A poucos dias do início oficial da campanha, os candidatos do Paraná já declararam à Justiça Eleitoral R$ 23 milhões em recursos captados para a disputa de 2026. O dinheiro, porém, está longe de ser distribuído de forma equilibrada: vem quase todo do fundo público dos partidos, concentra-se em dois deles e em um punhado de nomes — e praticamente não chega às candidaturas negras. Os dados são da prestação de contas parcial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atualizada em 25 de agosto.
Dos 1.072 candidatos paranaenses, apenas 326 (30%) declararam ter recebido algum recurso até agora — os outros 70% ainda não movimentaram nada. E mesmo entre quem captou, a diferença é enorme: as dez candidaturas mais ricas concentram 41% de todo o dinheiro, e os vinte primeiros, 61%. A mediana de quem captou é modesta: R$ 10 mil, o que mostra um funil em que poucos concentram muito e a maioria opera com quantias pequenas.
O grosso do dinheiro é público. Do total, 77,8% — R$ 17,9 milhões — vêm dos recursos dos próprios partidos, ou seja, das fatias do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (o "fundão") e do fundo partidário que as legendas repassam aos seus candidatos. Doações de pessoas físicas responderam por apenas 12,8%, e recursos próprios, por 6,6%. As vaquinhas pela internet somaram pouco mais de 2%.
Essa concentração tem destino definido. PP e NOVO sozinhos respondem por 80% de tudo que foi captado no estado: R$ 11,2 milhões (49%) passaram por candidatos do PP e R$ 7,2 milhões (31%), pelo NOVO. Nenhuma outra legenda chega a 10%. O dinheiro também se concentra por cargo: 61% foi para candidaturas a deputado federal, e outros 29% para deputado estadual.
No topo da lista de arrecadação aparecem quase só postulantes a uma vaga na Câmara dos Deputados pelo PP: Isabel Silvestri (R$ 1,52 milhão), Antonio Wandscheer (R$ 1,39 milhão), Marcelo Belinati (R$ 1,22 milhão), Dilceu Sperafico (R$ 1,15 milhão) e Naiany Hruschka (R$ 1,01 milhão). O maior captador fora do PP é o senador Deltan Dallagnol (NOVO), com R$ 965 mil.
O dado mais desigual, porém, aparece no recorte racial. Os candidatos brancos captaram R$ 22,3 milhões — 97% do total. Os candidatos negros (pretos e pardos), que são um quarto das candidaturas paranaenses, ficaram com R$ 673 mil, ou 3%. Enquanto 35% dos brancos já receberam algum recurso, entre os negros a proporção cai para 18%; e a mediana de quem captou é de R$ 20 mil para brancos contra R$ 4,5 mil para negros.
Desde 2022, por decisão da Justiça Eleitoral, os partidos são obrigados a distribuir o fundo eleitoral de forma proporcional às candidaturas negras — o que torna o desequilíbrio deste início de campanha especialmente grave. A demora para o dinheiro chegar aos candidatos negros se reflete também na eficácia das campanhas nesse início da disputa.
A divisão do dinheiro por gênero repete, em menor escala, a desigualdade geral da captação. As 365 mulheres que disputam a eleição no Paraná — cerca de um terço das candidaturas, proporção garantida pela cota legal — declararam ter recebido R$ 6,5 milhões, o equivalente a 28% do total captado no estado até 25 de agosto. Os 707 homens ficaram com os outros R$ 16,5 milhões (72%). A diferença aparece com mais força quando se olha quem sequer começou a arrecadar: 283 das 365 candidatas — 78% delas — ainda não receberam um único real, uma proporção parecida com a dos homens, mas que, somada aos valores menores, mantém as mulheres com uma fatia bem inferior à de recursos em circulação.
Entre as que já captaram, o dinheiro se concentra em pouquíssimos nomes, quase todos do PP e disputando uma vaga na Câmara dos Deputados. Cristina Silvestri (PP), a maior arrecadadora de todo o estado — homens e mulheres —, lidera também aqui, com R$ 1,52 milhão. Na sequência vêm Naiany Hruschka (PP), com R$ 1,01 milhão, e Indiara Barbosa (NOVO), com R$ 480 mil. A lista das dez candidatas com mais recursos:
- Cristina Silvestri (PP) — Dep. Federal — R$ 1.524.500
- Naiany Hruschka (PP) — Dep. Federal — R$ 1.010.000
- Indiara Barbosa (NOVO) — Dep. Federal — R$ 480.000
- Maria Victoria (PP) — Dep. Estadual — R$ 465.000
- Gleisi (PT) — Senadora — R$ 400.000
- Dani Ziober (PP) — Dep. Federal — R$ 250.000
- Dra. Cris Veloso (PP) — Dep. Federal — R$ 250.000
- Amália Tortato (NOVO) — Dep. Estadual — R$ 170.000
- Andréa Zancko (PP) — Dep. Estadual — R$ 135.000
- Doutora Louise Lima (PP) — Dep. Estadual — R$ 106.350
Os números são um retrato parcial e inicial: a prestação de contas segue aberta e a maior parte dos gastos e das doações ainda deve ser lançada nas próximas semanas. Mas o mapa do dinheiro já desenhado repete um padrão conhecido das eleições brasileiras — recurso público, concentrado em poucos partidos, poucos cargos e poucos nomes, e ainda distante de refletir a diversidade de quem se candidata.