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Opinião: Caro prefeito, escola não é estacionamento de criança

Fechar o 6º ao 9º ano em 11 escolas municipais de Curitiba desfaz comunidades que as famílias levaram anos para construir. Vaga na estadual não repõe isso

Opinião: Caro prefeito, escola não é estacionamento de criança
Equipes de robótica das escolas que terão turmas fechadas são recebidas pelo prefeito. Foto: Pedro Ribas/SCMS

Dudu, sei que o senhor tem pouca experiência com questões práticas da vida, mas quero imaginar que, na vida escolar da sua família, o senhor se envolva. Se for o caso, Dudu, o senhor sabe que matricular uma criança em uma escola não é só questão de vaga. Receber uma criança é criar para ela uma comunidade, uma rotina, uma história.

Os pais das onze escolas que o senhor decidiu desmontar — afinal, fechar 113 turmas do 6º ao 9º ano é tirar dessas comunidades, até 2030, quase metade dos seus estudantes — sabem muito bem o que é isso. São pais que veem nessas escolas uma comunidade que acolheu seus filhos. Lá eles têm amigos, conhecem a equipe docente — que muitas vezes acompanha cada estudante há anos —, a rotina da instituição, as festas, os outros pais de alunos.

As escolas dos nossos filhos são parte essencial da nossa vida. É em torno delas que organizamos nosso trabalho, nossa rotina, nossa vida. Na comunidade escolar, fazemos amizades e enfrentamos juntos os desafios de criar crianças neste mundo louco.

Os pais dessas onze escolas — e o restante da comunidade escolar de Curitiba — não têm acesso a essas comunidades por caridade sua, Dudu. Educação, o senhor pode conferir no Memorex, é direito de toda criança. Em Curitiba, quase 70% das crianças e adolescentes de 6 a 14 anos matriculados estudam em escola pública. É um montão de gente que constrói a vida em torno dessas escolas.

Então, Dudu, quando o senhor decide fechar turma, não adianta nada dizer que a vaga está garantida na rede estadual. Porque escola não é estacionamento de criança. É comunidade. É pertencimento. E mudar uma criança de escola não é só questão de colocar uma mesa e uma cadeira a mais dentro da sala de aula.

Dudu, essas famílias todas vão ter que mudar de rotina, reconstruir a comunidade em torno da vida escolar dos filhos, refazer planos. Porque, quando elas matricularam os filhos nessas escolas, não era só porque tinha vaga. Era porque nessas comunidades elas podiam vislumbrar um horizonte de nove anos de pertencimento. Era porque, para muitas delas, essas comunidades já tinham acolhido mais de um integrante da família.

E o calendário não espera: a matrícula para 2027 abre em 23 de novembro. As famílias têm menos de um mês para descobrir para onde vão seus filhos de 10 e 11 anos.

O senhor pode chamar isso de transição. Na escola dos seus filhos, o senhor chamaria de falta de respeito.

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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