"Machado, depois do funeral" | Jornal Plural
15 jun 2020 - 18h00

“Machado, depois do funeral”

Uma história para inaugurar a seção de contos do Plural

Eu enterrei meu corpo em silêncio. Nem olhei para a janelinha de vidro do caixão. Vi baixarem a caixa barata, de pinho, e escolhida às pressas, sem flores, coroas ou falas. As três pessoas presentes, de máscara cobrindo a boca e o nariz, não falavam comigo. Eu podia deixar a situação mais poética e dizer que “caía uma chuva fina” ou que “um vento sacudiu os ciprestes”, algo assim, mas nada disso. Fazia um calor do cão, o sol a pino, poeira, flor alguma no lado do cemitério reservado para indigentes. Uma retroescavadeira dava o tom ainda menos poético para o enterro de um poeta, barulhento, a jogar terra sobre os caixões enfileirados de um enterro feito a toque de caixa. Contei os caixões iguais, alguns envoltos em plástico azul para “evitar contágio”. Eram 33 com o meu. Um bom número. Dante gostaria. Minha prima mística também. Talvez também minha mãe gostasse, católica, antes de enveredar para uma seita e sumir no planalto central atrás de um vidente que tomava ayuasca como coca-cola.

Ao menos, teria companhia no buraco de terra vermelha. Mas ninguém ali, além de mim. Onde os outros 32 mortos? Que solidão!

Por força do hábito, dei com a mão aos três amigos, Carlos, Betina, Maria. Não retornaram o aceno. Maria era a única que chorava, talvez porque pensasse que tudo poderia ter sido diferente,  a pandemia não me tivesse levado, nós casados, com duas crianças, morando no interior, riacho ao lado da casa, com uma horta e uma vida vegana. Não daria certo mesmo: adoro meu apartamento  minúsculo do centro sujo — embaixo tem um bar que faz sardinha frita às sextas-feiras, com putas, travestis e mishês tomando cerveja artesanal com teor de 11,5% —, como carne dia-sim-dia-também e o único filho que suporto é o Zé. Que mia. Agora, Carlos talvez tivesse chance. Não gostava dos meus poemas, o que o distanciava de Maria. Agora, talvez, pudessem juntar os ódios, as invejas e as frustrações, comprar uma chácara, tentar um casal de filhos e o cultivo de bertalhase e ora-pro-nóbis. Acho que os filhos seriam bem bonitos: a mistura típica do Sul, uns polaquinhos de franja clara. Tivessem sorte, cresceriam, votariam no centrão, seriam alegres gordinhos cisgênero e, por sua vez, teriam outros filhos tomadores de leite gordo tirado na hora e comedores de pinhão. Isso, claro, com um puta tablet na mão. Os tempos mudaram, afinal. Os sulistas mudaram bastante. Podem comprar chouriço pela internet agora. Carlos e Maria.

Caminhei para o portão do cemitério. Duas letras de metal tinham caído da frase “h je eu, ama hã você”, outrora em latim e agora traduzida. Não sorri. Sempre que passava ali me dava um arrepio pensar nisso. Me veio à cabeça o Zé e se alguém tinha posto ração para ele. Olhei de um lado e de outro, sem saber direito o que fazer nessa nova… vida. Um sujeito caminhava em minha direção pela esquerda. Não usava máscara. Levou a mão ao chapéu coco. Não o conhecia nem de vista nem de chapéu. Aliás, nem me toquei que alguém usava um chapéu coco num dia de sol de rachar. Talvez fosse um desses adolescentes malucos que vai ao cemitério fumar maconha e conversar com os mortos e os gatos e chorar as espinhas e o fim da série preferida. Um neo-gótico, sei lá. Mas não. Ele se aproximou e perguntou:

— E agora?

— Agora o quê, senhor?

— Que vai fazer?

— Senhor, acabei de me enterrar e nem sei direito onde estou! Fico surpreso por alguém me dirigir a palavra…

— O senhor está às portas do cemitério, como bem vê.

— Isso eu sei, gra-to por me avisar! Eu quero dizer que nem sei “onde” ou “quando” estou!

— Quer uma resposta objetiva ou uma floreada?

— Uma bem objetiva, por favor!

