Restaurantes resistem aos apps de comida e apostam em delivery próprio
11 jun 2021 - 8h37

Hamburgueria sai do app de delivery e reduz preços em até 29%

Ramburgui é um dos restaurantes que se decepcionou com as plataformas e agora tem entrega própria

Diz o ditado que enquanto alguns choram, outros vendem lenços. A pandemia, que varreu 300 mil empreendimentos gastronômicos, segundo a Associação de Bares e Restaurantes (Abrasel), fez todo mundo, ou quase, migrar para o setor do delivery.

As plataformas de entrega, que já vinham numa rápida crescente há alguns anos, foram as mais beneficiadas. Em dezembro do ano passado, o iFood, que controla a maior fatia desse mercado, registrou 48 milhões de pedidos, ou, 1,6 milhão de entregas por dia, segundo dados da própria empresa. A isso devem ser somados os milhões de pedidos dos aplicativos concorrentes.

Donos de bares e restaurantes vivem uma relação de amor e ódio com as plataformas. Ao mesmo tempo que representam uma oportunidade para os negócios, as regras do jogo impostas não são bem-vistas. Os pontos mais críticos são as comissões que podem chegar a 30% do valor do pedido e a pressão velada para propor descontos e promoções com o objetivo de se destacar da massa.

Atualmente, muitos restaurantes estão nos aplicativos não porque gostam, mas pela falta de alternativas. Alguns empresários, porém, se recusam a fazer parte desse modelo de negócio que consideram “exploratório” e, após algumas tentativas frustradas, hoje se dedicam ao serviço de entrega próprio.

É o caso da Ramburgui, hamburgueria no Água Verde, em Curitiba, especializada em sanduíches veganos. Desde que abandonou os aplicativos de delivery, o restaurante conseguiu reduzir significativamente o preço dos hambúrgueres. A entrega é feita pessoalmente pela proprietária Raísa Beffa Bittencourt ou pelo marido, João.

O carro-chefe da casa, o Fakezola, feito com soja pts, queijo à base de leite de soja que imita o gorgonzola e molho de goiabada, custava R$ 20 nas plataformas. No serviço próprio de entrega, o sanduíche sai agora por R$ 16,90, uma diferença de 15%. Praticamente, Raísa deixou de repassar ao consumidor parcial ou integralmente o valor cobrado pelo app.

Fakezola, do Ramburgui, é hambúrguer de soja com queijo que imita gorgonzola feito com leite de soja. Foto: Divulgação

Outro exemplo é o Salada, à base de hambúrguer de pts, tofu defumado, alface americana, tomate, cebola e muçarela, que também sai mais barato: de R$ 18 para R$ 12,90, isto é, 29% a menos. O Cheddar, com hambúrguer de pts, tofu defumado e cebola caramelizada no molho inglês, que custava R$ 18 está saindo por R$ 14,90, uma redução de 18%.

“Além da taxa de 30%, que não quero repassar para meus clientes, os entregadores são explorados como burros de carga. A meu ver é [um modelo] mais maléfico do que benéfico, é um negócio exploratório”, afirma Raísa.

Segundo a empresária, o restaurante se torna dependente dos aplicativos, é pressionado a oferecer descontos para se destacar e, pior de tudo, não fideliza os clientes. Com queda no faturamento de 50%, ela e o marido se revezam no delivery, mas, assim que houver retomada econômica, eles pretendem contratar um entregador próprio.

App de comida é shopping center virtual

O sucesso dos apps de comida se deve à praticidade do serviço, sobretudo para os consumidores. Em poucos cliques é possível pedir praticamente qualquer tipo de comida, dia e noite. Cupons de desconto podem fazer ainda com que o pedido saia de graça ou quase.

Mas a realidade vivida pelos dois elos intermediários da cadeia, restaurantes e entregadores, tem gosto amargo. No ano passado, os motoboys fizeram paralisações para reivindicar melhores condições de trabalho, como taxas mais justas por quilômetro rodado e itens de proteção na pandemia.

Para bares e restaurantes estar numa plataformas é como ter uma vitrine num shopping virtual: ao invés do aluguel, os empreendimentos gastronômicos pagam por comissões sobre as vendas e podem usar o serviço de entrega.

Mas nem todo empresário gosta de trabalhar em shopping, físico ou virtual que seja, e ter de arcar com esses custos. Por isso, existem bares e restaurantes que, por questões éticas, filosóficas ou empresariais, tentar resistir às sereias dos apps de comida, mesmo sendo um caminho difícil de trilhar e nem sempre o mais eficiente.

