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Fim do sexto ano: Troca de municipais por estaduais entrega escolas "piores" para estudantes

Dados do IDEB 2025 e do Censo Escolar 2025 mostram que as 11 escolas municipais que terão o 6º ao 9º ano desativados a partir de 2027 entregam, no 5º ano, desempenho entre 6,0 e 7,6 — superior ao que os colégios estaduais vizinhos devolvem no 9º ano, que varia de 4,8 a 7,2. Em pelo menos oito das 11

Fim do sexto ano: Troca de municipais por estaduais entrega escolas "piores" para estudantes

O prêmio por entregar um dos melhores desempenhos do país no IDEB 2025 — tanto no 5º quanto no 9º ano — veio para as 11 escolas municipais de Curitiba na forma de uma carta de encerramento. A partir de 2027, essas unidades deixarão de abrir turmas de 6º ano, e os anos finais do ensino fundamental serão fechados gradativamente nelas, sem consulta prévia às famílias, aos conselhos de escola ou ao Conselho Municipal de Educação. A decisão, confirmada no dia 28 de outubro pela própria Secretaria Municipal da Educação (SME), foi apresentada à comunidade escolar das 11 unidades em uma reunião reservada e permanece sem debate público: a versão oficial, publicada no portal da secretaria, fala apenas em "transição" para a rede estadual.

A reportagem cruzou os microdados do Censo Escolar 2025 do Inep com o IDEB 2025, divulgado em setembro, e com os endereços geocodificados oficiais das escolas para montar, pela primeira vez, o mapa concreto do que a mudança significa para cada criança: para onde ela vai, a que distância, e com que qualidade de ensino na ponta.

O resultado contradiz o argumento, repetido informalmente dentro da gestão, de que a rede estadual absorveria os alunos sem perda pedagógica. Em 7 das 11 escolas afetadas, a média do IDEB anos finais das escolas estaduais em um raio de 3 km é inferior ou está empatada com a nota da própria municipal que fecha. E em todas as 11, o IDEB de anos iniciais das municipais — que mede justamente a qualidade do 5º ano, a última série antes do remanejamento — está acima do IDEB de anos finais da estadual mais próxima que vai receber esse aluno.

O retrato das 11

As escolas municipais em transição são Albert Schweitzer, Novo CAIC Guilherme Lacerda Braga Sobrinho, Cândido Portinari (CAIC), Durival Britto e Silva, Erasmo Pilotto, Herley Mehl, Papa João XXIII, Julia Amália Di Lenna, Maria Clara Brandão Tesserolli, Omar Sabbag e São Miguel. Juntas, atendem 3.706 estudantes do 6º ao 9º ano em 113 turmas, segundo o Censo Escolar 2025. São escolas espalhadas por nove bairros periféricos de Curitiba — CIC, Cajuru, Sítio Cercado, Pilarzinho, Novo Mundo, Portão, Bairro Alto, Barreirinha e Cidade Industrial —, e nenhuma delas é um caso isolado de baixo desempenho que justificasse a desativação do segmento.

Pelo contrário: no IDEB 2025 dos anos finais, as 11 têm média de 5,41 — acima da média nacional das redes municipais (4,83) e muito próxima da média da rede estadual do Paraná em Curitiba, que foi uma das melhores do país no ciclo. Nos anos iniciais, a média das 11 chega a 6,83, com cinco unidades acima de 7,0: Maria Clara Tesserolli (7,6), Omar Sabbag (7,3), São Miguel (7,2), Herley Mehl (7,0) e Papa João XXIII (6,9). Essas são as crianças que, a partir do próximo ano letivo, deixarão de ter a continuidade garantida com a rede que vinha entregando esse resultado.

