Os partidos brasileiros já receberam R$ 5,2 bilhões em dinheiro público para bancar a campanha de 2026, mas, a poucos dias do início oficial da propaganda, tinham repassado a seus candidatos apenas R$ 174 milhões — 3,4% do total. O restante, mais de R$ 5 bilhões, segue nas contas das direções partidárias, à espera de uma decisão sobre quem recebe, quanto e quando. Os números constam da prestação de contas parcial ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atualizada em 25 de agosto.
O montante reúne os dois fundos públicos que sustentam a política brasileira. O maior é o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), o chamado "fundão eleitoral", com R$ 4,94 bilhões destinados a 2026 e liberados apenas em ano de eleição. A ele soma-se a fatia do fundo partidário já aportada nas campanhas, de R$ 252 milhões. Juntos, formam o caixa que as legendas distribuem — ou não — aos candidatos.
Por enquanto, quase tudo está retido. Entre os maiores partidos, o ritmo de repasse é baixíssimo. O PL, que tem o maior bolo — R$ 885 milhões —, havia distribuído 5,6%. O PP repassou 7,5% de seus R$ 483 milhões, a maior proporção entre os grandes. Do outro lado, legendas com centenas de milhões praticamente não moveram o dinheiro: PT (R$ 616 milhões) e PSDB (R$ 148 milhões) repassaram 0,1% cada; MDB (R$ 400 milhões), 0,2%; União Brasil (R$ 539 milhões), 0,7%.
O contraste fica por conta dos partidos menores. O NOVO, com um caixa de R$ 55 milhões, já havia repassado 63% a seus candidatos — a maior fatia proporcional do país — e é o que mais espalhou o dinheiro, com 535 candidatos beneficiados. O PCdoB distribuiu 37% de seus R$ 61 milhões. São exceções num quadro em que a esmagadora maioria das legendas mantém o cofre quase intacto.
O padrão não é ilegal nem inédito: a lei permite que os partidos concentrem a decisão sobre a distribuição do fundo, e é comum que o grosso dos repasses só aconteça na reta final da campanha, quando as direções já têm um quadro mais claro de quais candidaturas são mais competitivas. Na prática, porém, isso significa que, neste momento, o poder sobre bilhões em recursos públicos está nas mãos de um pequeno grupo de dirigentes — e que a sorte financeira da maioria dos candidatos ainda depende de uma decisão que não foi tomada.
Quando o dinheiro sai, ele tende a se concentrar. Dos R$ 174 milhões já transferidos, boa parte foi para poucos nomes, quase sempre candidatos a deputado federal e figuras próximas das cúpulas partidárias. É um funil que se repete a cada eleição: os fundos públicos, criados para reduzir a dependência de doadores privados, acabam reproduzindo dentro dos partidos a mesma concentração que existe fora deles.
O dinheiro que já saiu também se distribuiu de forma desigual pelo país. Minas Gerais foi o estado cujos candidatos mais receberam repasses partidários — R$ 51,9 milhões, quase o dobro de São Paulo (R$ 23,3 milhões), que tem quatro vezes mais habitantes. O Paraná aparece na sequência entre os que mais receberam, com R$ 17,9 milhões. Quando o valor é ponderado pela população, o mapa muda: estados pequenos como Amapá e Mato Grosso do Sul lideram em reais por habitante, enquanto os mais populosos — São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará — ficam no fim da fila.
| UF | Repassado a candidatos | Por 100 mil habitantes |
|---|---|---|
| AP | R$ 3,6 mi | R$ 485.173 |
| MG | R$ 51,9 mi | R$ 252.617 |
| MS | R$ 5,5 mi | R$ 200.763 |
| AC | R$ 1,6 mi | R$ 197.419 |
| PI | R$ 5,4 mi | R$ 164.327 |
| PR | R$ 17,9 mi | R$ 156.583 |
| RS | R$ 16,7 mi | R$ 153.690 |
| DF | R$ 4,3 mi | R$ 151.892 |
| RN | R$ 3,8 mi | R$ 113.618 |
| MT | R$ 3,8 mi | R$ 103.306 |
| SC | R$ 7,0 mi | R$ 92.059 |
| MA | R$ 4,8 mi | R$ 70.102 |
| PE | R$ 6,0 mi | R$ 66.012 |
| PB | R$ 2,3 mi | R$ 57.904 |
| SP | R$ 23,3 mi | R$ 52.389 |
| BA | R$ 4,2 mi | R$ 29.981 |
| ES | R$ 0,9 mi | R$ 23.476 |
| RJ | R$ 3,3 mi | R$ 20.737 |
| CE | R$ 1,7 mi | R$ 19.346 |
| RO | R$ 0,3 mi | R$ 18.815 |
| AM | R$ 0,6 mi | R$ 14.207 |
| SE | R$ 0,3 mi | R$ 11.765 |
| GO | R$ 0,8 mi | R$ 10.848 |
| AL | R$ 0,3 mi | R$ 10.071 |
| RR | R$ 0,05 mi | R$ 7.853 |
| PA | R$ 0,6 mi | R$ 7.819 |
| TO | R$ 0,03 mi | R$ 1.985 |
Valores por estado do candidato que recebeu o repasse; não inclui os R$ 3,3 milhões destinados a candidaturas presidenciais (sem unidade estadual). População: Censo 2022 (IBGE).
O quadro ainda vai mudar. A prestação de contas segue aberta e a maior parte dos R$ 5 bilhões deve ser liberada nas próximas semanas. Mas a fotografia deste início de campanha ajuda a entender como funciona o financiamento da política no Brasil: o dinheiro é público, é muito, e quem decide seu destino são as direções dos partidos — não os eleitores, nem, por ora, a maioria dos próprios candidatos.
Veja quanto cada partido recebeu e para quem repassou nas páginas por legenda: todos os candidatos e partidos.