A Copel, distribuidora de energia do Paraná privatizada em agosto de 2023, pagou R$ 112,3 milhões em compensações a consumidores por falhas no serviço entre janeiro de 2024 e junho de 2026 — mais do que havia pago em todo o quinquênio anterior, de 2019 a 2023, quando a soma chegou a R$ 98,3 milhões, segundo dados do portal de transparência da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A média anual saltou de R$ 14,2 milhões, nos nove anos anteriores, para R$ 44,9 milhões no período pós-privatização — alta de três vezes em valor nominal e de duas vezes e meia descontada a inflação do IPCA. No mesmo intervalo, a distribuidora elevou em 80% em termos reais o investimento em distribuição e o indicador médio de qualidade do serviço no Paraná continuou a trajetória de queda que já vinha de 2015. Mas o DEC — Duração Equivalente de Interrupção por Consumidor — piorou em pelo menos sete das 14 localidades com maior deterioração no estado, a maioria delas na Região Metropolitana de Curitiba.
A compensação financeira funciona como multa automática: toda vez que a distribuidora excede o limite regulatório de duração ou de frequência de interrupção para um consumidor, ela precisa creditar um valor na próxima fatura daquele consumidor. Os limites são definidos pela Aneel por conjunto consumidor — espécie de bairro técnico — e a lista com os valores pagos mês a mês, por classe de tensão, está publicada no portal de dados abertos da agência. A Plural somou os pagamentos da Copel em todas as classes — alta, média e baixa tensão, urbana e não urbana — entre janeiro de 2014 e junho de 2026, última competência publicada até o fechamento desta reportagem.
Menos pessoas no escuro, mas quem fica, fica mais tempo
O valor total pago pela Copel em compensações cresceu, mas o número de consumidores que recebem o crédito caiu. Foram 3,5 milhões de contas-consumidor compensadas em 2014; em 2025, 1,3 milhão — redução de 63% ao longo da série. O valor médio recebido por cada consumidor compensado, no entanto, subiu de R$ 2,83 em 2014 para R$ 32,71 em 2025. Mesmo descontada a inflação pelo IPCA do período, o aumento real é da ordem de seis vezes e meia.
Em termos práticos, menos moradores do Paraná sofrem com apagões a ponto de a distribuidora furar o limite regulatório — mas quem é atingido fica no escuro por mais tempo, ou tantas vezes, que a compensação que vai para a fatura é maior do que já foi em qualquer momento da série histórica. Nos seis primeiros meses de 2026, o valor médio por consumidor compensado é de R$ 41 — o maior já registrado.
| ano | valor pago (R$ milhões) | consumidores compensados | valor médio (R$) |
|---|---|---|---|
| 2014 | 9,98 | 3,53 milhões | 2,83 |
| 2015 | 13,64 | 3,28 milhões | 4,16 |
| 2016 | 11,17 | 2,65 milhões | 4,21 |
| 2017 | 10,78 | 2,38 milhões | 4,53 |
| 2018 | 14,44 | 2,83 milhões | 5,10 |
| 2019 | 14,46 | 2,56 milhões | 5,66 |
| 2020 | 14,13 | 2,05 milhões | 6,90 |
| 2021 | 14,76 | 1,93 milhão | 7,63 |
| 2022 | 24,78 | 1,03 milhão | 24,07 |
| 2023 | 30,15 | 1,14 milhão | 26,43 |
| 2024 | 39,04 | 1,50 milhão | 26,06 |
| 2025 | 42,58 | 1,30 milhão | 32,71 |
| 2026 (até junho) | 30,68 | 0,75 milhão | 41,00 |
Fonte: Aneel, soma dos pagamentos mensais em todas as classes de tensão (AT, MT urbana, MT não urbana, BT urbana e BT não urbana).
O salto no valor pago começa em 2022 — um ano antes da privatização, concluída em 7 de agosto de 2023 com oferta pública que diluiu a participação do Estado do Paraná no capital da Copel de 31% para 15,6%, movimentando R$ 5,2 bilhões. Em outras palavras, a inflexão não é efeito direto da mudança de controle acionário, mas também não foi revertida por ela. O patamar novo começou antes e continuou depois.