— Ah, os poetas. Passam a vida à caça de palavras e expressões complexas e ambíguas. E depois querem tudo preto no branco, como fosse a vida um tabuleiro de coisas opostas e dicotômicas… e se tudo fosse uma divisão binária assim seria tão fácil, mas as pessoas esquecem das zonas de sombra e da variedade de cores possíveis, mesmo a variedade e verde nesses ciprestes que parecem todos iguais…

— Achei que a resposta seria objetiva… se é que o senhor sabe onde estou… estamos, afinal!

— Está na Terra mesmo. Antes, o senhor ficaria num limbo, mas ele foi anulado por uma decisão arbitrária e muito discutível há alguns anos em Roma… mas se quiser me acompanhar, posso explicar melhor. Tem fome? Quer beber algo?

— Não, não tenho fome. Nem sede.

— Força do hábito perguntar. Aqui não temos fome nem sede… exceto se…

— Exceto se o quê? E quem é o senhor?

— …há algumas condições de fome e sede, mas deixemos isso para depois. Não quero assustá-lo muito. Vamos circundar o cemitério. De lá, caso seja de sua vontade, poderei levá-lo onde queira, até que decidam para onde querem que vá.

Um homem baixo, de meia casaca, cabelos crespos puxados para trás, uma armação de óculos pequena, ovalada, o chapéu coco que passou a levar na mão… ele parecia… parecia Machado de Assis!

— Decidirem para onde querem que eu vá? Como assim?

— O senhor pensava que viveria aqui vagando? Pode ser que tenham dúvidas sobre o que fazer com o senhor, mas dúvidas por dúvidas carrego cá comigo as minhas. Um ou outro conhecido vaga por aí nessa condição… O Lima, o Nelson, o rapazote Caio, mas isso não importa. Olha, se quiser me acompanhar, poderei mostrar um dos aposentos onde o senhor poderá ter a sua morada definitiva.

— Entramos no cemitério de volta?

— Não, não. Cemitérios são como uma coleção de troféus para os vivos. O vivo vai entra lá, escolhe uma das peça da coleção, fica um pouco admirando a peça, como olhasse para um espelho dizendo “por enquanto eu venci”. Nada de muito superior a isso, os vivos. E, em geral, não são muito criativos nas orações. Rezam depressa, como catassem feijão, sem prestar atenção ao conteúdo propriamente dito…

Ele, então, se colocou de lado a mim e fez um gesto como se abrisse caminho, como dissesse “por aqui, por favor”. Eu o segui. Nada havia que fazer ali mesmo. Nem vi em que carro entrou Maria… a gente se dá conta de que perdeu algo quando já a perdeu…

— …ou nunca teve!

— O senhor lê meus pensamentos!

— Prometo não fazer mais isso, mas me pareceu meio óbvio como naqueles contos de Conan Doyle ou Agatha Christie quando um personagem segue a lógica do pensamento de outro cristão… o senhor tinha uns olhos compridos pela tal Maria. Mas não pense mais nisso. Nunca daria certo. Maria queria uma horta, um riacho e um golden retriever. Será mais feliz com Carlos, José ou o Marcondes.

— Quem é Marcondes?

— Ela conhecerá um Marcondes. Verá nos olhos dele esse brilho verde meio apagado que o senhor tem e que fica azulado no outono. Isso será o suficiente para ela.

— Então… eles todos sairão ilesos da pandemia…

— Quase todos sairão ilesos da pandemia. O senhor foi muito imprudente indo comer sardinhas naquela noite, o senhor sabe qual! Era só descer as escadas, o senhor disse a si mesmo, e não pensou no contágio. Nunca vi sardinhas mais caras que essas, por Santo Isidoro!

— Pensei que fosse ateu!

— Essas ideias de ateísmo, monoteísmo, paganismo, etc., etc., etc., não valem nada aqui. Esqueça-as. E é força do hábito. Afinal, o nome de um santo na boca do fiel mais assíduo na igreja não o salva de uma… pandemia, por exemplo.

— O exemplo mais à mão, diria minha mãe…

— Por assim dizer, eu acompanharia o pensamento de sua santa mãe.

— Sabe onde ela está?

— Talvez o senhor não quisesse saber. Mas esqueça isso. Dobrando a esquina chegaremos aonde devemos chegar.

