Curitiba se firmou como um dos principais polos de fintech do Brasil. A capital paranaense é a 2ª do país em número de fintechs — atrás só de São Paulo — e a que mais concentra essas empresas por habitante entre todas as capitais.
É o que mostra o levantamento da Plural nos cadastros da Receita Federal e nos dados do Banco Central. No mesmo período, o tamanho somado das fintechs paranaenses autorizadas pelo Banco Central saltou de praticamente zero, em 2018, para R$ 3,4 bilhões ao fim de 2025.
Curitiba, 2ª capital em fintechs
Entre as 27 capitais, Curitiba aparece em 2º lugar em número de fintechs ativas (1.900), à frente de Rio de Janeiro e Belo Horizonte, e atrás apenas de São Paulo. Mas o dado mais eloquente é a densidade: são 107 fintechs para cada 100 mil habitantes — mais que o dobro de São Paulo e Porto Alegre, as capitais que vêm em seguida.
Densidade de fintechs por capital
Fintechs ativas para cada 100 mil habitantes.
| Capital | Fintechs ativas | Por 100 mil hab. |
|---|---|---|
| São Paulo | 5.761 | 50 |
| Curitiba | 1.900 | 107 |
| Rio de Janeiro | 1.841 | 30 |
| Belo Horizonte | 868 | 37 |
| Porto Alegre | 680 | 51 |
Fonte: cadastros de empresas da Receita Federal e população do Censo IBGE 2022.
E não se trata de um número inflado: 7 em cada 10 fintechs de Curitiba estão na categoria usada de fato pelas empresas de pagamento e de tecnologia financeira. Apenas 16% são correspondentes bancários — aqueles pontos que representam bancos, como as casas lotéricas.
São Paulo, é preciso dizer, segue disparado como o grande polo nacional: são três vezes mais fintechs que Curitiba, e a maior concentração de instituições reguladas.
O crescimento do setor
A curva de aberturas confirma a aceleração. Nos cadastros da Receita Federal, as empresas ligadas a serviços financeiros digitais somam 7.182 no Paraná — 4.073 em atividade. O ritmo de novas empresas pulou de pouco mais de 600 por ano até 2018 para 1.139 aberturas só em 2025 — o maior número já registrado. Metade das que estão ativas foi aberta há três anos ou menos.
Aberturas de fintechs por ano no Paraná
Novos CNPJs do setor abertos a cada ano.
O crescimento é claramente positivo, mas não sem baixas: o número de fintechs que fecham as portas também subiu — foram 247 fechamentos em 2025 —, embora ainda muito abaixo do ritmo de aberturas.
| Ano | Abriram | Fecharam |
|---|---|---|
| 2015 | 86 | 95 |
| 2018 | 268 | 60 |
| 2021 | 462 | 198 |
| 2023 | 509 | 217 |
| 2025 | 1.139 | 247 |
Entre as que prestam contas ao Banco Central, o salto é ainda mais nítido: eram 3 em 2018 e são 22 em 2025; o tamanho somado do grupo multiplicou por cinco entre 2021 e 2025.
Quem são as fintechs paranaenses
Das milhares de empresas desse recorte mais amplo, apenas cerca de 33 são de fato autorizadas a funcionar pelo Banco Central.
A imensa maioria dos CNPJs de fintech não precisa de autorização do Banco Central. A licença é exigida só de quem guarda ou movimenta o dinheiro dos clientes por conta própria, ou empresta com capital próprio.
Mas por que só 33, entre milhares? As instituições de pagamento — carteiras digitais, contas, maquininhas, emissores de cartão — só precisam ser autorizadas quando passam de um certo porte: cerca de R$ 500 milhões movimentados em um ano ou R$ 50 milhões guardados nas contas dos clientes. Já as empresas que emprestam com dinheiro próprio, as chamadas sociedades de crédito, precisam de autorização desde o primeiro dia.
Fica de fora a maioria: as fintechs que apenas fornecem tecnologia a bancos e a outras instituições — o chamado "banking as a service" —, os correspondentes e agentes que operam sob a licença de um parceiro, e as empresas de investimento ou de seguros, reguladas por outros órgãos. Todas movimentam dinheiro, mas usando a licença de terceiros, não a própria. Por isso o setor tem milhares de CNPJs, mas só algumas dezenas de instituições autorizadas.
