A história incrível de “Napo”, o primeiro curta de animação em 3D de Curitiba | Jornal Plural
13 ago 2020 - 11h42

A história incrível de “Napo”, o primeiro curta de animação em 3D de Curitiba

Filme sobre a relação do neto com o avô que perde a memória chama atenção no circuito de festivais e será exibido pelo Olhar de Cinema

“Napo” acaba de ganhar um trailer e de conseguir a façanha de entrar em 19 festivais internacionais, uma lista que inclui Xangai e Los Angeles, na Califórnia.

Mas a maior proeza da equipe por trás do filme – que não é pequena – foi a de ter feito o primeiro curta-metragem curitibano de animação em 3D, tendo como referência os grandes estúdios americanos. É o que poderia ser chamado de padrão Pixar de qualidade.

No filme, o velho Napo – de Napoleão – já não pode mais viver sozinho e tem de se mudar para a casa da filha Lenita. Ele tem dificuldade para se lembrar das coisas e até de reconhecer o neto João, com quem passa a dividir o quarto.

O Plural pôde assistir ao filme e “Napo” é mesmo impressionante do ponto de vista técnico – poderia concorrer ao Oscar da categoria sem fazer feio. Mas o que marca de verdade é como a animação funciona para narrar uma história muito humana.

Os detalhes do desenho são de um passado recente, da década de 1990, ainda com videocassetes e fotografias de papel. Numa refeição, o menino come arroz e feijão num prato branco com detalhes alaranjados, enquanto a mãe lava louça usando uma esponja amarela e verde.

Na mudança, Napo leva consigo, além de uma poltrona, alguns poucos pertences pessoais. Entre eles, um álbum de fotos. A filha folheia o álbum com o pai, mas as imagens não significam nada para ele.

Num impulso, João começa a desenhar no verso das fotografias, imaginando desdobramentos para situações registradas no papel. São esses desenhos que ajudam o avô a acessar pedaços do passado e a finalmente reconhecer a filha e o neto.

“Napo” é apresentado como um filme sobre memórias, mas é também sobre formas de se conectar com alguém querido.

O início

Quando conseguiu ser aprovado em um edital de cultura do governo do estado em 2015, um grupo de estudantes de Artes Visuais e Letras não fazia ideia do trabalho que teria pela frente.

“Assim que começamos a ter mais noção de como seria o processo de realizar um curta no Brasil, logo ficou claro que a gente foi muito ambicioso na hora de prometer um filme de animação de 16 minutos – era algo muito complexo e não conhecíamos nem a quantidade de pessoas necessária pra ajudar a gente com a produção”, diz Gabriela Antonia Rosa, uma das roteiristas do curta, em entrevista pelo WhatsApp.

Gabriela é irmã de Gustavo Ribeiro, o diretor do filme. Os dois são paulistas, mas vivem em Curitiba há mais de 20 anos. O quarteto que deu início ao projeto se completa com a produtora Thais Peixe e o animador Daniel Freire.

É o avô de Daniel que inspirou a história de Napo.

Detalhes do desenho remetem a um passado recente, da década de 1990.

Revo

Com dificuldade de encontrar profissionais da área, eles tiveram a ideia de criar uma escola, a Revolution (ou “Revo”, para os mais chegados), e ministrar cursos a fim de preparar gente que pudesse dar uma mão com o “Napo”.

A maioria dos cursos é de arte digital e tem nomes como “Criação de cabelos 3D com XGen no Maya”, “Concept art para cenários” e “Motion graphics”. Na pandemia, os cursos seguem com versões on-line.

“A escola vai fazer cinco anos em 2020 e é a grande responsável por termos conseguido terminar o filme”, diz Gabriela. Nessa meia década, algo em torno de 1,5 mil alunos passaram pela Revo e dezenas deles se envolveram indiretamente com a produção do curta (que mobilizou ao todo 110 profissionais de várias áreas).

Miralumo

“É fundamental destacar que a gente jamais conseguiria ter feito o filme só em quatro pessoas”, diz Gabriela, que criou a produtora Miralumo com Gustavo, Thais e Daniel.

Além disso, o dinheiro arrecadado com os cursos ajudou a completar o orçamento do filme. Por meio do edital, eles receberam R$ 140 mil. A escola rendeu um valor parecido. Então: cerca de R$ 300 mil.

Mas uma parte significativa do orçamento – outros US$ 250 mil (ou R$ 1,25 milhão) – não veio em dinheiro. “O que salvou a gente foram os patrocínios internacionais que nos deram licenças de softwares caríssimos e apoio nas partes técnicas”, diz Gabriela.

Ela explica que, de fato, 80% do filme foi feito em Curitiba. “O restante da produção ocorreu fora do Brasil porque existem duas áreas bem específicas em animação que têm pouco mercado aqui: a gente precisou de muitos animadores 3D (de mais de 15 países) e toda a finalização do filme (que tem o termo técnico de renderização) foi feita na Alemanha”, diz.

E agora?

Com o filme pronto, os festivais deveriam servir como vitrine para encontrar distribuidores. “Então, os festivais funcionam como uma bela vitrine sim, mas é difícil que os distribuidores se interessem por curtas…”, diz Gabriela.

No melhor dos mundos, “Napo” seria exibido nos cinemas abrindo sessões para filmes de longa-metragem, como acontece com as produções da Pixar. “Mas o caminho para que isso aconteça não é tão direto”, diz Gabriela. “O ideal pra gente seria conseguir vender o filme para alguma plataforma de streaming.”

Até lá, e enquanto estiver percorrendo o circuito de festivais, “Napo” deve continuar inédito.

Como ver o filme

A boa notícia é que um desses festivais é o Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, que acontece entre os dias 7 e 15 de outubro.

A programação só sai em setembro, mas os organizadores já confirmaram que “Napo” será exibido na Mirada Paranaense, a parte do evento dedicada a filmes produzidos no Paraná.

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