia e em uma boa causa. Você vê como foi o movimento de solidariedade na pandemia, das universidades, do terceiro setor e dos empresários. Eles forneceram muito suporte para famílias de baixa renda, para pessoas que ficaram desempregadas, cestas básicas. Nós tivemos que desenvolver respiradores, álcool gel, câmaras de desinfecção. Então há um momento que talvez a gente aproveite essa onda, esse sentimento.

Estamos tentando sair de uma crise, em que ninguém ainda tinha a fórmula correta, mas que a gente aproveite isso para resolver os problemas que estão ai. Acredito nesse diálogo, nessas parcerias. Sozinho o Poder Público não vai resolver. Com certeza o Poder Público tem que ser o capitão de tudo isso, tem que guiar a cidade para fora dessa crise.

Como será a nova licitação dos ônibus?

A gente já sabe todas as críticas que foram feitos contra esses contratos com as indústrias de ônibus. Teve CPI na Câmara, denúncias, isso é um modelo de contrato que existiu em várias cidades. A gente deve buscar a partir da renovação de contrato em 2025 um transporte que possa atender melhor a população, com um custo mais baixo. A passagem pode ser composta através de propaganda nos ônibus, já existem alguns projetos em andamento nesse sentido, para você ter a redução dessa passagem.

Tarifa zero no Centro da cidade. A gente pode criar um modelo que chegue mais próximo do Centro e passe a circular na cidade. A gente até tem um projeto em Porto Alegre que está sendo discutido para isso. Não vamos dar calote nas empresas, mas vamos buscar uma composição de passagem em parceria com as empresas. Um volume de passagem que é diferenciado entre seus trabalhadores através de uma cooperativa, de um fundo rotativo, com mecanismos financeiros para se trazer tudo isso.

A gente pensou também em um estudo para aproveitar as linhas de trem em Curitiba. A linha de trem Rio Branco, Itaperuçu, Tamandaré. São linhas que incomodam de madrugada, 20 anos é a mesma coisa. Causa acidentes é barulhento, causa poluição. Será que a gente não poderia adaptar isso como já foi feito em outros lugares? No Rio de Janeiro se fez isso.

São mais de 30 mil pessoas que se deslocam desses municípios para Curitiba. Esse investimento seria possível. Se a gente oferecesse um transporte seguro, confortável e mais rápido, tenho certeza que a gente poderia começar a mudar esse perfil do transporte de Curitiba que já atendeu muito bem a população, mas que agora está defasado. A gente precisa inovar nessa área.

O senhor acha que é um bom caminho terceirizar as UPAS?

Não me aprofundei no contrato que o prefeito fez, teria que avaliar bem isso. Quando fazem esse tipo de contrato é juridicamente muito difícil mexer. É importante que a gente veja a saúde pública e a sua importância a partir do que aconteceu na pandemia. Veja a importância do SUS. Outros países que não têm saúde pública sofreram para atender sua população. E a saúde está la na Constituição. Moradia, saúde e educação são serviços do Estado!

Acredito que é prioridade os recursos para manter um sistema de saúde pública com qualidade, com um pessoal bem preparado. Não que não sejam, mas com a verificação de que haja uma formação contínua. O aproveitamento melhor de médicos, enfermeiros, estagiários das universidades. Nós somos uma cidade universitária.

Temos muita mão de obra de qualidade que pode ser aproveitada em parcerias para vários projetos. O da saúde seria um desses, por exemplo. S questão da gestão da UPA é uma questão de lá na ponta você ser melhor atendido, com a melhor triagem, você pode tirar a pressão que sofrem os hospitais.

É ai que a gente pode começar a trabalhar, fazendo a verificação do potencial que a gente tem na mão e de que ele pode ser melhor gerido. Sempre trabalhando também com a visão de prevenção da saúde.

Qual seria um plano para a cultura?

Importantíssimo. Uma cidade sem cultura é uma cidade sem alma. A Economia Criativa é um setor que tem alto valor agregado, e Curitiba precisa explorar melhor isso para que haja um trabalho dirigido. Por exemplo, os editais que são lançados poderiam ter um apoio maior a cultura do bairro, a cultura local.

Criamos um programa que chama Unidade de Inovação Social. Como a gente pode levar os serviços além das ruas da cidadania, que já não comportam o atendimento de saúde, segurança, cultural. É porque uma rua da cidadania atende a 10 bairros, são populações de mais de 200 mil pessoas. Queremos descentralizar isso e levar essas Unidades de Inovação Social para os bairros. Para isso, estou fazendo um projeto além da assistência social, de capacitação de saúde, de jovens, de valorização do idoso, um projeto cultural.

Um projeto cultural é trabalhar com as escolas, com o potencial que você tem ali naquele local, no contraturno e unindo as coisas. Um projeto que a gente tem muito carinho, é tornar Curitiba a Capital da animação e do cinema no Brasil. Curitiba tem um histórico de bons filmes e animações. Tenho vários amigos envolvidos com isso e creio que a gente poderia fomentar esse tipo de programa para Curitiba atraindo turismo. Temos uma mão de obra audiovisual muito grande. Precisamos canalizar esse potencial para fazer uma Hollywood, porque não podemos criar uma coisa assim?

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