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Curitiba tem mais fintechs por habitante que qualquer capital do Brasil

A capital paranaense é a 2ª do país em número de fintechs e a maior em densidade. O setor saltou de quase zero, em 2018, para R$ 3,4 bilhões em ativos em 2025

Curitiba tem mais fintechs por habitante que qualquer capital do Brasil
Foto: Vinicius Brasil / Unsplash

Curitiba se firmou como um dos principais polos de fintech do Brasil. A capital paranaense é a 2ª do país em número de fintechs — atrás só de São Paulo — e a que mais concentra essas empresas por habitante entre todas as capitais.

É o que mostra o levantamento da Plural nos cadastros da Receita Federal e nos dados do Banco Central. No mesmo período, o tamanho somado das fintechs paranaenses autorizadas pelo Banco Central saltou de praticamente zero, em 2018, para R$ 3,4 bilhões ao fim de 2025.

capital em nº de fintechs
107
fintechs por 100 mil hab.
R$ 3,4 bi
em ativos regulados (2025)

Curitiba, 2ª capital em fintechs

Entre as 27 capitais, Curitiba aparece em 2º lugar em número de fintechs ativas (1.900), à frente de Rio de Janeiro e Belo Horizonte, e atrás apenas de São Paulo. Mas o dado mais eloquente é a densidade: são 107 fintechs para cada 100 mil habitantes — mais que o dobro de São Paulo e Porto Alegre, as capitais que vêm em seguida.

Densidade de fintechs por capital

Fintechs ativas para cada 100 mil habitantes.

CapitalFintechs ativasPor 100 mil hab.
São Paulo5.76150
Curitiba1.900107
Rio de Janeiro1.84130
Belo Horizonte86837
Porto Alegre68051

Fonte: cadastros de empresas da Receita Federal e população do Censo IBGE 2022.

E não se trata de um número inflado: 7 em cada 10 fintechs de Curitiba estão na categoria usada de fato pelas empresas de pagamento e de tecnologia financeira. Apenas 16% são correspondentes bancários — aqueles pontos que representam bancos, como as casas lotéricas.

70% 16% 14%
Serviços financeiros digitais Correspondentes bancários Outros

São Paulo, é preciso dizer, segue disparado como o grande polo nacional: são três vezes mais fintechs que Curitiba, e a maior concentração de instituições reguladas.

O crescimento do setor

A curva de aberturas confirma a aceleração. Nos cadastros da Receita Federal, as empresas ligadas a serviços financeiros digitais somam 7.182 no Paraná — 4.073 em atividade. O ritmo de novas empresas pulou de pouco mais de 600 por ano até 2018 para 1.139 aberturas só em 2025 — o maior número já registrado. Metade das que estão ativas foi aberta há três anos ou menos.

Aberturas de fintechs por ano no Paraná

Novos CNPJs do setor abertos a cada ano.

O crescimento é claramente positivo, mas não sem baixas: o número de fintechs que fecham as portas também subiu — foram 247 fechamentos em 2025 —, embora ainda muito abaixo do ritmo de aberturas.

AnoAbriramFecharam
20158695
201826860
2021462198
2023509217
20251.139247

Entre as que prestam contas ao Banco Central, o salto é ainda mais nítido: eram 3 em 2018 e são 22 em 2025; o tamanho somado do grupo multiplicou por cinco entre 2021 e 2025.

2018
3 fintechs reguladasTamanho somado próximo de zero.
2021
9 fintechs · R$ 0,66 biChegam as instituições de pagamento.
2023
15 fintechs · R$ 1,37 biO tamanho mais que dobra em dois anos.
2025
22 fintechs · R$ 3,39 biCinco vezes o tamanho de 2021.

Quem são as fintechs paranaenses

Das milhares de empresas desse recorte mais amplo, apenas cerca de 33 são de fato autorizadas a funcionar pelo Banco Central.

33 entre milhares

A imensa maioria dos CNPJs de fintech não precisa de autorização do Banco Central. A licença é exigida só de quem guarda ou movimenta o dinheiro dos clientes por conta própria, ou empresta com capital próprio.

Mas por que só 33, entre milhares? As instituições de pagamento — carteiras digitais, contas, maquininhas, emissores de cartão — só precisam ser autorizadas quando passam de um certo porte: cerca de R$ 500 milhões movimentados em um ano ou R$ 50 milhões guardados nas contas dos clientes. Já as empresas que emprestam com dinheiro próprio, as chamadas sociedades de crédito, precisam de autorização desde o primeiro dia.

Fica de fora a maioria: as fintechs que apenas fornecem tecnologia a bancos e a outras instituições — o chamado "banking as a service" —, os correspondentes e agentes que operam sob a licença de um parceiro, e as empresas de investimento ou de seguros, reguladas por outros órgãos. Todas movimentam dinheiro, mas usando a licença de terceiros, não a própria. Por isso o setor tem milhares de CNPJs, mas só algumas dezenas de instituições autorizadas.

