19 nov 2020 - 8h49

Meio século depois, Super 8 segue conquistando cinéfilos

Festival curitibano, o maior da América Latina, exibe on-line filmes no formato clássico dos anos 60

Paixão é algo difícil de explicar. Fazer vídeo digital hoje sai de graça, com boa qualidade e uma praticidade sem igual. Mas e quem disse que isso é tudo que importa. Para alguns aficionados, o divertido mesmo pode ser o absoluto oposto: trabalhar com películas que não são fáceis de encontrar, mal permitem edição e que têm um preço um tanto salgado – mas que dá a eles um prazer que nenhum celular jamais daria.

Os fãs do Super 8, um formato que nos anos 60 e 70 era moda por causa do preço baixo e da praticidade, são uma tribo de cinéfilos interessados em produzir à moda antiga. Compram câmeras usadas na Internet, mandam trazer rolos dos Estados Unidos (U$ 40 a cada três minutos e meio, fora frete e impostos) e se deliciam fazendo filmes que em geral têm uma só tomada, para evitar edição.

Os filmes atuais nem banda sonora têm, o que obriga os realizadores a fazer a captação de som em gravadores à parte – e nem é preciso dizer como é difícil sincronizar as duas coisas. Há quem filme os personagens de costas na hora do diálogo para não deixar transparecer a falta de sincronia entre a fala e os movimentos dos lábios.

Apesar de todas as dificuldades, um grupo de fiéis adeptos não larga a bitola de oito milímetros por nada. E o séquito do Super 8 cresce anualmente, como mostram as oficinas realizadas em Curitiba e o festival Curta 8, que nesta semana chega à sua 16ª edição firme e forte, apesar da pandemia.

Ruído do projetor é parte da experiência. Foto: Divulgação

O festival, maior da América Latina no gênero, tem duas mostras competitivas. A primeira é para os participantes da oficina dada pelo próprio festival. Os filmes, de rolo único, em geral são feitos pelos novos realizadores e por vezes correm o mundo, conquistando prêmios. A segunda competição inclui filmes mais longos, de até quinze minutos.

“Este ano vai ser tudo diferente”, diz Antônio Carlos Domingues, coordenador do festival. “A gente está acostumado a reunir o pessoal na sala de projeção, ouvir o ruído do projetor, faz parte da experiência. Esse ano, com tudo on-line, vai ser um processo totalmente novo para a gente”, diz ele, que aprendeu a filmar em Super 8 na antiga Escola Técnica, hoje UTFPR.

Culto em alta

Antônio Carlos diz que o culto ao formato está longe de entrar em decadência. Este ano são 52 filmes inscritos. E no mundo inteiro, a tendência tem se mantido. “A Kodak está até anunciando o lançamento de uma câmera nova, que mescla o analógico do filme com um visor digital”, diz.

Hoje, comprar uma câmera no Mercado Livre e congêneres é fácil. Um espécime bem cuidado sai por R$ 200 ou R$ 300. Mas são as mesmas máquinas que rodam há quase meio século por aí, e muitas vezes começam a apresentar defeitos.

No auge do Super 8, o que fazia as câmeras serem uma febre era o preço baixo e a praticidade – é preciso lembrar que antes das filmadoras com, fitas magnéticas, a outra opção eram máquinas bem mais caras e pesadas, como as câmeras de 16 milímetros.

Jorge Bodansky, homenageado do ano. Foto: Divulgação

Muita gente aprendeu a fazer cinema assim, incluindo ícones da direção como Steven Spielberg e Robert Zemeckis. No Brasil, o formato também fez a cabeça de muita gente. Um dos diretores da época, Jorge Bodansky, será homenageado no festival deste ano.

A programação do Curta 8 deste ano também conta com uma mostra do que está sendo feito de melhor no mundo hoje em Super 8 e com um clássico do festival: o dia do filme caseiro. Na tarde de domingo, serão exibidos pequenos trechos filmados pelos aficionados em festas de aniversário, casamentos, ou o que for. Uma homenagem a todos os que mantêm essa tradução viva.

SERVIÇO:
“Curta 8 – Festival Internacional de Cinema Super 8 de Curitiba”
Data: 19 a 22 de novembro de 2020
Horário: Quinta e Sexta sessões às 19h e 20h. Sábado e Domingo sessões às 16h, 18h, 19h e 20h. Programação completa no site www.curta8.com.br
Transmissões gratuitas pelos endereços: curta8.com.br e estudio9.live
Classificação etária: 16 anos

Se puder, assine o Plural. Você pode escolher o valor que quer pagar. Isso faz muita diferença para nós: ser financiados por leitoras e leitores. As assinaturas nos mantêm funcionando com uma equipe que hoje tem oito pessoas e dezenas de colaboradores. Somos um jornal que cobre Curitiba em meio aos obstáculos da pandemia e fazemos isso com reportagens objetivas, textos de opinião e de cultura, charges e crônicas. Obrigado pela leitura.

Assuntos:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias

Lições sobre a “cura da Covid-19”

Supondo que o “estudo” tivesse sido conduzido com rigor científico, e que os números apresentados, para cada um dos grupos, fossem o retrato de uma retidão metodológica, certamente não poderíamos atestar, nem de longe, que as condutas bioéticas foram seguidas

Marcelo M. S. Lima

Radiocaos Fosfórico

Neste episódio os textos e ideias combustíveis de Trin London, Merlin Luiz Odilon, Menotti Del Picchia, Alana Ritzmann, Otto Leopoldo Winck, Gabriel Schwartz, Cyro Ridal, Robson Jeffers, Guilherme Zarvos, Carlos Careqa, Clarice Lispector, Luciano Verdade, Giovana Madalosso, Charles Baudelaire, Arnando Machado, Edilson Del Grossi, Francisco Cardoso, Liliana Felipe, Valêncio Xavier, Carlos Vereza, Ícaro Basbaum, Mauricio Pereira, Mano Melo, Monica Prado Berger, Amarildo Anzolin, Antonio Thadeu Wojciechowski, Marcelo Christ Hubel, Cida Moreira, entre outros não menos carburantes.

Redação Plural.jor.br