A Prefeitura de Curitiba confirmou, em documento oficial enviado à Câmara Municipal, que está estudando a reorganização da oferta de 6º ao 9º ano do ensino fundamental na rede municipal — a mesma mudança que a comunidade escolar de 11 escolas denuncia, há semanas, como um fechamento gradativo já pactuado internamente. A confirmação veio em uma única linha. Em 19 de outubro, a Secretaria Municipal da Educação respondeu em um parágrafo às 30 perguntas detalhadas do Pedido de Informação 062.01738/2026, apresentado pela vereadora Camilla Gonda (PT): "esta Secretaria Municipal da Educação está realizando estudos e análises acerca da organização da oferta educacional dos Anos Finais do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano). Ressaltamos que, até o presente momento, não há decisão administrativa formalizada quanto à redução, ao encerramento ou à transferência dessa oferta para a Rede Estadual de Ensino".
A resposta, de 70 palavras, não enfrenta nenhum dos quesitos pedidos. A proposição apresentada em 5 de outubro pela vereadora pede, entre outras coisas, a lista das escolas afetadas, o número de turmas e vagas em cada uma, os critérios e o cronograma do que estaria sendo estudado, as orientações formais ou verbais eventualmente enviadas pelos Núcleos Regionais da Educação às direções escolares, as tratativas com a Secretaria de Estado da Educação para absorver os estudantes, o número de docentes atingidos — a estimativa do SISMMAC, Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Curitiba, é de mais de 300 —, as alternativas examinadas e os impactos sobre educação inclusiva, projetos de robótica, iniciação científica e esporte desenvolvidos nessas unidades. Nada disso foi respondido.
Segundo o próprio pedido da vereadora, baseado em matéria publicada pelo SISMMAC em 2 de outubro, a SME confirmou em reunião com o sindicato realizada no dia 1º de outubro que os estudos estão em curso, inclusive jurídicos, enquanto Núcleos Regionais da Educação já estariam, de acordo com o relato sindical, orientando a examinar o encerramento de turmas de 6º ano a partir de 2027. É esse descompasso — "em estudo" no papel, mas sendo preparado nas escolas, sem comunicação às famílias — que mobilizou a comunidade escolar nas últimas semanas.
Famílias e profissionais da educação ouvidos pela reportagem relatam que a Secretaria Municipal da Educação convocou recentemente, em reunião reservada, representantes das 11 escolas afetadas, acompanhada da gerência de ensino fundamental e das chefias de núcleo regional, e comunicou que, no fluxo de matrícula de 2027, as turmas de 6º ano não serão abertas. A orientação, segundo esses relatos, foi de que a informação não fosse repassada às comunidades escolares. É por isso, dizem as famílias, que quando procuram a escola ouvem que "não há nada definido". Famílias que registraram manifestações pelo canal 1.56 relatam que o pedido é redirecionado à própria escola, que não responde. O modelo em discussão, segundo os mesmos relatos, prevê fechamento gradativo: em 2027, não se abrem turmas de 6º ano; em 2028, não se abrem 6º nem 7º; e assim por diante, até esvaziar o atendimento aos anos finais.
Para muitas famílias, a mudança atinge projetos de vida construídos ao longo de anos. É o caso de mães que, acreditando que a oferta municipal seguiria estável, transferiram filhos no meio do 5º ano para escolas da rede justamente para garantir a vaga do 6º — a legislação assegura prioridade a quem já é aluno da unidade — e agora correm o risco de readaptar a criança pela segunda vez em um ano. É também o caso de famílias de crianças com deficiência, autismo e altas habilidades, para as quais a transição entre redes significa, na prática, perder vínculos pedagógicos, profissionais de apoio e serviços de atendimento educacional especializado construídos ao longo de anos. O próprio pedido de informação da vereadora Camilla Gonda questiona, em quesito específico, as práticas de inclusão desenvolvidas na Escola Municipal Papa João XXIII, uma das 11 ameaçadas, e o impacto de eventual transferência sobre estudantes com deficiência, transtorno do espectro autista e altas habilidades. Em outro quesito, pergunta o que seria feito dos projetos de robótica, iniciação científica, cultura e esporte vinculados aos anos finais, com menção explícita a investimentos existentes nas escolas municipais Coronel Durival Britto e Silva e Prefeito Omar Sabbag.