Empresários preferem delivery próprio

O abre e fecha decretado pelo poder público afetou gravemente as finanças do restaurante italiano, Osteria Capitolina, no Ahú. O chef e empresário Massimiliano Morabito teve que demitir cinco funcionários e fez empréstimo para honrar os compromissos com os outros quatro. Impossibilitado há quase um ano de funcionar aos domingos – dia de maior movimento – ele hoje fatura em média 20% em comparação ao pré-pandemia.

O chef italiano Massimiliano Morabito, do Osteria Capitolina, segura um pargo e uma cioba fresco. Seu restaurante serve clássicos italianos e pratos à base de peixe. Foto: Reprodução.

Para tentar conter as perdas, Morabito buscou se adaptar ao delivery, sem muito sucesso. Investiu numa máquina a vácuo e passou a fazer entregas por conta própria. Entrar na onda dos aplicativos de delivery? Nem pensar. “Não vendemos apenas comida, oferecemos um momento especial e de relaxamento com a família”, explica.

Morabito teme que, além de diminuir a qualidade da comida, as plataformas estejam abrindo um caminho sem volta. “Para competir nos apps de delivery eu precisaria reduzir os preços para tornar o prato mais atrativo e pagar 30% de comissão. No fim das contas, o que sobra para mim?”, questiona. “Além disso, se a pessoa se acostuma a comer a preços tão baixos, não vai ter volta”, pondera.

Apesar de achar “muito cara” a taxa de 26% cobrada pela plataforma, a empresária Ieda Godoy, do café e restaurante Mãe, no Centro, continua presente no iFood. Ela, porém, “liga” o aplicativo pontualmente, quando o movimento está fraco e precisa turbinar o negócio.

A maior parte do tempo, ela prefere o serviço próprio de entregas, que conta com um cardápio diferente. “No iFood vendo pratos mais viáveis com confecções mais simples. No meu delivery o cardápio é bem diversificado e muda toda semana”, explica a empresária.

Dhall, cozido indiano à base de lentilha, do restaurante Mãe. Foto: Reprodução.

Segundo Ieda, ao fazer entregas pessoalmente, o cuidado é maior. “Torna inclusive a relação com o cliente mais afetiva, a pessoa gosta de saber que eu mesmo faço as entregas. Conheço o melhor caminho para a casa do cliente, converso com o porteiro do prédio e se houver uma falha, a gente lida melhor do que um aplicativo”, garante.

Mesmo amargando queda de 80% no faturamento em comparação ao pré-pandemia, Ieda enxerga o copo meio cheio: “A população de Curitiba tem sido muito legal na pandemia. Sofremos muito com a administração pública, mas temos um apoio lindo do público curitibano”, agradece.

Mulheres propõem alternativa

Desde o ano passado, alguns empresários da gastronomia de Curitiba estão recorrendo ao delivery prestado pela Única Entregas, empresa formada só por mulheres. De carro e moto, a equipe de 30 funcionárias percorre as ruas da capital transportando uma ampla variedade produtos, entre eles os alimentícios, sobretudo de confeitaria.

“Os bolos precisam de um cuidado muito grande no manuseio e é isso que oferecemos: delicadeza e atenção”, resume a proprietária Gislaine Queiroz que, antes da pandemia, comandava uma empresa de eventos, mas teve que se reinventar.

Além dos doces, a Única Entregas transporta também pães, frutas e queijos, estes últimos da loja Bon Vivant, no Mercado Municipal. O serviço custa a partir de R$ 12 para distâncias até 5 quilômetros, depois tem um acrescimento por quilômetro rodado.

O modelo, pelo menos por enquanto, não se adapta a bares e restaurantes que trabalham com pedidos que precisam de saída imediata, mas é aplicável aos negócios que atuam com encomendas agendadas.

Serviço

Mãe. Rua Treze de Maio, 512, Centro – (41) 98705-1331. instagram.com/tudosobreomae

Osteria Capitolina. Rua Eurípedes Garcez do Nascimento, 638, Ahú – (41) 3079-8545. osteriacapitolina.com.br

Ramburgui. Rua Alferes Ângelo Sampaio, 805, Água Verde – (41) 99634-0405. instagram.com/ramburgui

Única Entregas. www.unicaentrega.com.br; [email protected]; instagram.com/unicaentrega

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