A média cai desde 2015
A média do DEC entre todos os conjuntos consumidores da Copel caiu de 1,69 hora em 2014 para 0,68 hora em 2024 — redução de 60% em dez anos. O pico recente da série foi em 2015 (1,81 hora); desde então, com oscilações, o indicador vem caindo. Já em 2019, antes da privatização, o DEC médio havia caído para 0,90 hora — metade do pico.
Em 2024, primeiro ano completo sob controle privado, o indicador caiu para 0,68. No parcial de 2025, está em 0,52. O ritmo não acelerou com a mudança de controle; nem foi revertido por ela.
O problema não é a média — é o mapa. Comparando o DEC de cada conjunto consumidor em 2019 com o de 2024, 14 localidades do Paraná pioraram no indicador. Pelo menos sete delas estão na Região Metropolitana de Curitiba: Tunas do Paraná, Piraquara, Campo Largo, o Distrito Industrial de São José dos Pinhais, Fazenda Rio Grande, Araucária e o bairro Cidade Industrial, na capital. O caso mais extremo é o de Fazenda Rio Grande, onde o DEC passou de 0,14 para 0,55 hora entre 2019 e 2024 — quase quadruplicou. Piraquara mais que dobrou (de 0,71 para 1,78). O Distrito Industrial de São José dos Pinhais mais que dobrou (de 0,41 para 0,94).
Em contraste, as localidades que mais melhoraram no mesmo período são majoritariamente do interior e oeste: Governador Parigot de Souza (-2,31), Ivaiporã (-1,69), Santo Antônio do Sudoeste (-1,63), Marechal Cândido Rondon (-0,93), Guaíra (-1,17), Quedas do Iguaçu (-1,34). O movimento é regionalmente desigual — média geral melhora, Grande Curitiba piora.
Causa não identificada vira a classificação mais frequente
Em 2025, a Copel registrou 16 desligamentos de grande porte segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O detalhamento, cruzado com os registros no nível de alimentador que a Aneel publica, mostra que os cinco maiores em número de consumidores atingidos somam mais de 460 mil atendimentos afetados em dezenas de cidades. Em quatro deles, a causa classificada pela própria Copel foi "externa — não programada — não classificada" (três ocorrências) ou "próprias do sistema — não identificada" (uma). Apenas o maior, em 21 de setembro de 2025, foi atribuído a descarga atmosférica — um raio, ou uma sucessão deles — e atingiu 152.282 consumidores em 89 cidades, de Siqueira Campos a Telêmaco Borba.
| data e hora | MW cortados | consumidores | cidades | causa classificada |
|---|---|---|---|---|
| 21/09/2025, 16h36 | 65,5 | 152.282 | 89 | descarga atmosférica |
| 15/01/2026, 20h13 | 17,5 | 121.397 | 41 | próprias do sistema — não identificada |
| 16/10/2025, 23h44 | 39,5 | 89.566 | 32 | externa — não classificada |
| 18/05/2025, 18h08 | 54,6 | 78.445 | 49 | externa — não classificada |
| 14/10/2025, 00h32 | 105,5 | 67.502 | 67 | externa — não classificada |
No agregado anual de 2025, a classificação "não identificada" é a que mais aparece nos registros da Copel: foram 146.956 ocorrências que, somadas, afetaram 61,7 milhões de contas-consumidor — mais do que a soma dos atingidos por eventos classificados como vento, raio, árvore sobre a rede, animais, abalroamento e objeto na rede.
Investimento dobrou em termos reais — e as compensações também
Nos formulários 20-F anuais que protocola à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC), a Copel detalha o capital expenditure (CAPEX) por segmento. A série 2015-2025, extraída dos relatórios dos exercícios 2017, 2019, 2022 e 2025, mostra o patamar do investimento em distribuição mais que dobrando após a privatização.