Circundamos o cemitério e entramos na rua do hospital e do colégio. Nunca a piada que contávamos no colégio fizera tanto sentido: do-colégio-para-o-hospital-para-o-cemitério. Tinha sido bom estudar ali, afinal, naqueles tempos de fim da cortina de ferro, fim da História, sei lá, fim de regime militar, fim de um tempo grosseiro. Parecia que tudo ia caminhar tão bem a partir dali. Mal sabíamos que depois de Collores, Lulas e Têmeres, haveria Bolsonaros e uma pandemia mortal, com cem mil mortos. Dentre eles, eu!

Machado parou na frente de uma loja e disse: “Chegamos!”. Parecia feliz. Só ali notei o sotaque carioca e, com vergonha de perguntar, disse de mim para mim que devia ser o Machado mesmo. Ele teve a decência de não comentar nada.

— Uma loja de armarinhos?!?

—  O senhor esperava o quê? Um lupanar, um parque de diversões, talvez? Uma capela?

— Não sei…

— Uma loja de armarinhos é surpreendente! Agulhas, linhas e botões podem nos ensinar mais da vida que uma biblioteca de três estantes de Aristóteles, Avicenas e Confúcios, tenha certeza.

— Não sei se é um pouco tarde para querer aprender da vida…

Ele ajeitou os oculozinhos no nariz, abrindo um pouco os olhos quase amendoados, levantando as pestanas grandes e brancas e deu de ombros: — Vamos! Há um grande caminho que devemos percorrer.

Passamos por duas mulheres gordas escolhendo zíperes, uma criança amuada num canto esperando alguém, com ar de poucas amizades, uma senhora olhando para a senha vinte e seis como a pensar se deveria jogar aquele número na mega sena, duas vendedoras vasculhando uma caixa de sapatos com botões de massa dentro, em cartelas como as de comprimidos, o balcão antigo, de madeira e vidro, e Machado passou por uma cortina de contas de vidro, colorida e barulhenta. Ninguém nos olhou ou disse nada. Segui-o.

No meio do caminho, entre a loja de armarinhos e a entrada de uma gruta ou caverna, as paredes tinham desenhos, feitos por um grafiteiro sem habilidade para proporções: uma pantera, um leão, uma loba alimentando o que deviam ser Rômulo e Remo. Não pude contemplar direito as imagens, tampouco tive tempo de perguntar o que representavam porque Machado parecia apressado ou mesmo feliz por me guiar por aquele caminho estranho. E dizia: — “Venha, venha! Temos muito que ver!”. Parecia que entrávamos num shopping recém-aberto e íamos escolher a roupa para um casamento ou formatura.

— Muito melhor que compras! — Disse ele, esquecendo-se da promessa de não ler meus pensamentos.

— E onde isso vai dar?

— Aqui! — Disse ele, abrindo uma porta, que dava para uma escada de aço, em espiral, para baixo, como pude perceber me escorando no parapeito que circundava a entrada estreita.

— Tenha cuidado ao descer. A escada é apertada e escura.

— …

— Força do hábito. Sempre dizia isso à Carolina quando descíamos de noite comer bolinhos de chuva nos momentos de insônia e chateação. Mas as escadas eram de madeira e rangiam… não seria possível um amante enganar a amada chegando tarde pé ante pé…  — e riu — Ah, Carolina! Nem sei onde estará.

— E para onde vai dar isso? A escada parece não terminar mais!

— Um desses lugares provavelmente será sua última morada, até o fim dos tempos, se haverá fim dos tempos! Já não sei mais. Aqui é a entrada do inferno dos poetas. Como o senhor poetou a vida toda, em sua curta vida, ceifada pela pandemia… é aqui que deve ficar.

— E o senhor?

— Estiveram em dúvida se escolheriam para mim o inferno dos poetas, dos romancistas, dos contistas, dos teatrólogos. Essa discussão sobre o sexo dos anjos não termina nunca. Enquanto isso, eu me divirto levando os novatos a visitar suas futuras residências, como se oferecesse a eles um sobrado em Botafogo para compra. Sempre quis ser corretor… de imóveis, não de letras! Teria sido melhor que revisor, jornalista ou escritor, não sei bem… Veja! Logo ali está o caminho que leva às nove entradas dos nove círculos infernais dos poetas! Não deixa de ser muito poético!

