"Jeanine": quando os quadrinhos refletem o mundo real | Jornal Plural
19 fev 2020 - 21h14

“Jeanine”: quando os quadrinhos refletem o mundo real

Obra retrata conversas entre autor e sua vizinha, e foge do senso comum ao falar de prostituição

Jeanine, 64 anos, nascida em Aïn Taya – um pequeno vilarejo, na Argélia. Filha de um pedreiro, descendente de italianos, e de uma mãe que passava roupa para tentar complementar o salário do marido. Pobre. O que mais enriquece Jeanine, personagem central do quadrinho homônimo do francês Matthias Picard, são suas incríveis histórias de vida. 

O que Picard ilustra ao longo das 144 páginas da obra são suas longas conversas com a vizinha, e amiga. Em meio aos diálogos e à rotina do autor/personagem pelas ruas de Estrasburgo, na França, as memórias e os relatos de Jeanine tomam forma e expressão. Como em qualquer boa conversa permeada por recordações, a narrativa é um pouco errática. Vai e volta através dos anos, países e acontecimentos. 

Distribuídas em episódios, as ilustrações hora mostram a conversa em um tempo “presente” – o apartamento de Jeanine, com seus detalhes sendo observados por Picard; as ruas de Estrasburgo – hora voltam para as falésias aos pés do vilarejo argelino; indo até uma prisão na Alemanha, em 1968; e fazendo passagem pela Suíça. Entre tempos, as conversas revisitam o amor de Jeanine pela natação, o trabalho como lanterninha em uma cinema, e até mesmo um grande amor.

Nos traços de Picard, os cenários são vastos e reais: ruas, vilarejo, cinema, França, Alemanha, Suíça. As conversas também acontecem no carro de Jeanine, que o usa de ponto para receber seus clientes. Jeanine é prostituta, um trabalho que exerce desde a juventude. Seu primeiro contato com a prostituição é narrado logo nos primeiros quadrinhos e, embora seja o ponto de partida do retrato feito por Picard, não é o trabalho de Jeanine que guia a narrativa – é sua própria voz, sua personalidade. Aqui talvez esteja o ponto mais forte do retrato ilustrado pelo francês: uma história humana, sem as fantasias e os estereótipos que geralmente se arrastam quando falamos de prostituição.

Todos nós conhecemos uma Jeanine – é uma daquelas senhoras que gostam de passar o café, abrir o álbum de fotos, contar histórias e mais histórias de antigamente. Rememorar o passado. Tudo no melhor estilo: “Já te falei daquela vez em que…?”. Jeanine é uma mulher real: se preocupa com o que vão pensar os leitores de Picard, se orgulha de ter um escritor a ouvir suas histórias. Em meio aos desenhos, o que se vê é o mundo real com todas as suas dúvidas, incertezas e constrangimentos.

Para além do papo entre os personagens, o livro faz, ainda, um segundo retrato – mais oculto: o da história do movimento das prostitutas na França. As primeiras organizações das trabalhadoras sexuais aconteceram por volta de 1970, em defesa dos direitos da classe. “Ser prostituta, no entanto, não chega a ser uma tarefa fácil. E, ao contrário do que o senso comum indica, nossos maiores inimigos não são nossos clientes, mas a sociedade em geral e o Estado, que historicamente persegue mulheres de comportamento não convencional, muitas vezes sob o pretexto de protege-las”, escreve a trabalhadora sexual e escritora, Monique Prada, no posfácio de “Jeanine”. 

Permitindo que a própria retratada dite o ritmo da narrativa, hora revelando mais, hora menos, Picard dá voz a sua personagem principal, deixando a cargo dos próprios leitores decidirem o quanto confiam, ou não, em Jeanine e suas histórias extraordinárias. 

Serviço
“Jeanine”, de Mattias Picard. Tradução de Maria Clara Carneiro. Veneta, 144 páginas, R$ 49,90. 

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