À frente está o EBANX, primeiro unicórnio do setor no estado — uma startup avaliada em mais de US$ 1 bilhão. As maiores por tamanho, em dezembro de 2025:

FintechTipoTamanho (R$ mi)
EBANXPagamento1.274
SenffNetPagamento812
GowdPagamento315
TransfeeraPagamento262
Z-ONCrédito digital216
TrioPagamento98
ArttaCrédito digital82
CrefazMicrocrédito74

A lista também expõe o limite do dado: o endereço no CNPJ é uma foto de um momento e pode mudar. A Transfeera, quarta colocada, aparece aqui porque seu CNPJ regulado tem registro em Curitiba — mas a empresa informou, por meio de sua assessoria, que sua sede fica em Santa Catarina e que está em processo de mudança para São Paulo.

O EBANX, de Curitiba para o mundo

Nascido em Curitiba em 2012, o EBANX começou resolvendo um gargalo do comércio eletrônico: empresas globais só vendiam a brasileiros com cartão internacional, enquanto o consumidor daqui pagava com boleto e parcelava. "O EBANX construiu a ponte entre os dois lados", afirma a empresa — integrando meios de pagamento locais para que marcas de fora recebessem em dólar ou euro e o brasileiro pagasse em reais.

Catorze anos depois, são mais de 700 funcionários de mais de 20 nacionalidades, operação em mais de 20 países da América Latina, África e Ásia e mais de 200 meios de pagamento locais conectados. O EBANX atende mais de 500 empresas globais — Uber, Amazon Prime, Spotify e AliExpress entre elas — e diz processar cerca de 4 milhões de transações por dia, mais de 1,4 bilhão por ano. Não abre o valor total movimentado, mas afirma que ele cresceu 48% em 2025, o maior salto de sua história — com 65% do lucro bruto vindo de fora do Brasil.

Curitiba é a sede global e concentra os times de engenharia, produto e tecnologia. "A cidade tem uma comunidade técnica madura, formada por décadas de tradição em engenharia", diz o EBANX, que mantém o Códigos do Amanhã, programa gratuito de formação que já capacitou mais de 150 pessoas desde 2022. O gargalo, reconhece, é a escala: "por ser uma cidade menor, o número absoluto de profissionais qualificados também é menor".

Sobre o rótulo de "âncora" do ecossistema, a empresa recua: "o EBANX não se considera âncora", e credita a outras companhias o papel de tornar Curitiba uma referência. Também não vê rivalidade com São Paulo, onde mantém equipe comercial: "Curitiba é onde o produto é desenvolvido; São Paulo nos aproxima do centro das decisões do mercado".

Ainda menor que o sistema tradicional

O Banco Central lista 135 instituições reguladas com sede no Paraná, mas o peso financeiro ainda está nos modelos tradicionais. As fintechs são a menor fatia — mas a que mais cresce.

R$ 212 bi R$ 94 bi
Cooperativas de crédito — R$ 212 bi Bancos — R$ 94 bi Fintechs — R$ 3,4 bi

As cooperativas de crédito (Sicredi, Sicoob, Cresol) somam R$ 212 bilhões em ativos e os bancos — incluindo Paraná Banco e braços de montadoras como Volvo e CNH — somam R$ 94 bilhões. As fintechs, com R$ 3,4 bilhões, ainda cabem na fina faixa azul da barra acima.

O que os dados não mostram

Uma coisa não dá para saber pelos dados públicos: quanto dinheiro passa por cada empresa. O Banco Central não divulga esse volume, e o tamanho da empresa — a melhor medida disponível — não é a mesma coisa que faturamento nem que o total de dinheiro movimentado. As próprias empresas raramente abrem esse número: o EBANX informou processar 4 milhões de transações por dia, mas não revela o valor em reais. E, como 65% de seu lucro já vem de fora do Brasil, o tamanho registrado aqui não reflete o negócio no mundo.

Como esta reportagem foi feita. Partimos dos cadastros públicos de empresas da Receita Federal; a densidade por habitante cruza esse número com a população de cada capital no Censo do IBGE de 2022. O tamanho das empresas ("ativo") vem dos balanços que as instituições financeiras entregam ao Banco Central a cada três meses — é uma medida de porte, não de faturamento nem de volume movimentado. A lista de quem é de fato autorizada foi cruzada com o cadastro oficial de instituições autorizadas pelo Banco Central. Os valores de tamanho são de dezembro de 2025, não corrigidos pela inflação; só entram empresas que prestam contas ao Banco Central; e o EBANX, por trabalhar com pagamentos internacionais, sozinho responde por boa parte do total.
Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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