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Publicidade do governo do Paraná mais que dobrou e disparou às vésperas da eleição

Levantamento reconstruiu, mês a mês, os R$ 444 milhões que o Estado gastou com veiculação de propaganda desde 2023 — o gasto anual saltou 117% até 2025, o ano que antecede a disputa pelo Palácio Iguaçu

Publicidade do governo do Paraná mais que dobrou e disparou às vésperas da eleição

O Governo do Paraná mais que dobrou o gasto com publicidade no último ano. Um levantamento do Plural, que reconstruiu mês a mês os relatórios de transparência da Secretaria de Comunicação (Secom) e das estatais, mostra que o valor destinado à veiculação de propaganda institucional saltou de R$ 86,8 milhões em 2023 para R$ 188,4 milhões em 2025 — alta de 117% em dois anos. Somados 2023, 2024, 2025 e o primeiro semestre de 2026, o Estado empenhou R$ 443,8 milhões só para colocar anúncios no ar.

O salto não foi gradual: concentrou-se em 2025, o ano imediatamente anterior à eleição estadual de 2026, quando o governador tentava emplacar uma candidatura à presidência e um candidato a sucessão. Depois de crescer moderadamente de 2023 para 2024 (+24%), o gasto disparou 75% de 2024 para 2025. E, dentro de 2025, a curva sobe mês a mês até o pico de R$ 34,3 milhões em dezembro — o maior mês de toda a série.

Ano Gasto com veiculação Variação
2023 R$ 86,8 milhões
2024 R$ 107,4 milhões +24%
2025 R$ 188,4 milhões +75%
2026 (jan–jun) R$ 61,1 milhões parcial

Trata-se de publicidade institucional — campanhas de governo, serviços e estatais —, não de propaganda eleitoral, vedada por lei.

Quase R$ 444 milhões — e a maior parte foi para a TV

Todo o valor de "mídia" registrado nos relatórios corresponde ao que o Estado pagou aos veículos de comunicação para exibir seus anúncios. O total ficou em cerca de R$ 444 milhões desde 2023 (R$ 382,6 milhões apenas no triênio fechado de 2023 a 2025). A produção das campanhas, feita pelas agências, é despesa à parte.

Desse bolo, a televisão ficou com a fatia dominante: R$ 242 milhões, 58% do total detalhado. O rádio veio em seguida, com R$ 77,6 milhões (18%); os jornais, com R$ 49,4 milhões (12%); e a internet, apesar de ser hoje o principal meio de consumo de informação, ficou com apenas R$ 36,3 milhões, 9%.

Meio Valor Fatia
TV R$ 241,9 milhões 58%
Rádio R$ 77,6 milhões 18%
Jornal R$ 49,4 milhões 12%
Internet R$ 36,3 milhões 9%
Mídia exterior R$ 11,6 milhões 3%
Revista R$ 2,2 milhões 0,5%

A concentração também aparece na origem do dinheiro. Um único órgão — a Secom — respondeu por R$ 246 milhões, quase 59% de tudo. O restante saiu dos caixas de secretarias e estatais: Turismo (SETU, R$ 57,6 mi), Sanepar (R$ 38,7 mi), Detran (R$ 31,3 mi) e a Administração dos Portos (APPA, R$ 24,2 mi) lideram a lista.

Quem recebeu: uma estimativa, porque o Estado não diz

Aqui está a lacuna central de transparência. O governo publica quanto gastou, em quais meios e até quais 778 veículos exibiram seus anúncios — mas não informa quanto pagou a cada um. O dado mais básico de controle, o valor por emissora ou jornal, não está em lugar nenhum dos relatórios.

Para estimar essa distribuição, a reportagem cruzou duas informações que o próprio Estado divulga: o valor de cada mês, por órgão e por tipo de mídia, e a lista de veículos que tiveram inserções em cada uma dessas fatias. Distribuindo o valor de cada fatia entre os veículos que nela aparecem, chega-se a uma estimativa de quanto coube a cada um. São estimativas, não valores oficiais — e tendem a ser conservadoras para os grandes: como assumem custo igual por inserção, subestimam as emissoras de maior audiência, cujos espaços valem mais.

Ainda assim, o retrato é claro: o dinheiro se concentra em poucos grupos de televisão. Cruzando os CNPJs dos veículos com a base de sócios da Receita Federal, os quatro maiores grupos de TV do Estado receberam, no mínimo, R$ 139 milhões — um terço de tudo:

Grupo Estimativa (piso) Principais veículos
RPC (afiliada Globo) ≥ R$ 57 milhões Emissora Paranaense, TV Oeste, TV Cataratas, TV Imagem
Grupo Massa / Ratinho (SBT) ≥ R$ 38 milhões TV Iguaçu, TV Naipi, TV Cidade, TV Tibagi, TV FB
RIC / Petrelli (Record) ≥ R$ 33 milhões rede TV Independência, RICnotícias
Band / Saad ≥ R$ 11 milhões TV Bandeirantes do Paraná

O maior beneficiário individual estimado é a Sociedade Rádio Emissora Paranaense, a cabeça da RPC em Curitiba, com cerca de R$ 15 milhões — quase todo em TV. Os totais dos grupos são um piso: dezenas de emissoras do interior afiliadas a essas redes, mas com CNPJ próprio, entram na conta como "independentes", o que faz a concentração real ser ainda maior.

Como apuramos. Os valores vêm dos relatórios mensais de transparência da Secretaria de Comunicação Social do Paraná (Secom), disponíveis em comunicacao.pr.gov.br/Pagina/Publicidade, referentes à publicidade institucional de janeiro de 2023 a junho de 2026. A distribuição por veículo é uma estimativa: o valor de cada mês, por órgão e tipo de mídia, foi rateado entre os veículos que tiveram inserção naquela fatia, proporcionalmente ao número de inserções. A identificação dos grupos econômicos usou o cruzamento dos CNPJs dos veículos com a base pública de sócios da Receita Federal. Os dados de produção (pagamentos às agências) são despesa distinta e não entram nos totais de veiculação citados.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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