— Mas por que Deus teria colocado os poetas no inferno? Me parece contraditório…

— Espere! Espere um momento antes de continuarmos. O senhor fala em… Deus?

— E quem mais seria? Ou outra divindade? Shiva? Ishtar? Nanã?…

— Acho que o senhor não leu António Vieira, eu presumo.

— Li, sim. Não todos os sermões, meio longos, mas li todos os…

— Não, não o Antônio Vieira! Falo do António Vieira, o …

— O padre jesuíta, quem mais?!?

— Calma… uma infelicidade o António ter o mesmo nome do Antônio… — coçou a barba rala e branca — falo do ficcionista português. Ele escreveu sobre a morte de Deus, cujo corpo foi encontrado estendido galáxias afora. Deus está morto!

— E quem então mantém esse lugar? Um inferno, que tem acesso por uma escada, passando por uma loja de armarinhos?!?

— Ué! Os próprios homens e sua imaginação voluntariosa e nem sempre justa. Dê-me sua mão. Você vai entender melhor as coisas talvez já na primeira sala…

Sua mão era pequena, de pele de pergaminho. Parecia que tomava em minhas mãos um micro embornal de juta ou um bouquet garni enfiado num saquinho de algodão.

— Quando o senhor tem uma boa ideia, levanta as pestanas. É engraçado. Já tinham dito quase tudo sobre minhas mãos e minhas penas de escrever, mas nunca um bouquet garni… mas não fique envergonhado. Gosto da ideia. Afinal, o que seria a escrita sem seus temperos? Veja: essa é a primeira sala. Aqui estão os poetas românticos e os novos românticos. Sua pena é procurar ad infinitum uma palavra num dicionário que vira areia a medida que se aproximam da letra que procuram. Há divisões: há os que procuram palavras e, estando próximas de encontrá-las, as letras embaçam e se transformam numa escrita extinta. Muito se discute se os linguistas não deveriam estar aqui junto porque o trabalho deles é muito similar…

— Aquela ali não é Florbela Espanca?

— Exatamente. Ela e sua companheira de penas, Henriqueta Lisboa.

— E aqueles? Parecem Castro Alves… Azevedo…

— E Antero de Quental e Almeida Garrett, depois de uma discussão de décadas! Estão todos aqui. Se reparar bem, perceberá todos os simbolistas também. Mas não os franceses. Esses, por Deus!, estão em outro lugar. Há uma separação geográfica muito específica. Países nórdicos, por exemplo, têm tratamento especial.

— E vivem as mesmas penas? Vivem juntos?

— O senhor usa o verbo “viver” como sarcasmo?

— Longe de mim… eu quero dizer: “ficam” todos juntos?

— Ah, sim, as mesmas penas. Românticos e simbolistas, uma busca infinita. Chaves de ouro, uma rima rica sem ser verbo, uma versão de Byron aconchegada na sintaxe portuguesa… É muito triste. Tentei esses caminhos na juventude também. E o senhor teve sorte de botar fogo nos seus escritos juvenis! Isso vai pesar na sua balança, com certeza! Pesar para o bem, digo.

— Há muitos. É uma multidão! Não consigo ver o fim! O que é aquela claridade no fundo?

— Um ocaso que nunca termina. A esperança de uma madrugada primaveril. Nunca chegará.

— …

— Venha! Há muitas salas a visitar. O senhor parece consternado. No meio do caminho, há uma pedra. Podemos sentar nela e descansar até que o senhor se acostume com a luz, os gritos, a nova realidade.

Fomos descendo o caminho de terra batida e pedregulhos. De fato, a penumbra era um incômodo. Via-se e não se via muita coisa. Ouviam-se gritos. Ora vinha das partes mais baixas um bafo extremamente quente, ora um vento gelado, de provocar agulhadas na pele. Encontramos a pedra do meio do caminho e nela sentamos.

— E viverei aqui? Quero dizer, estarei aqui para a eternidade?

