Entre janeiro e agosto deste ano, famílias da Região Metropolitana de Curitiba abriram 1.063 holdings — empresas cuja função não é vender nada, mas guardar o que já existe: cotas de negócios, imóveis, participações. É mais do que todo o ano de 2025, e o ano ainda tem um terço pela frente.
O movimento não é novo, mas mudou de patamar. Em 2015, a região registrou 307 aberturas desse tipo. Em 2025, foram 1.441 — quase cinco vezes mais. E não se trata apenas do crescimento geral da economia: no mesmo período, o total de empresas abertas na região triplicou, enquanto as holdings quase quintuplicaram.
A virada é em 2022
Até 2021, as holdings cresciam mais devagar que o resto da economia. Elas representavam 0,65% de tudo que se abria na região em 2015 e chegaram a cair para 0,48% em 2018. A partir de 2022 a linha inverte: em 2025, uma em cada cem empresas abertas na Grande Curitiba era uma holding.
Holdings descolaram do resto da economia
Índice de aberturas por ano, base 100 em 2015. Acima de 100 significa crescimento em relação àquele ano.
Fonte: Dados Abertos de CNPJ da Receita Federal (ago/2026). Considera todas as matrizes abertas nos 29 municípios da Região Metropolitana de Curitiba, independentemente de a empresa continuar ativa. Holdings são os CNAEs 6462-0/00, 6463-8/00 e 6461-1/00.
Os dados mostram quando a curva virou, mas não por quê. O registro empresarial não informa a motivação de quem abre uma holding — essa resposta depende de apuração fora da base.
Holdings abertas por ano na Grande Curitiba
Número de empresas com CNAE de holding registradas nos 29 municípios da região.
Fonte: Receita Federal. A barra de 2026 cobre apenas janeiro a agosto.
Não é mais coisa de grande fortuna
O dado que mais chama atenção não é o número de holdings, e sim o tamanho delas. O capital social mediano das abertas até 2022 era de R$ 447,5 mil. Nas abertas de 2023 em diante, caiu para R$ 100 mil.
A leitura mais direta é que a estrutura chegou a um patrimônio que antes não a usava — o imóvel alugado, a sala comercial, a cota da empresa da família. O planejamento sucessório desceu a escada da riqueza.
O capital típico caiu para menos de um quarto
Capital social mediano das holdings familiares, por safra de abertura.
6.057 empresas
4.323 empresas
Fonte: Receita Federal. Considera holdings com sinal de estrutura familiar — dois ou mais sócios do mesmo sobrenome, ou razão social com o sobrenome dos donos. Capital social é autodeclarado e não auditado.
Como a holding reduz o imposto sobre herança
O ITCMD — imposto estadual sobre transmissão causa mortis e doação — incide sobre o que passa de uma geração para outra. A holding muda o que é transmitido, e é daí que vem a economia.
Sem holding. Na morte do titular, abre-se inventário e o imposto incide sobre os bens em si, avaliados a valor de mercado. Somam-se as custas judiciais e os honorários de advogado.
Com holding. Os bens são integralizados no capital da empresa, em geral pelo valor que constava na declaração de Imposto de Renda — o custo histórico de aquisição, quase sempre bem inferior ao valor de mercado. O que os herdeiros recebem depois não são os imóveis, e sim cotas da empresa. O imposto passa a incidir sobre o valor das cotas, derivado daquele patrimônio contábil, e não sobre o preço que os bens alcançariam no mercado.
A transferência costuma ser feita em vida, por doação com reserva de usufruto: o titular repassa a nua-propriedade das cotas aos filhos e mantém para si o usufruto — a renda e, quando previsto no contrato social, o controle das decisões. Paga-se o imposto na doação, pela alíquota vigente naquele momento, e não na sucessão. Como o ITCMD é estadual e as regras variam, a diferença entre transmitir agora ou depois depende de cada legislação.
Há ainda dois efeitos colaterais: a transferência de imóveis para o capital de uma empresa cuja atividade não seja imobiliária tem imunidade de ITBI prevista na Constituição, e a partilha por cotas dispensa o inventário — o que corta custas e tempo, embora isso seja economia de custo, não de imposto.
É um caminho lícito e regulado, mas não automático: fiscos estaduais podem questionar a avaliação quando entendem que o patrimônio foi subdimensionado, e o ganho depende do caso concreto. As empresas citadas nesta reportagem não foram examinadas quanto ao efeito tributário — o que se descreve aqui é o mecanismo geral.
O padrão do lote
Há um desenho que se repete: a mesma pessoa abre várias holdings no mesmo mês, uma para cada herdeiro. A reportagem identificou 56 casos assim na região. Numa delas, de outubro de 2025, cinco integrantes da mesma família aparecem cada um em três holdings, todas registradas na mesma leva. Em julho de 2024, um empresário abriu quatro de uma vez, somando R$ 155,9 milhões de capital declarado.
O caso mais conhecido é anterior à onda e envolve um grupo empresarial da cidade. Em março de 2019, a família Abujamra, do grupo hoteleiro Mabu, abriu oito holdings numa única semana, em séries numeradas — Jamra I a V, Blue Park I a V, Chamon I a V, Prestige I a V —, com cinco irmãos participando de quatro cada.
Onde está o dinheiro
Somando o capital declarado das holdings registradas em Curitiba e agrupando por sobrenome dos donos, o topo da lista reúne doze grupos familiares com mais de R$ 200 milhões cada. A maior parte é composta por famílias que não ocupam cargo público nem dão nome a marca conhecida — e por isso aparecem aqui apenas pelo tamanho, sem identificação.
