Ainda há quem acredite que a eleição do próximo domingo é sobre esquerda e direita. Sobre ser conservador ou progressista.
Não se trata nem mesmo de democracia. Porque não é “só” a democracia que está em risco.
Para saber o que está em jogo no domingo é preciso entender um fato básico da política brasileira dos últimos anos.
O surgimento e o crescimento de um culto da morte. E, sim, é isso que está em jogo na eleição presidencial.
Não é saber quem vai estar no Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos, é saber quem no Brasil vai ter o direito de viver. E quem vai ter que morrer.
A frase mais importante sobre isso foi dita pelo jornalista Alvaro Borba. Segundo ele, a polarização que está em curso no Brasil é entre aqueles que querem ter o direito de viver. E aqueles que querem ter o direito de matar.
De que lado você está?, perguntava o Alvaro.
Parece uma escolha fácil, ao contrário do que dizia um famoso editorial de 2018.
Nem importa muito o que você acha do atual presidente, desde que você entenda que ele é um político normal - alguém que quer governar para que as pessoas vivam bem. Porque isso é a coisa certa. Ou, se você for um tanto cínico, porque isso dá votos. Que seja.
Governos não deveriam querer que as pessoas morressem. Mas desde 2018, nós fomos obrigados a lembrar, no Brasil, que existem governantes assim. Que querem a morte, ao invés da vida.
Antes de 2018, já era possível saber que eles cultuavam a morte. Mas muita gente acreditou que era a morte de grupos específicos.
Das vítimas de grupos de extermínio, que eles elogiavam publicamente no Congresso.
Das vítimas da milícia, que eles homenageavam na Assembleia do Rio e que mantinham em cargos públicos.
Da vereadora negra e lésbica, que foi metralhada em plena rua.
Dos inimigos da ditadura, cujas famílias foram comparadas a cães, por quererem saber do paradeiro de seus ossos.
Da jornalista que foi colocada nua, grávida, com uma jiboia dentro da cela.
Mas o eleitor que votou nos líderes desse culto achavam que a morte seria só dos outros.
E quando negaram a vacina, ficou claro que a morte era para todos.
Faltou o oxigênio. E eles simplesmente informaram, sarcásticos, que não eram coveiros.
Veio a fome, e as pessoas tiveram de comer ossos. E a política deles é a da fome, como na Argentina, onde um terço das crianças está sem ter o suficiente para comer.
Porque o culto à morte vem se espalhando pelo mundo. Como nos Estados Unidos, onde imigrantes são perseguidos e famílias separadas por falta de papéis. Como em El Salvador, modelo do culto à morte, onde as pessoas são presas simplesmente porque o governo não gosta delas e somem - e suas famílias não voltam mais a ouvir dos presos.
Ou, aqui mesmo no Brasil, como no morro do Alemão, onde ao invés de sufocar os líderes do tráfico, a preferência foi matar todos, inclusive os que não tinham mandado nem para ser presos.
Você pode pensar:
- Eu não sou do morro. Não sou uma vereadora negra. Não sou um quilombola, e eles não me medem em arrobas. Não sou árabe, e eles não defendem que Israel me mate. Estou seguro.
Mas ninguém está seguro, dependendo do que acontecer nas urnas no próximo domingo.
Eles já tentaram um Golpe, e tudo leva a crer que tentarão de novo. E, numa ditadura, não existe garantia de que alguém ficará vivo.
Você pode ser o maior apoiador do regime, mas se eles lucrarem com a tua morte, é isso que vai acontecer.
Se um policial te matar por engano, não haverá sequer um pedido de desculpas.
Se você pegar uma doença, eles poderão voltar a te negar tratamento.
Se você por acaso se tornar um incômodo, quem disse que você precisa continuar vivo.
A eleição deste domingo não é sobre Lula nem Flávio. Não é sobre esquerda e direita. Nem é só sobre democracia.
É para decidir se vamos ter gente indo para a Ponta da Praia, para o pau de arara, para as mãos de um novo Brilhante Ustra.
Ou se poderemos ter, ainda, alguma fé na vida e no nosso país.