— Muito provavelmente, em sendo poeta… Mas ignoro em qual sala. Os poetas do seu tempo variam bastante de salas e de penas. Afinal, romperam com tudo e não romperam com nada, verdade seja dita. Até que seu julgamento ocorra, vai perambular por aí, sem ninguém ouvi-lo ou senti-lo, como eu. Volta e meia encontra um como nós, solitário, sentado à sarjeta, num banco de igreja ou numa casa de jogos clandestina. Dia desses encontrei Pessoa, que perambulava com Augusto dos Anjos. Pessoa já esteve em várias salas, mas alguém o arranca de lá e o leva para outra ou ainda para a luz do dia. Fica nesse vai e vem…

— Mas quem decide isso? Se Deus morreu…

— As consciências humanas, mas temo que os críticos tenham papel importante nesse vai e vem do Pessoa. Obra lida aqui, obra lida acolá, uma leitura estruturalista aqui, uma leitura bakhtiniana acolá, lá vai o Pessoa trocar de sala. E ainda há a questão dos nomes todos que ele escolheu… e aquele poema em inglês para Antínoo. Aquilo causou certo furor.

— Será que isso ocorrerá comigo?

— Não lembro de um poema seu sobre Antínoo.

— Não! Digo: será que ficarei perambulando como Pessoa?

— O senhor está se comparando a Pessoa?

— Não, mil perdões! Jamais diria algo assim!

— Posso ser franco?

— Deve, como sempre é, mesmo com fábulas e indiretas!

— Sua obra é uma mesmice. Quero dizer… assim as pessoas sempre o viram. Seu editor, quero dizer, o preparador de seus textos, considerava o senhor um idiota, mas o dono da editora não… E por isso seus livros foram publicados de dois em dois anos.

— Queiroz… sempre achei que era irônico comigo…

— E seus leitores andavam reclamando das repetições de temas e imagens… e já fazia um tempo que o senhor não ganhava um grande prêmio…

— Um grande prêmio…

— E, convenhamos, a pandemia não lhe ensinou nada, assim como as demais pandemias os outros homens!

— Como assim?

— O senhor há de concordar comigo que não é a primeira pandemia…

— Acho que foi a minha “primeira” pandemia…

— Mas o senhor estudou. É um homem estudado. Sabe o quanto foi dolorosa a Peste Negra, a pandemia de gripe espanhola…

— Ah, o senhor acompanhou essa pandemia…

— Daqui acompanhamos tanta coisa… mas voltando a falar do senhor, a pandemia poderia ter lhe alertado sobre tanta coisa…

— Ter mais cuidado na rua?

— O senhor acha que morreu porque foi escolher peras no supermercado, certo? Mas já lhe disse sobre as sardinhas! O problema não era comer sardinhas com mulheres da vida, conversar com travestis ou jogar cartas com mishês enquanto tomava cerveja. Não. O contágio poderia ter ocorrido em qualquer lugar, em verdade. O problema foi ser negligente consigo e com todo mundo.

— E como sabe isso?

— Com o tempo, se ficar aqui perambulando, saberá também de muitas coisas… e tenho meus informantes. Eu falo da pandemia como uma metáfora.

— Metáfora do quê?

— Acho que o senhor pulou as páginas de Susan Sontag…

— Na verdade, só disse que li e não li…

— Eu sei. Muito típico. Minhas obras eram tal e qual: muitos leitores e amantes mas poucos olhos cuidadosos. Uma pandemia é mais que um aviso de Deus, da natureza, do acaso, da invasão numa floresta de dois milhões de anos. Ela é o aviso de que tudo que foi criado pode acabar!

— Mas se tudo acabasse… o que aconteceria?

— Há um mito, obviamente não constatado, a-i-n-d-a, de que se todos morrerem as consciências desaparecerão também. Aí seria o grande vazio. Nem Deus, nem homens. Plaquinhas sumérias dizem isso, mas os guardiães das religiões não permitem que isso venha à tona.

— E por quê?

— Como manteriam seu negócio? Nem o diabo quer saber mais deles. Nem se fundassem uma igreja do diabo! Depois da morte de Deus, o diabo se aposentou. Nem vive mais aqui. Só deixou algumas ideias, reelaboradas pelos mortais.