| ano | CAPEX Copel Distribuição (R$ milhões) | em reais de 2025 pelo IPCA |
|---|---|---|
| 2015 | 656,4 | 1.142 |
| 2016 | 777,1 | 1.270 |
| 2017 | 630,4 | 1.000 |
| 2018 | 696,0 | 1.063 |
| 2019 | 919,9 | 1.352 |
| 2020 | 1.279,6 | 1.804 |
| 2021 | 1.623,0 | 2.115 |
| 2022 | 1.848,1 | 2.231 |
| 2023 | 1.966,5 | 2.275 |
| 2024 | 2.196,9 | 2.434 |
| 2025 | 2.959,0 | 2.959 |
Nos oito anos anteriores à privatização (2015-2022), a Copel aplicou em média R$ 1,05 bilhão por ano em distribuição — ou R$ 1,50 bilhão em reais de 2025. Nos dois anos sob controle privado (2024-2025), a média subiu para R$ 2,58 bilhões por ano em valor nominal — R$ 2,70 bilhões a preços de 2025. Em termos reais, o aumento é de 80%. O orçamento para 2026 é de R$ 1,94 bilhão em distribuição, segundo o próprio 20-F.
A matemática é a seguinte: a Copel investiu em dois anos pós-privatização, em termos reais, a mesma coisa que investiu em quase quatro anos antes. No mesmo intervalo, as compensações pagas por falhas também cresceram, e sete localidades da Região Metropolitana de Curitiba foram na direção oposta à média do estado.
A leitura mais imediata é a de que o investimento tem um lag de maturação — isto é, projetos de modernização e substituição de rede levam tempo até reduzir as interrupções que o consumidor sente. Outra leitura possível é a de que a destinação regional do investimento não coincide com os lugares em piora. Os dois 20-F mais recentes informam o total aplicado em distribuição, mas não discriminam por município ou conjunto consumidor. Sem o detalhamento, não é possível testar a segunda hipótese a partir dos dados hoje públicos.
Como apuramos esta reportagem
A Plural somou os pagamentos mensais de compensação da Copel-DIS em todas as classes de tensão — alta, média urbana e não urbana, baixa urbana e não urbana — entre janeiro de 2014 e junho de 2026, última competência publicada pela Aneel no portal de dados abertos. O DEC por conjunto consumidor vem da mesma origem. O detalhamento por alimentador — município, causa classificada pela distribuidora e número de consumidores atingidos — foi extraído da base de Interrupções de Energia Elétrica nas Redes de Distribuição, que soma 685.479 registros da Copel em 2025, cruzada com a base de Interrupção de Carga do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) numa janela de 15 minutos a partir do início de cada desligamento. O CAPEX anual por segmento vem dos Formulários 20-F que a Copel protocola anualmente à SEC. A data da privatização considerada é 7 de agosto de 2023 — precificação da oferta subsequente que diluiu o Estado do Paraná a 15,6% do capital. Valores estão nominais, salvo quando indicado "em reais de 2025", caso em que foram deflacionados pelo IPCA do IBGE. A soma de consumidores atingidos refere-se a contas-consumidor, com dupla contagem possível quando uma unidade é afetada por mais de uma interrupção no mesmo intervalo. Como limites, o 20-F não discrimina CAPEX por município, o dataset do ONS cobre só as interrupções que afetam o sistema interligado, e a classificação de causa das interrupções é a enviada pela própria distribuidora, sem auditoria independente.
Perguntas rápidas
O que são as compensações pagas pela Copel? É um crédito automático na fatura do consumidor quando a distribuidora excede o limite regulatório da Aneel para duração ou frequência de interrupção da sua unidade consumidora. É previsto pelo Módulo 8 dos Procedimentos de Distribuição (PRODIST).
Quando a Copel foi privatizada? Em 7 de agosto de 2023, quando foi precificada a oferta subsequente de ações que diluiu a participação do governo do Paraná no capital da companhia de 31% para 15,6%, inspirada no modelo de privatização da Eletrobras.
O investimento em distribuição aumentou após a privatização? Sim. O CAPEX anual em distribuição subiu de uma média de R$ 1,05 bilhão nominal entre 2015 e 2022 para R$ 2,58 bilhões nominais em 2024-2025 — aumento de 80% em termos reais, descontada a inflação pelo IPCA.
Quais cidades do Paraná pioraram em qualidade de energia? Entre as 14 localidades com maior piora no DEC entre 2019 e 2024, pelo menos sete estão na Região Metropolitana de Curitiba: Tunas do Paraná, Piraquara, Campo Largo, Distrito Industrial de São José dos Pinhais, Fazenda Rio Grande, Araucária e o bairro Cidade Industrial, em Curitiba.