À frente está o EBANX, primeiro unicórnio do setor no estado — uma startup avaliada em mais de US$ 1 bilhão. As maiores por tamanho, em dezembro de 2025:
| Fintech | Tipo | Tamanho (R$ mi) |
|---|---|---|
| EBANX | Pagamento | 1.274 |
| SenffNet | Pagamento | 812 |
| Gowd | Pagamento | 315 |
| Transfeera | Pagamento | 262 |
| Z-ON | Crédito digital | 216 |
| Trio | Pagamento | 98 |
| Artta | Crédito digital | 82 |
| Crefaz | Microcrédito | 74 |
A lista também expõe o limite do dado: o endereço no CNPJ é uma foto de um momento e pode mudar. A Transfeera, quarta colocada, aparece aqui porque seu CNPJ regulado tem registro em Curitiba — mas a empresa informou, por meio de sua assessoria, que sua sede fica em Santa Catarina e que está em processo de mudança para São Paulo.
O EBANX, de Curitiba para o mundo
Nascido em Curitiba em 2012, o EBANX começou resolvendo um gargalo do comércio eletrônico: empresas globais só vendiam a brasileiros com cartão internacional, enquanto o consumidor daqui pagava com boleto e parcelava. "O EBANX construiu a ponte entre os dois lados", afirma a empresa — integrando meios de pagamento locais para que marcas de fora recebessem em dólar ou euro e o brasileiro pagasse em reais.
Catorze anos depois, são mais de 700 funcionários de mais de 20 nacionalidades, operação em mais de 20 países da América Latina, África e Ásia e mais de 200 meios de pagamento locais conectados. O EBANX atende mais de 500 empresas globais — Uber, Amazon Prime, Spotify e AliExpress entre elas — e diz processar cerca de 4 milhões de transações por dia, mais de 1,4 bilhão por ano. Não abre o valor total movimentado, mas afirma que ele cresceu 48% em 2025, o maior salto de sua história — com 65% do lucro bruto vindo de fora do Brasil.
Curitiba é a sede global e concentra os times de engenharia, produto e tecnologia. "A cidade tem uma comunidade técnica madura, formada por décadas de tradição em engenharia", diz o EBANX, que mantém o Códigos do Amanhã, programa gratuito de formação que já capacitou mais de 150 pessoas desde 2022. O gargalo, reconhece, é a escala: "por ser uma cidade menor, o número absoluto de profissionais qualificados também é menor".
Sobre o rótulo de "âncora" do ecossistema, a empresa recua: "o EBANX não se considera âncora", e credita a outras companhias o papel de tornar Curitiba uma referência. Também não vê rivalidade com São Paulo, onde mantém equipe comercial: "Curitiba é onde o produto é desenvolvido; São Paulo nos aproxima do centro das decisões do mercado".
Ainda menor que o sistema tradicional
O Banco Central lista 135 instituições reguladas com sede no Paraná, mas o peso financeiro ainda está nos modelos tradicionais. As fintechs são a menor fatia — mas a que mais cresce.
As cooperativas de crédito (Sicredi, Sicoob, Cresol) somam R$ 212 bilhões em ativos e os bancos — incluindo Paraná Banco e braços de montadoras como Volvo e CNH — somam R$ 94 bilhões. As fintechs, com R$ 3,4 bilhões, ainda cabem na fina faixa azul da barra acima.
O que os dados não mostram
Uma coisa não dá para saber pelos dados públicos: quanto dinheiro passa por cada empresa. O Banco Central não divulga esse volume, e o tamanho da empresa — a melhor medida disponível — não é a mesma coisa que faturamento nem que o total de dinheiro movimentado. As próprias empresas raramente abrem esse número: o EBANX informou processar 4 milhões de transações por dia, mas não revela o valor em reais. E, como 65% de seu lucro já vem de fora do Brasil, o tamanho registrado aqui não reflete o negócio no mundo.