— O senhor falava da pandemia…

— O senhor poderia ter aprendido com a metáfora e o senhor, por si mesmo, poderia ser uma metáfora, a de todos os homens. Uma pandemia é um alerta para cada homem, que representa todos os homens. O senhor foi indecente na pandemia!

— Como assim, indecente? Em que sentido?

— Veja: não vou narrar sua vida porque sua vida o senhor sabe narrar melhor do que eu. Mas dar-lhe-ei, ao senhor, um exemplo, digamos, prático.

— Sou todos ouvidos.

— Veja! Muitas vezes na vida entender o sentido de uma tampinha de garrafa é bem mais proveitoso que entender toda a cerveja que o senhor tomou na vida. E foi muita cerveja! Mas não quero falar de cerveja e sim da Dona Judite.

— Dona Judite! A faxineira? Que tem Dona Judite a ver comigo, a cerveja, a tampinha? Não estou entendendo nada!

— Acompanhe-me: o senhor dispensou Dona Judite, certo, dos trabalhos quinzenais…

— Sim, ela corria risco de contaminação!

— Mas o senhor não poupou esforços para alardear sua bondade…

— …

— …e mesmo dizendo que pagaria o salário dela durante a pandemia, o senhor “esqueceu” de fazê-lo.

— Certo, digamos que isso foi um erro… um esquecimento de fato, um lapso, um pecado, um deslize, um pequeno ato ilícito, um… um…

— Pelo visto há uma sorte grande de palavras para definir seu ato, não? A grande questão não é o ato isolado e sim todos os atos, com uma grande corrente que segura um navio imenso. Navios são estranhos! Não afundam não importa o peso, certo? São fortes, muito embora um iceberg possa afundar um navio “que nem Deus afundaria”, mas uma corrente o mantém ao porto. Os atos são assim. Cada elo da corrente sozinha jamais manteria o navio preso, mas todas juntas têm uma força fenomenal. O senhor fez isso a vida toda, e seu problema maior não foi a Dona Judite. Ela, inclusive, tem o senhor em muita conta. Não veio hoje porque, bem, ela nem soube de sua morte, afinal, o senhor sumiu!

— …

— As pandemias podiam ser um espelho muito eficaz, para o qual o senhor preferiu não olhar.

— …

— Mas continuemos a caminhada. Vamos à segunda sala.

— Quem está lá?

— Assim que chegarmos, o senhor verá.

Descemos o caminho espiralado até chegarmos à segunda das entradas do inferno. O chão começou a ficar úmido e senti meus pés como que mergulharem num barro pegajoso.

— O que é isso?

— Talvez sangue de porco. Ou tinta de mimeógrafo. Não sei. Ele ferve. Não o toque, por ora. Espero ardentemente que o senhor não habite nunca essa sala… Bem; sempre que uso “nunca”, eu me vejo num daqueles sonhos tantálicos em que não consigo finalizar um conto… Mas enfim. Cá estamos. Eis que temos logo na entrada um conterrâneo seu, Leminski. Portugal não teve muitos poetas dessa estirpe, mas os poetas de Cabo Verde, Moçambique… e até de Macau e Timor estão aqui!

— Não entendo! Qual a razão disso?

— O espírito das coisas. Por um efeito fenomenológico qualquer do espírito, as mentes entendem “marginal” como uma coisa só. Todos que são das “margens” estão aqui, fervendo no álcool e sendo amassado em máquinas de impressão escolar. Um pesadelo comum é a tortura de não se encontrar em máquinas de escrever as teclas certas para as palavras. Apavorante! Portugal tem muita culpa nisso… mas os brasileiros creem piamente na importância da “metrópole”…

— Os concretos estão aqui?

— Não, não. Os concretos estão na sala próxima, a do silêncio absoluto.

— E por que razão?

— Porque quase a maioria das pessoas nunca entendeu esse tipo de criação artística. E numa leitura equivocada da época deles e da palavra… bem, eles são condenados a carregar pesados blocos de… concreto… para construir uma catedral que jamais será finalizada. Ao colocarem a última peça, a construção desaba sobre todos e precisam começar do zero.

