Abrir é fácil; durar é que são elas. No Paraná, metade das empresas que já fecharam não passou dos 3,1 anos de vida — e, entre as que continuam ativas, a idade mediana é de 4,2 anos. Mas essa conta esconde mundos: há setores em que o negócio típico resiste ao triplo do tempo, e cidades onde as empresas envelhecem muito além da média.
Para medir isso, a Plural cruzou os cadastros de CNPJ da Receita Federal e calculou, para cada empresa baixada no estado, o tempo entre a abertura e o encerramento — o "tempo de vida". São 2,3 milhões de negócios encerrados analisados, ao lado de 2 milhões que seguem ativos. O resultado desenha uma anatomia e uma geografia da durabilidade dos negócios paranaenses.
Os setores que resistem
Onde há capital pesado, regulação e demanda que não desaparece, o negócio dura. A indústria extrativa lidera com folga — mediana de 15,2 anos de vida entre as que fecharam —, seguida pela administração pública (13,8). São, porém, universos pequenos, de poucos milhares de registros: o número diz mais sobre a natureza dessas atividades do que sobre um padrão de massa.
O dado robusto vem logo abaixo. A saúde e os serviços sociais mantêm empresas vivas por 7,1 anos na mediana; o comércio e a reparação de veículos — o maior setor do estado, com 723 mil baixas — por 5,2 anos; as atividades financeiras (5,6), as imobiliárias (5,5) e o setor de artes, cultura e esporte (5,4) completam o pelotão dos mais longevos. São atividades de clientela recorrente e barreira de entrada: consultório, loja de rua, imobiliária e financeira não se montam — nem se desmontam — da noite para o dia.
Use o filtro de município no gráfico abaixo para ver como cada cidade muda esse retrato.
Por setor econômico (seção CNAE)
Mediana de anos, todo o Paraná. Ordenado pelo tempo de vida das que fecharam.
O outro extremo: negócios de vida curta
No polo oposto estão as atividades de baixo custo de entrada e alta rotatividade. O grupo "outras atividades de serviços" — salões, manutenção, reparos e serviços pessoais — tem mediana de vida de apenas meio ano entre as que fecharam: são, em boa parte, microempreendedores que abrem e encerram o CNPJ em poucos meses. Transporte (1,5 ano), serviços domésticos (1,6), educação (1,9) e as atividades profissionais e técnicas (2,0) formam a base da pirâmide. Quanto mais fácil abrir, mais jovem é o estoque de empresas — vivas ou mortas.
Filial e porte: tamanho é documento
Quem já tem estrutura dura mais. As filiais paranaenses que fecharam viveram 5,7 anos na mediana, contra 3,0 das matrizes — afinal, só uma empresa consolidada chega a abrir uma segunda unidade. O mesmo vale para o porte: a microempresa, esmagadora maioria, morre mais nova (2,7 anos); as de pequeno porte e as "demais" (faixa que inclui as grandes) chegam a 4,8 anos.
Por tipo
Matriz × filial (mediana de anos).
Por porte
Mediana de anos.
A geografia da longevidade
Entre as maiores cidades, Paranaguá se destaca: a mediana de vida das empresas que fecharam é de 4,5 anos, acima de Curitiba (3,7), Londrina (3,4) e Maringá (3,2). Não é acaso — a economia do porto favorece negócios mais encorpados e de ciclo longo. Já a franja metropolitana de Curitiba, com muito comércio de passagem, tem o giro mais rápido: São José dos Pinhais e Pinhais encerram empresas com mediana de 2,5 anos.
Fora dos grandes centros, a longevidade aparece no interior agrícola e mais estável: Grandes Rios (8,8 anos), Formosa do Oeste (6,9) e São João do Ivaí (6,0) lideram entre os municípios com volume relevante. Vários municípios pequenos, por outro lado, aparecem no extremo oposto, com medianas de meio ano — puxados por um grande volume de micro-registros de vida curtíssima.
Maiores cidades
Mediana de anos, por município (11 maiores por volume de baixas).
| Cidade | Fecharam | Ativas | Baixadas |
|---|
Por que uns duram e outros não
No fim, durar é sobre barreira de entrada e demanda estável. Onde montar o negócio custa caro e o cliente volta — a clínica, a loja, a financeira, o porto —, a empresa envelhece. Onde basta um CNPJ e um celular, o ciclo recomeça a cada poucos meses. A mortalidade precoce não é, sozinha, sinal de fracasso da economia paranaense: é a face de um setor de serviços pessoais que nasce e morre rápido por natureza. Mas ela ajuda a explicar por que, no Paraná, o negócio típico ainda não sopra as quatro velinhas.