Cristovão Tezza escreve sobre uma “fratura amorosa devastadora” em novo livro | Jornal Plural
14 jul 2020 - 17h00

Cristovão Tezza escreve sobre uma “fratura amorosa devastadora” em novo livro

Cândido, o protagonista de “A tensão superficial do tempo”, é um desiludido no amor cuja cabeça “funciona como uma caixa de ressonância do inferno das notícias”

Pouca gente sabe, mas Cristovão Tezza manja muito de cinema e de séries. Ele antecipou a modinha de produções escandinavas em pelo menos cinco anos – muito antes de ficarem badaladas. Ele vê os lançamentos da temporada tão logo tem acesso a eles. E se diverte com filmes bizarros do Leste Europeu.

Tezza consome streaming em alta definição e sua televisão “ainda” é uma 4K. “Mas é OLED – o que faz diferença pelo tom de preto”, diz. Ele deve sonhar com uma QLED 8K (é só um palpite, ele não me disse isso) e sempre se diverte uma barbaridade conversando sobre esses assuntos.

Agora, seu interesse por cinema rendeu um personagem de livro: Cândido, o protagonista de “A tensão superficial do tempo”, romance que acaba de lançar pela editora Todavia. Na história, o professor de química Cândido é um pirata da internet. Ele baixa filmes para sustentar o passatempo da mãe, uma senhora que amava fitas de VHS e nunca se adaptou aos DVDs.

O livro é uma história de amor. Ou a história de um rompimento amoroso. E o cenário é o Brasil de 2019. O lançamento da obra acontece nesta terça-feira (14), às 18h30, no canal da editora Todavia, no YouTube.

Na entrevista a seguir, o escritor curitibano (sim, ele nasceu em Lages, Santa Catarina, mas mora aqui há 500 anos) fala sobre cinema, literatura, Bolsonaro e Curitiba.

“O fenômeno bolsonarista tem sido devastador em todos os sentidos, inclusive o emocional. Eu não diria que o centro da questão esteja na nitidez entre esquerda e direita (…), mas no império cotidiano da estupidez que o governo representa, uma estupidez que vai da absoluta grosseria pessoal, ofensiva em cada gesto, à reiterada histeria anti-intelectual, o horror sistemático à inteligência, o orgulho da burrice, o estímulo à violência.”

Cristovão Tezza, escritor.

Qual foi o estalo que deu início à “Tensão superficial do tempo”?

O livro começou com o desejo de escrever sobre uma fratura amorosa devastadora, e daí a ideia avançou à imagem simples e comum de um homem sentado num banco de praça pensando sobre o que aconteceu. Ao mesmo tempo, já há alguns anos eu sonhava escrever um romance sobre um pirata caseiro de internet, uma história em torno da paixão por filmes — seria quase que uma brincadeira, um livro de humor. De repente, as duas ideias se juntaram e comecei o romance. Bastou escrever a primeira frase e surgiu Líria, e o livro foi se desenrolando por instinto, criando situações, novos personagens, cenas completas que vinham à cabeça de um dia para o outro, de um modo que nem remotamente eu sonhava antes de escrever. A história foi me levando adiante, e acho que a linguagem deste romance reflete muito esse processo. Claro que se trata de um “acaso” relativo — toda a escrita foi mediada e controlada pelos meus, digamos, cinquenta anos de literatura.

Quando começou a escrever “A tensão superficial…”, você já sabia como o livro iria terminar? (Nesse aspecto, ele foi diferente de livros anteriores?)

Quando comecei, eu tinha nítida a imagem da última cena, que de fato se manteve no livro. Mas na minha cabeça era uma pura forma narrativa sem conteúdo, um fotograma de filme. Entre um momento e outro, foi uma viagem quase que completamente desconhecida, que avançava dia a dia criando novas referências. Em vários momentos eu me sentia alguém na esquina lidando com cinco malabares narrativos ao mesmo tempo e tentando não deixá-los cair.

Um escritor americano (acho que foi o Jonathan Lethem) disse que se sentia incapaz de escrever uma história que se passasse nos dias atuais. Disse, inclusive, que não conseguia imaginar qualquer coisa que envolvesse o uso de um celular. Lembrei disso quando vi o personagem de “Tensão superficial…” consultando a bateria do celular, que vai chegando ao fim como parece que a vida dele também está chegando ao fim. Você chegou a cogitar os riscos (se é que há algum) de narrar uma ficção ambientada em 2019? A pergunta vale para traquitanas tecnológicas, mas também para o contexto político, que aparece na história.

Praticamente toda a minha literatura se fez sobre o tempo presente, o universo contemporâneo (acho que a única exceção é “Juliano Pavollini”, escrito em 1984, que se passa historicamente em torno de 1960, de qualquer maneira um tempo próximo). Este império do presente é um dos traços que definem (mas não exclusivo, é claro) o romance como gênero moderno, desde “Satyricon”. Ao contrário da epopeia, o romance é uma linguagem que nasceu para falar do presente imediato. Eu acho engraçada a presença do telefone na literatura — hoje ele cumpre o papel que, em outras eras, era o das cartas, o poderosíssimo meio de comunicação que, talvez não seja exagero dizer, levado por mensageiros, criou o globalismo moderno. Na literatura, o gênero epistolar é fundamental para entender a história da ficção.