— E onde está Camões? Onde está Drummond? Onde está Herberto Hélder? João Cabral…

— Muito fatalmente em salas distintas. Homero, Virgílio, Tasso, Ariosto, Milton, Camões, estão em salas distintas, assim como Pound, mas em salas similares, separadas por idiomas. Essas obras gigantescas produziram uma tal ira na maioria dos leitores, que eles não perdoaram esses homens. Receio, inclusive, que, caso Gonçalo Tavares venha para cá, quando vier, ficará junto com Camões por conta daquele livro sobre a Índia… E, no caso de Camões, há quem nunca o tenha perdoado pela obrigação de dar nomes sintáticos às estruturas de “Os Lusíadas”. Isso marcou muito as pessoas: “encontre o sujeito da oração: ‘As armas e os varões assinalados…’”. Isso chocou muita gente. Mais difícil que o atual hino brasileiro… O hino português tem um sujeito mais fácil, após os vocativos…

— Mas isso é tão injusto! Todos os gênios estão no inferno! Os compositores também? Cartola está no inferno?

— Isso depende bastante. Não quero chateá-lo mais com isso… do que já está.

— Minha chateação de nada mudará meu destino…

— Questão de tempo, mesmo.

— Tempo, destino, vida, eternidade…

— Mas ainda não será a eternidade. Algo permaneceu: o final dos tempos e o julgamento final!

— E quando será isso se Deus morreu?

— Os homens não durarão muito, se continuarem assim.

— Continuo sem entender a razão de os maiores gênios literários estarem no inferno. Imagino quem esteja no Céu…

— O senhor encontrará mais dia menos dia um dos anjos que cuida dessa… dessa parte. Eu não posso entrar lá. Mas se quiser, o Purgatório tem entrada franca… pelo menos até certo ponto, lá pelo sexto círculo escada acima, onde ficam os economistas.

— Prefiro entender antes o que se passa por aqui.

— Deseja conhecer a sala dos surrealistas, dadás e dos artistas plásticos que ganham prêmios literários? Lá eles são condenados a cortar palavras de livros de páginas de gelo, que queimam as suas mãos. A tesoura pesa como um touro de mil arrobas e a cada palavra uma oração com sujeito, verbo e predicado se forma. É assustador para eles. Os artistas poetas montam instalações infinitas, num museu que é um labirinto escuro, com corações de Viana e Cristos Redentores feitos de espinhos envenenados…

— Prefiro não ver isso!

— E a sala dos tradutores? Eles também estão aqui. Houve uma discussão se ficariam com os linguistas…

— Não, não!

— Venha, saiamos daqui. Há um mar de sal pelo que podemos navegar, cruzando-o, até chegar à próxima sala. É um mar feito de lágrimas. No ancoradouro, há um banco. Sentemo-nos lá, esperando o barqueiro. Será bom ver Saramago novamente.

— Mas Saramago foi poeta?

— Meu filho, a lógica humana é feita de caquinhos quebrados pelo martelo de Thor!

Descemos mais umas espirais até chegar ao banco, frente ao mar escuro, sem enxergar a outra margem.

— Trouxe alguma moeda consigo?

— Acho que colocar moedas nos olhos dos mortos saiu de moda…

— Não importa! Saramago está cego. Dar-lhe-emos uma pedrinha. Embora sua jangada esteja tão pesada que afundará com o peso de uma moeda, tantos são os poetas que têm atravessado esse mar.

— Queria um cigarro…

— Conhece a história de Li Tian?

— O cientista chinês especialista em foguetes, um dos responsáveis pela corrida espacial chinesa?

— Não, não. Apenas uma coincidência de nomes e interesses.

— Poeta?

Ele riu — Não, ou melhor, mais ou menos um poeta. Digamos que um poeta das coisas iluminadas.

— E que tem esse Li Tian?

— Vou lhe contar a história de Li Tian. Espero que assim o senhor entenda a razão de estar aqui.

E passou a narrar a história do monge da dinastia Tang, que viveu na província de Hunan.