Mais do que resultado nas avaliações padronizadas, boa parte dessas unidades é hoje referência da própria rede municipal em projetos pedagógicos citados pela gestão nas suas peças de comunicação. Em setembro de 2025, o prefeito Eduardo Pimentel reuniu no Palácio 29 de Março professores e estudantes de quatro escolas municipais que foram ao Torneio Internacional de Robótica no Chile (ITR Chile 2025): a equipe Navegadores da Matrix, da Escola Municipal Erasmo Pilotto (Bairro Alto); a Atomic Bots, da Herley Mehl (Pilarzinho); a Alcateia Robótica, do CAIC Cândido Portinari; e a Robótica Dancers, da Albert Schweitzer (ambas na CIC). Em agosto do mesmo ano, no Torneio Brasil de Robótica, realizado no Parque Barigui, a equipe Cyber Rex, da Escola Municipal Prefeito Omar Sabbag, ficou em primeiro lugar na categoria Middle 1, e a Capivaras Robóticas, da Escola Municipal Papa João XXIII, em terceiro. Num amistoso promovido pelo Colégio Estadual do Paraná, as premiações foram para a Atomic Bots (Herley Mehl, primeiro), a Roboleague, da Escola Municipal Julia Amália Di Lenna, no Barreirinha (segundo), e novamente a Capivaras Robóticas (Papa João XXIII, terceiro). Ou seja: 7 das 11 escolas que a Prefeitura agora pretende esvaziar nos anos finais são as mesmas que o prefeito recebeu no palácio, há pouco mais de um ano, como vitrine da política de robótica educacional da rede municipal — projeto que, segundo a própria SME, recebeu R$ 198 mil de investimento somente entre janeiro e julho de 2025. O desenho da transição não explica o que acontece com essas equipes, com os laboratórios e com os professores formados para esse trabalho quando as turmas de 6º ao 9º ano saírem das escolas que os sediam.

Para onde vão as crianças

O cruzamento entre o Censo e as coordenadas oficiais do Inep (que, pela primeira vez em 2025, publica latitude e longitude por escola) mostra que a estadual mais próxima das 11 unidades fica, em média, a 905 metros da municipal — mas há variação importante. Em Cândido Portinari (CIC), o colégio Eurides Brandão está a 274 metros. Em Omar Sabbag (Cajuru), o Natalia Reginato está a 515 metros. Já em quatro das 11 — Herley Mehl, Maria Clara Tesserolli, São Miguel e Julia Di Lenna — todas as três estaduais mais próximas estão a mais de 1 km, o que significa, para boa parte das crianças, deixar de caminhar entre casa e escola para depender de transporte, de rodovia ou de linha de ônibus.

A tabela abaixo mostra a estadual mais próxima de cada municipal, a distância em linha reta e o IDEB 2025 anos finais da estadual (comparado ao IDEB anos finais da municipal que seus alunos deixarão):

Municipal (bairro) IDEB AF da municipal Estadual mais próxima Distância IDEB AF da estadual
Albert Schweitzer (CIC) 5,5 Dirce C. do Amaral 411 m 6,0 ↑
Novo CAIC (Sítio Cercado) 5,2 Inez V. Borocz 776 m 5,4 ↑
Cândido Portinari (CIC) 5,2 Eurides Brandão 274 m 5,2 =
Durival Britto (Cajuru) 5,6 Natalia Reginato 851 m 5,0 ↓
Erasmo Pilotto (Bairro Alto) 5,2 Pilar Maturana 730 m 6,1 ↑
Herley Mehl (Pilarzinho) 5,1 Bento Rocha Neto 1.007 m 5,5 ↑
Papa João XXIII (Portão) 5,5 João Bettega 931 m 5,0 ↓
Julia Di Lenna (Barreirinha) 5,7 Maria P. Martins 1.093 m 5,6 ↓
Maria Clara Tesserolli (Novo Mundo) 5,7 João O. Franco 1.055 m 5,9 ↑
Omar Sabbag (Cajuru) 5,3 Natalia Reginato 515 m 5,0 ↓
São Miguel (CIC) 5,5 Avelino A. Vieira 1.224 m 5,4 ↓

Em cinco das 11 — Durival Britto, Papa João XXIII, Julia Di Lenna, Omar Sabbag e São Miguel —, o estudante é redirecionado para uma estadual com IDEB menor do que o da municipal que acabou de perder. Em Cândido Portinari, o IDEB é idêntico. Em quatro casos a escola destino tem nota superior, mas em dois deles (Herley Mehl → Bento Rocha Neto, Novo CAIC → Inez Borocz) a diferença é inferior a 0,4 — dentro da margem de ruído do próprio indicador.

A comparação com o IDEB de anos iniciais (5º ano) das municipais, que é o grau de preparo com que o aluno chegaria ao 6º ano, torna a conta ainda mais incômoda. A criança que termina o 5º no Omar Sabbag — unidade com IDEB AI 7,3 — passa a estudar no Natalia Reginato, que entrega IDEB AF 5,0. Em São Miguel (AI 7,2), a 2ª estadual mais próxima, Protásio de Carvalho, tem IDEB AF 4,8 — a pior nota entre todas as estaduais do entorno das 11. Em Maria Clara Tesserolli (AI 7,6), a estadual mais próxima entrega AF 5,9. A trajetória esperada entre anos iniciais e anos finais, no desenho do próprio Inep, é de manutenção ou melhora, não de queda.