Mas, ao contrário das cartas, que costumavam ser centradas e bem pensadas, além de eternas, o telefone e todos os seus derivados são meios de comunicação fragmentários, emocionais, instantâneos, voláteis. Isso tem consequências enormes na vida e na representação da realidade. Como a minha literatura sempre se estruturou numa vertente, digamos, realista, um objeto como um celular não pode ficar de fora. No livro, o fato de Antônia não usar celular (supostamente por medo de grampo) tem consequências importantes, assim como o celular na mão de Cândido ao longo do romance é um elemento concreto de coesão narrativa. De tempos em tempos, a presença do celular relembra o leitor de onde Cândido fisicamente está, funcionando como um pequeno GPS do enredo.

Sobre o pano de fundo político, ele aparece no livro exatamente assim, como um pano de fundo; não era meu projeto escrever um romance sobre política, mas, pela amarração dos detalhes realistas, Cândido acaba sendo arrastado nesta direção, assim como o leitor e o Brasil inteiro. Por exemplo: o fato de o pai de Líria ser um procurador da República surgiu no livro ao acaso, como um gancho para discutir a eventual legalidade ou ilegalidade da pirataria caseira de filmes. Foi um detalhe que me surgiu de repente, pela voz da Líria, no processo natural de dar consistência biográfica à personagem: “meu pai é procurador”. O que seria apenas uma sacada breve de humor acabou trazendo de cambulhada a política nacional para o livro.

O risco de escrever tendo como cenário um tempo tão imediato é você produzir um panfleto que se esgote no próprio momento. Isso nunca me preocupou, porque o objeto de tudo que eu escrevo são as pessoas e sua vida emocional — o resto é pano de fundo. Não tenho muitas verdades a dizer sobre nada; escrever para mim é um processo de investigação existencial.

“Mas, ao contrário das cartas, que costumavam ser centradas e bem pensadas, além de eternas, o telefone e todos os seus derivados são meios de comunicação fragmentários, emocionais, instantâneos, voláteis. Isso tem consequências enormes na vida e na representação da realidade.”

Nos últimos quatro livros que escreveu, você usa uma forma de escrever que mistura narração, falas, tempos, pensamentos, tudo em sucessão e às vezes se alternando dentro de uma mesma frase. Como você descobriu essa forma?

Escritores mentem muito quando falam de si mesmos como artistas, não porque tenham uma falha de caráter, mas porque simplesmente não sabem (e desconfio de que ninguém sabe) como funciona de fato o processo criativo da escrita. E nesse vazio, talvez por timidez ou vergonha de confessar ignorância, acabamos por inventar teorias que deem conta do nosso trabalho, teorias para uso próprio. No meu caso, eu sinto que desenvolvi nos últimos livros — talvez desde “Breve Espaço”, que é de 1998 — uma voz literária própria bastante forte que foi assumindo uma direção autônoma e sobre a qual eu tenho pouco controle. Claro que não veio do nada; como eu disse, são 50 anos de prática literária cotidiana. Além disso, envelhecemos; o autor que publicou “Trapo”trinta anos atrás já é outra pessoa; o entorno existencial, político, social, nunca é o mesmo de um ano para outro. Tudo muda o tempo todo.

Acho que um dos aspectos da linguagem deste romance é a expressão da algaravia contemporânea, o caos fragmentário da informação e da memória, a apreensão instantânea de imagens e palavras e sons desencontrados ao mesmo tempo, um processo que a onipresença da internet potencializa ao limite. Bem, é verdade que a nossa cabeça parece funcionar assim o tempo todo, mas a gente se esforça para “retificar” o caos a todo instante. A literatura, de algum modo, tenta simular esse processo, mas de modo a manter um eixo de referência. A literatura, assim, é um modo oblíquo de tornar legível o ilegível. Tentando ser objetivo, eu diria que “A tensão superficial do tempo” radicaliza alguns aspectos de linguagem que já estavam presentes, bastante nítidos, em livros como “Um erro emocional” e “O professor”, por exemplo. É simplesmente o meu jeito. Você consegue escapar de quase tudo na vida, exceto da própria linguagem.

O livro cita o nome de Trump nove vezes, e o de Bolsonaro apenas uma vez (emendado com o epíteto: “um capitãozinho de merda”, na fala de um personagem). Mas isso não impede que referências ao presidente brasileiro sejam percebidas em vários outros momento do livro. Foi preciso fígado para esbarrar na política nacional e internacional ao longo da história ou foi catártico de alguma forma?