Grupos familiares com maior capital em holdings de Curitiba
Soma do capital social declarado das holdings registradas no município, por sobrenome dos donos.
| Grupo | Holdings | Capital declarado |
|---|---|---|
| Família de 19 holdings, do setor imobiliário | 19 | R$ 598,8 mi |
| Buffara — controladores da Britânia | 14 | R$ 593,0 mi |
| Grynbaum — sócio d’O Boticário | 3 | R$ 540,6 mi |
| Roveda — sócio da Barigui Veículos | 3 | R$ 515,9 mi |
| Família de 23 holdings | 23 | R$ 439,8 mi |
| Família com uma única holding | 1 | R$ 420,0 mi |
| Família com uma única holding | 1 | R$ 419,6 mi |
| Família de 17 holdings | 17 | R$ 385,4 mi |
| Família de 61 holdings — a maior estrutura da região | 61 | R$ 364,3 mi |
| Família de 4 holdings | 4 | R$ 352,1 mi |
| Beltrão de Almeida — do ex-senador Marcelo Beltrão de Almeida | 6 | R$ 256,7 mi |
| Família de 9 holdings | 9 | R$ 252,5 mi |
Fonte: Receita Federal (competência ago/2026). Considera holdings registradas no município de Curitiba com sinal de estrutura familiar. Sobrenomes muito frequentes — Silva, Oliveira, Santos, Gomes, Almeida, Ribeiro, Pereira — foram excluídos da lista: reúnem milhares de pessoas sem parentesco entre si e não constituem grupo familiar. Capital social é autodeclarado e não auditado.
Só quatro grupos do topo são identificados nesta reportagem, e por critério objetivo: ou a família controla empresa de marca conhecida, ou um dos donos das holdings exerceu mandato eletivo. Os Buffara aparecem no comando da Britânia; Artur Noêmio Grynbaum é sócio d’O Boticário; Ivo Luiz Roveda, da Barigui Veículos. O sexto colocado do capital, Marcelo Beltrão de Almeida, foi senador pelo Paraná e é dono de duas das seis holdings do grupo.
As demais são famílias sem cargo público e sem marca associada ao nome. Os números delas estão na tabela; a identificação, não.
Quem foi eleito também tem holding
O movimento também alcança quem ocupa ou ocupou cargo eletivo. Cruzando o CPF de eleitos do Tribunal Superior Eleitoral com o quadro societário da Receita, a reportagem localizou 213 pessoas eleitas em algum pleito do Paraná desde 2014 que são donas de holding na Grande Curitiba — 317 empresas ao todo, com R$ 1,17 bilhão de capital declarado.
As duas pontas do cruzamento têm recortes diferentes, e vale explicitar: as holdings são só as registradas nos 29 municípios da região metropolitana; os mandatos são de todo o estado. Dos 213, 167 foram eleitos em municípios da própria região e 71 ocupam ou ocuparam cargo de alcance estadual — governador, senador, deputado. Outros 23 se elegeram em cidades paranaenses de fora da RMC, como Londrina, Cascavel e Guaratuba, mas mantêm holding na Grande Curitiba.
Holdings de quem foi eleito, por cargo
Pessoas eleitas em algum pleito do Paraná desde 2014 que constam como donas de holding registrada nos 29 municípios da Grande Curitiba.
| Cargo | Pessoas | Holdings | Capital declarado |
|---|---|---|---|
| Vereador | 90 | 138 | R$ 497,9 mi |
| Prefeito e vice | 54 | 72 | R$ 174,8 mi |
| Deputado | 51 | 77 | R$ 106,8 mi |
| Senador | 5 | 7 | R$ 242,3 mi |
| Governador | 7 | 8 | R$ 41,5 mi |
| Outros cargos | 6 | 21 | R$ 104,8 mi |
| Total | 213 | 317 | R$ 1.168,1 mi |
Fonte: Receita Federal (competência ago/2026) e TSE (eleições de 2014 a 2026, apenas Paraná). O cruzamento é feito por CPF — o TSE publica o número completo, a Receita publica os seis dígitos centrais, e o encaixe das duas máscaras com o nome idêntico identifica a pessoa; não usamos coincidência de sobrenome. Cada pessoa é classificada pelo cargo mais alto que ocupou, então as linhas não se somam por pessoa. "Outros cargos" reúne suplentes e conselheiros tutelares. Capital social é autodeclarado e não auditado.
O caso mais recente é o do governador Carlos Roberto Massa Junior (PSD), eleito em 2022. Ele consta como dono da Massa Administradora de Bens, holding aberta em 2023, já durante o mandato, com R$ 40 milhões de capital declarado — a única do seu nome na região.
O prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel Slaviero (PSD), eleito em 2024, aparece em três: a Entrerios, de 1999, a Taos Participações, aberta em 2023 com R$ 20,7 milhões, e a ILP Participações, de 2024, de compra e venda de imóveis próprios e sem capital declarado. Duas das três foram registradas nos dois anos que antecederam sua eleição.
Entre os parlamentares, o deputado estadual Artagão de Mattos Leão Junior (2 holdings, R$ 19 milhões, abertas em 2012 e 2016) e a deputada estadual Eloiza Helena dos Santos Veiga, cuja holding foi registrada em 2025, com R$ 15 milhões. O maior capital do grupo é do ex-senador Marcelo Beltrão de Almeida: três empresas, R$ 225,8 milhões, a mais antiga de 1971.
Quem está abrindo
Entre os sócios das holdings abertas de 2023 em diante, 25,5% têm entre 41 e 50 anos e 18,1% entre 51 e 60 — a geração que administra o patrimônio dos pais. Outros 28% têm menos de 40 anos: são os herdeiros recebendo cotas ainda em vida.
Rosiane Correia de Freitas
Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural
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