O caso Cajuru: duas municipais, uma receptora

Durival Britto e Omar Sabbag ficam a menos de 1,5 km uma da outra, no Cajuru, e ambas apontam para o mesmo trio de estaduais mais próximas: Natalia Reginato, Olivio Belich e Julio Mesquita. Natalia Reginato é a mais próxima para as duas — está a 851 m da Durival Britto e a 515 m da Omar Sabbag. Mas o colégio tem hoje três turmas de 6º ano, somando 50 alunos matriculados em 2025. Receber a demanda somada das duas municipais afetadas — 194 crianças no 6º ano, em 2027 — significaria quadruplicar a entrada em um ano, o que a infraestrutura atual não comporta sem abrir turmas novas ou redirecionar o excedente para unidades mais distantes.

Olivio Belich, a 1,2 km de Omar Sabbag e 1,3 km de Durival Britto, tem IDEB 5,0 — abaixo das duas municipais. Julio Mesquita, a 1,2 km, tem IDEB 5,7, mas já atende hoje três turmas de 6º com média de 26 alunos cada. Nenhuma das três é hoje a melhor estadual do Cajuru pelo IDEB: a melhor é a República Oriental do Uruguai, com IDEB 6,2, situada a 1,6 km da Durival Britto. Para chegar lá a partir das duas municipais, o aluno precisaria atravessar bairros vizinhos.

O caso Pilarzinho: tudo acima de 1 km

Herley Mehl é a municipal em situação logística mais apertada do levantamento. A estadual mais próxima — Bento Rocha Neto, com IDEB 5,5 — fica a 1 km. A segunda e a terceira (Ernani Vidal, no São Lourenço, 1,6 km; Sebastião Saporski, no Taboão, 1,7 km) estão em bairros distintos do Pilarzinho. Juntas, as oito estaduais em raio de 3 km da Herley Mehl atendem hoje 223 alunos no 6º ano. A capacidade teórica dessas unidades, a 35 alunos por turma — o máximo legal, raramente adotado como padrão de qualidade na própria rede estadual —, seria de 350 vagas. A folga de 127 vagas depende de que todas essas estaduais aceitem absorver a demanda e que as famílias topem matricular os filhos em escolas distantes de casa. A Herley Mehl tem hoje 62 alunos no 6º ano. No pior cenário, metade dessas crianças precisaria caminhar mais de 1,5 km duas vezes por dia.

A métrica que a Prefeitura precisa explicar

A SME tem repetido, em comunicações internas e no anúncio público, que a mudança busca "qualificar" a oferta e redistribuir o espaço físico das escolas municipais para expansão da educação infantil e do ensino em tempo integral. O argumento esbarra em três fatos documentados nos próprios dados do Inep. As 11 escolas afetadas entregam, no 9º ano, resultado médio de 5,41 — praticamente idêntico ao da rede estadual do Paraná em Curitiba (5,63) e bem superior à média municipal brasileira (4,83). Nos anos iniciais, essas unidades estão entre as melhores do país: a média de 6,83 fica acima da média da rede municipal brasileira para o segmento (6,22) e no mesmo patamar das redes privadas. E, no cruzamento feito pela reportagem, a diferença média entre o IDEB AF das municipais e o das estaduais mais próximas é de apenas 0,13 ponto — com metade dos casos a favor da municipal.

Ou seja: a tese de que a transferência melhora a trajetória do aluno — que depende de a estadual destino entregar mais do que a municipal de origem — não se sustenta nos dados oficiais em pelo menos cinco das 11 unidades afetadas. Nas outras seis, a melhora é marginal ou dependente de o aluno conseguir chegar justamente à estadual com melhor nota do entorno, o que não é o cenário mais provável para famílias que moram perto da municipal.


Como esta reportagem foi produzida.

As matrículas por escola e por série, bem como o número de turmas, foram extraídas dos microdados do Censo Escolar 2025 do Inep, publicados em julho de 2026. As notas de IDEB — tanto anos iniciais quanto anos finais — vêm da divulgação do Inep de setembro de 2026. As coordenadas geográficas das escolas (latitude e longitude) saem da Tabela_Escola_2025 do próprio Censo, variável que o Inep passou a publicar pela primeira vez nesta edição; as distâncias entre municipais e estaduais foram calculadas em linha reta pela fórmula de Haversine, de modo que o "raio de 3 km" referido no texto corresponde à distância geodésica, não ao trajeto efetivo por via. A referência de capacidade teórica de 35 alunos por turma corresponde ao teto legal da rede estadual do Paraná — na prática, a média real nas estaduais de Curitiba em 2025 varia entre 27 e 29 alunos por turma, segundo o próprio Censo.

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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