É praticamente impossível você escrever sobre o pano de fundo contemporâneo sem enfrentar de algum modo a realidade política; estamos imersos, na verdade afogados nela. O narrador do livro segue colado na cabeça de Cândido, e não diz nada que ele não diria, ou de que ele não se lembrasse. Cândido não está preocupado com política; está preocupado com a mãe, com Antônia, afundado até o pescoço na crise de sua vida emocional. Mas da manhã à noite convive com pessoas que só falam em política, porque 2019 foi um ano em que ela se tornou inescapável. A cabeça dele funciona como uma caixa de ressonância do inferno das notícias. Obviamente, o fenômeno bolsonarista tem sido devastador em todos os sentidos, inclusive o emocional. Eu não diria que o centro da questão esteja na nitidez entre esquerda e direita (que vem sendo uma fronteira bastante borrada na história brasileira recente, a ponto de uma expressão como “chavismo bolsonarista” fazer pleno sentido), mas no império cotidiano da estupidez que o governo representa, uma estupidez que vai da absoluta grosseria pessoal, ofensiva em cada gesto, à reiterada histeria anti-intelectual, o horror sistemático à inteligência, o orgulho da burrice, o estímulo à violência. No plano político, pelo esforço diário de solapar institucionalmente o país e sua memória, que entretanto resiste; e, como se não bastasse, cresce a sombra cada vez mais assustadora das ligações da presidência da República com o Estado paralelo das milícias e suas ramificações em toda parte, sombra que está no DNA do histórico bolsonarista. Coloque-se neste caldeirão destrutivo a pandemia do coronavírus (que, felizmente para meu personagem Cândido, não havia ainda começado — o romance se passa em setembro de 2019), tratada, pela negação cretina, com uma inacreditável inépcia federal (para ser generoso), e temos a tempestade perfeita.

Mas respondendo à sua pergunta: é difícil fazer boa ficção com o fígado ou com espírito de catarse. Sempre brinco dizendo que a literatura é como a vingança: deve ser produzida a frio, mesmo no calor da hora. O cidadão pode ser estopim curto, pode ser um sujeito esquentado, dado a explosões emocionais, como eu mesmo às vezes me vejo; mas um narrador, nunca, mesmo quando representa cenas explosivas, violentas ou catárticas. Ele tem de manter distância para não perder o foco.

“É praticamente impossível você escrever sobre o pano de fundo contemporâneo sem enfrentar de algum modo a realidade política; estamos imersos, na verdade afogados nela.”

Fiquei com a impressão de que “A tensão superficial do tempo” é o livro em que Curitiba mais aparece como cenário. Faz sentido? (Ou será que “O fotógrafo” ainda ganha?)

Como eu já escrevi num poema, “Curitiba é minha pele”. É como se eu pensasse e olhasse o mundo com a alma da cidade. Até a frieza que às vezes me escapa tem a ver com Curitiba. Estritamente como cenário, gosto muito da Curitiba de “Juliano Pavollini”, a dos anos 60, da minha infância. Em “O fotógrafo” a cartografia é mais minuciosa, por assim dizer. No “A tensão superficial do tempo”, o grande espaço que controla o livro é, na verdade, o Passeio Público. É engraçado: para imaginar alguém dizendo alguma coisa, tenho de “ver” o lugar onde a pessoa está, sentir a geografia. Lembro que, quando pensei escrever “A tirania do amor”, já na primeira cena via o personagem em Curitiba, próximo do Correio Velho, atravessando a rua com o sinal verde — mas quando de fato o livro começou a ser escrito, a cena se “transplantou” já na primeira frase para a Avenida Paulista de São Paulo, onde ficou e tomou corpo. Pelo tema do romance, o personagem teria de ser habitante do maior centro financeiro do país, São Paulo, e por tabela isso foi mudando o espírito do livro inteiro.

Para terminar: você está lendo ou vendo alguma coisa que valha a pena comentar?

Quando começou a quarentena, lá se vão mais de cem dias, imaginei, otimista, que iria botar todas as leituras em dia, ver todos os filmes que ainda não vi — não pensei em escrita porque tinha acabado de terminar “A tensão superficial do tempo” e, como sempre acontece comigo, preciso de um ano de descanso para começar outro. Mas é incrível como a quarentena me deixou dispersivo. É difícil me concentrar, ainda mais sob a angústia política do país. Estou lendo um pouco de tudo, e tudo pela metade. Numa sequência de “uma coisa puxa a outra”, li um livro ótimo sobre o romance como gênero, de Franco Moretti (“O romance de formação”), que me levou a “Eugênio Onêguin”, o romance em versos de Pushkin, o que me levou a comprar por impulso (e não me arrependi!) uma excelente biografia do poeta russo (“Pushkin – a biography”, de T. J. Binyon), o que, por sua vez, me levou a mergulhar em Catarina, a grande & Potenkin, de Simon Montefiore, que conta a inacreditável história de amor da era Románov que praticamente criou a Rússia moderna. À noite, vejo filmes e séries para esvaziar um pouco a cabeça. E estou aprendendo a fazer pão, o que é muito legal.

Livro

“A tensão superficial do tempo”, de Cristovão Tezza. Todavia, 272 páginas, R$ 64,90.

O lançamento do livro acontece nesta terça-feira (14), às 18h30, no canal da Todavia, no YouTube (confira abaixo). No evento, Cristovão Tezza conversa com a escritora e crítica literária Noemi Jaffe.

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