“Coringa” inspira compaixão, e depois medo | Plural
Fide 2019
1 out 2019 - 17h05

“Coringa” inspira compaixão, e depois medo

Filme tem pouco a ver com super-heróis e mostra uma violência menos estilizada, mais desagradável de ver

“Quando você cruza uma pessoa com distúrbios mentais e uma sociedade que não dá a mínima, você tem o quê?”, pergunta o Coringa.

Silêncio.

“Você tem o que merece!”

A “piada” não é para ser engraçada. Ela é o ponto de virada na ação de um filme curiosamente lento e sombrio. “Coringa”, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (3), de certa forma, é um filme de super-herói, embora não apareça nenhum fortão usando capa e máscara querendo parecer um morcego.

O universo é o dos quadrinhos – a ação se passa em Gotham City e há um político de nome Thomas Wayne que concorre à prefeitura da cidade (ele tem um filho, pequeno ainda, chamado Bruce) –, mas esse filme é diferente. Não há nenhuma explosão, nave, luta, ou efeitos especiais mirabolantes. Arrisco dizer que não existem mocinhos nem bandidos.

Esse filme é sobre Arthur Fleck, um homem adulto que ainda mora com a mãe, faz bicos como palhaço e sonha em ser um comediante, apesar de não ter graça nenhuma. Ele leva uma vida difícil e tem alguns problemas. O maior deles é mental. Sem nenhum motivo, Arthur às vezes ri insanamente, até as lágrimas, e as gargalhadas quase o matam sufocado. A doença tem nome: labilidade emocional ou transtorno da expressão emocional involuntária (incapacidade de controlar o riso e o choro). Existem vídeos no YouTube com esse tema e eles são difíceis de ver porque a pessoa ri, gargalha, engasga, tosse, tem ânsia, para, respira e começa tudo de novo. É perturbador.

Joaquin Phoenix disse que viu vídeos assim enquanto pesquisava para o papel de Arthur Fleck. No filme, o resultado também perturba. Até encontrar uma gargalhada para o Coringa, ele não sabia se seria capaz de interpretar o papel. Sem falar que emagreceu muito (23 quilos, de acordo com o New York Times) e sua magreza é desconcertante. Os ossos ficaram protuberantes e a escápula esquerda, que não parece normal, mira para fora das costas e não para a coluna. Esse detalhe estranho do corpo do ator já tinha aparecido no filme “Você nunca esteve realmente aqui” (2017). Porém, no “Coringa”, a escápula é sozinha um efeito especial.

No “Batman” de 1989, Jack Nicholson fez um Coringa brincalhão, como se estivesse de farra, fazendo uma piada. Heath Ledger levou a tarefa mais a sério em “Batman: o Cavaleiro das Trevas” (2008) e seu Coringa é nervoso e dramático. Joaquin Phoenix, com um papel de protagonista à sua disposição (o que lhe dá mais tempo para desenvolver o personagem), conseguiu fazer algo inesperado: ele criou um Coringa possível. Um homem concebível fora do universo dos quadrinhos. De carne e osso – mais osso que carne –, tão humano quanto eu e você.

A delicadeza com que ele faz Arthur inspira compaixão e depois medo. A loucura chega aos poucos, e depois toma conta. Há uma cena, talvez a que melhor resume o colapso do personagem, em que dois colegas de trabalho decidem visitar Arthur em sua casa. Ele gosta de um, mas não do outro. E vai cometer um ato brutal num instante e demonstrar afeto no instante seguinte. Tudo parece plausível por causa de Phoenix.  

A história se passa no início dos anos 1980 e, assim como a Nova York que a cidade fictícia arremeda, Gotham vive um período de crise, com índices de desemprego e de criminalidade muito altos. Gotham virou um grande lixão. A desigualdade social se acentuou e a população parece a ponto de explodir. O Coringa vai servir como o estopim, tornando-se um símbolo da briga entre os que tem tudo e aqueles que vivem com pouco ou quase nada.

É, como comentei no início deste texto, um filme sombrio e lento. Do tipo que acompanha seu personagem por um périplo difícil, culminando numa violência menos estilizada e mais desagradável de ver. Se você for cinéfilo, pense menos em Christopher Nolan e mais em Cristian Mungiu (romeno) e Yorgos Lanthimos (grego). Mas não tão bom quanto eles. É muito, muito estranho pensar que o diretor e roteirista de “Coringa” é Todd Phillips, o mesmo da trilogia de comédias “Se beber, não case” (2009–2013).

Serviço

“Coringa” estreia nos cinemas nesta quinta-feira (3). Classificação indicativa: 16 anos.

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