Escolas com desempenho acima da média nacional
Os dados do Inep contradizem a ideia de que essas 11 escolas precisariam ser "desativadas" nos anos finais por mau desempenho. Pelo contrário: elas têm IDEB 2025 entre 5,1 e 5,7, com média de 5,4 — acima da média de 4,99 das escolas públicas brasileiras nos anos finais do ensino fundamental e bem acima da média de 4,83 das redes municipais do país no mesmo segmento. Para efeito de comparação local, a média da rede estadual de Curitiba, que absorveria esses alunos, é de 5,63 — praticamente o mesmo patamar, com algumas unidades municipais superando essa média. É o caso da Escola Municipal Julia Amália Di Lenna e da Escola Municipal Maria Clara Brandão Tesserolli, ambas com IDEB 5,7; do Centro de Ensino em Letramento Durival Britto e Silva (5,6); e das escolas Albert Schweitzer, Papa João XXIII e São Miguel, todas com IDEB 5,5. As outras cinco — o Novo CAIC Guilherme Lacerda Braga Sobrinho, a Escola Municipal Cândido Portinari (CAIC), a Escola Municipal Erasmo Pilotto, a Escola Municipal Omar Sabbag e a Escola Municipal Herley Mehl — ficam entre 5,1 e 5,3, ainda assim bem acima da média nacional das redes municipais.
As notas de proficiência do SAEB 2025 contam a mesma história. Em matemática, as 11 escolas tiveram desempenho entre 248 e 277 pontos, com média próxima de 264 — número alinhado ao da própria rede estadual do Paraná (277), que foi a melhor do Brasil no ciclo, e bem acima dos 253 pontos da média das redes municipais brasileiras. Em língua portuguesa, as médias das 11 escolas superam, em quase todos os casos, a média nacional pública. Mais revelador talvez seja o indicador de distorção idade-série, que mede o percentual de alunos matriculados em uma série abaixo da esperada para a idade: nas 11 escolas, a média é de 5%, ante 5,6% das escolas estaduais de Curitiba — ou seja, o aluno municipal da periferia que a Prefeitura considera transferir chega hoje aos anos finais com menos atraso escolar do que o aluno das estaduais que o receberiam. Em várias dessas unidades, como São Miguel, Herley Mehl e Durival Britto e Silva, a distorção é inferior a 4%.
Corrida contra o calendário de matrícula
A preocupação da comunidade escolar é com o calendário. O período de matrícula e rematrícula para 2027 começa em novembro e, no modelo em discussão internamente, os alunos dos anos finais seriam automaticamente redirecionados à rede estadual, sem debate público prévio. Famílias ouvidas pela reportagem apontam que as escolas estaduais do entorno das 11 unidades já operam com a demanda saturada e que, segundo informações circulando entre as comunidades escolares, parte dos estudantes acabaria deslocada para colégios em outros bairros, inclusive em outra regional, longe das comunidades em que hoje estudam. Em algumas das escolas afetadas, estima-se que o fim da oferta de 6º ano em 2027 significaria em torno de 120 crianças por unidade a serem redistribuídas entre dois colégios estaduais mais próximos — e, nos casos em que esses dois já estão cheios, para unidades mais distantes, inclusive atravessando rodovia. Não há, até o momento, política pública anunciada de transporte escolar para esse remanejamento, o que preocupa particularmente famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica em bairros como Caiuá, Sabará, Alto Boqueirão, Cajuru, Bairro Novo e Sítio Cercado.
A justificativa que circula na comunidade escolar é de que a Prefeitura precisaria dos prédios para expandir vagas de educação infantil e de educação em tempo integral. O argumento, porém, esbarra em duas incoerências: a maior parte das escolas que seriam esvaziadas é formada por CAICs e unidades integrais historicamente concebidas como escolas de ciclo completo em bairros periféricos; e o Plano Municipal de Educação aprovado em 2026 reduziu a meta de atendimento em creche de 100% para 60%, o que enfraquece a tese de falta de espaço como justificativa para desmontar o atendimento aos anos finais.
Reação começa nas comunidades escolares
A reação começou nas próprias comunidades escolares. Grupos de WhatsApp foram organizados por mães, pais e responsáveis para articular ações em bloco. Atos em frente às escolas começaram a ser realizados, com apoio de carro de som cedido pelo SISMMAC, e vereadores de oposição foram procurados pelas famílias — a vereadora Camilla Gonda já protocolou pedido formal, respondido com evasiva, e outros mandatos acompanham o caso.
O movimento tem um apelo central: que a Prefeitura torne pública a decisão antes do envio das cartas de rematrícula, abra consulta às comunidades escolares e ao Conselho Municipal de Educação, e explique onde, com qual capacidade e sob quais condições os estudantes hoje matriculados nos anos finais da rede municipal — além dos que estão no 5º ano em escolas municipais e esperam continuar na mesma rede em 2027 — seriam acomodados. Até o fechamento desta reportagem, a Secretaria Municipal da Educação não havia dado nenhuma informação além do parágrafo enviado à Câmara. O Plural seguirá apurando a resposta oficial da Prefeitura e publicará nova matéria com o posicionamento da gestão municipal.