Desde menino, Li Tian olhava para o céu e imaginava voar como as cegonhas. Ou ir até lá para descobrir de onde vinha a neve, a chuva ou o granizo. Mas como faria isso se os deuses não deram aos homens asas, tampouco as pernas dos grilos e das pulgas ou ainda a leveza das sementes voadoras que atravessam desertos? Li Tian pesquisou a vida toda saídas para seu sonho. Já na velhice, admirando um jardim de pedras, pontes e riachos, percebeu que uma das substâncias trazidas das montanhas em tom amarelo para embelezar margens de ilhotas de flores, brilhava ao sol. Se a substância brilhava ao sol e ainda naquele tom de amarelo, talvez carregasse do sol para a terra suas habilidades. Pesquisa vai, pesquisa vem, o material, enxofre, era conhecido desde a dinastia Han, descobriu Li Tian. Ele teve alguma dificuldade para ler manuscritos em chinês arcaico, mas era algo por ali mesmo. De fato, o enxofre, tinha algo do sol, mas faltava alguma coisa. Ele estava bem perto de descobrir a pólvora porque, afinal de contas, umas das substâncias mais comuns na natureza, o carbono, era justamente do que precisava. As primeiras experiências não deram certo! Os livros resumem muito essas histórias de busca e descobertas, como se os homens pulassem amarelinha quando buscam algo! Li Tian testou inúmeras substâncias. Alguma seria a medida certa, a pitada certa, o ingrediente que faltava para uma… explosão! Uma pitada de coisa aqui, uma pitada de coisa ali, que os europeus chamariam posteriormente “nitrato-de-uma-coisa-qualquer”… Eureka! Ou 尤里卡!A pólvora! Li Tin percebeu que o fogo provocado pela pólvora poderia mover um objeto no sentido contrário! Ele percebeu isso porque encheu de pólvora um bambu, colocou fogo ali e o bambu voou no sentido horizontal. Se ele então colocasse bambu no sentido vertical, quem sabe o bambu voaria até o céu. E foi o que fez. O bambu voou até onde a vista já meio cansada de Li Tian alcançava. Então, teve a ideia de fazer algo que pudesse levá-lo ao céu! Imaginou que se prendesse seu corpo num feixe imenso de bambus, amarrados, ele chegaria ao céu. Mas havia alguns poréns. Como ele voltaria? Haveria tempo de investigar as nuvens? E se o feixe todo não levantasse voo e sim explodisse? Com certa tristeza, Li Tian percebeu que sua viagem celeste ficaria para as futuras gerações. No entanto, sua descoberta de pólvora mais bambu e voos até onde a vista alcançava deveria ter uma função. Inventou, então, os fogos de artifício. Misturou cores à pólvora e aos bambus. Com alguns truques bem elaborados, chegou ao requinte de fazer surgirem no céu flores imensas, coloridas, brilhantes. Bem; isso foi a alegria do imperador. Não era exatamente a alegria de Li Tian, que queria ir ao céu, mas ao menos podia clarear as noites de festa imperiais com explosões coloridas no céu! As gerações futuras conseguiriam, além das flores, fazer surgirem dragões, tigres, galos…

— Não entendi.

— Os fogos são como a poesia. Eles têm uma beleza efêmera. Explodem, acabam, e depois volta a escuridão. Se o senhor não aprendeu com seus próprios versos, jamais aprenderia com uma pandemia…

— Mas ainda não entendo por que razão estou aqui e os poetas todos estão aqui!

— Meu adorável jovem! As consciências desejam fogos eternos! Belezas eternas. Elas odeiam o efêmero porque se acostumaram a crer na fantasia da eternidade.

— …

— E por que me contou justamente a história de Li Tian?

— Ah, o óbvio. Subestimei o senhor. A pólvora criada por Li Tian para chegar ao céu, com beleza, foi usada para a guerra e matou milhões de seres posteriormente, contrabandeada para o Ocidente… Só piorou. Digamos que a poesia é uma pólvora. Melhor enviar os poetas para o inferno. Ninguém, afinal, gosta que seja lá quem for aponte para sua testa e diga: “essa pessoa é estúpida” ou “essa pessoa é uma assassina” ou ainda “essa pessoa não enxerga um palmo diante do nariz”!

— Minha poesia fez isso?

— … agora é minha vez de ficar em silêncio.

— Creio que nem precisamos atravessar o mar. Deixemos Saramago e sua jangada.

— Voltemos à luz do dia, então. Passando a loja de armarinhos, há um bar.

— Mas nem podemos beber!

— Há poetas lá… e muitos guardanapos à espera de versos.

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