Em 14 de agosto, a Defesa Civil do Paraná e o Simepar divulgaram uma nota técnica sobre o fortalecimento do El Niño e seus possíveis impactos entre a primavera de 2026 e o início de 2027. O documento aponta a possibilidade de chuvas acima da média e o aumento dos riscos de inundações, enxurradas e deslizamentos.
O cenário exige preparação, prevenção e acompanhamento permanente dos alertas meteorológicos. Mas também reforça uma decisão que precisa permanecer na agenda pública para além dos períodos de emergência: conservar os ambientes naturais que ajudam a proteger nossas cidades e comunidades.
Entre Paraná, São Paulo e Santa Catarina, temos o privilégio de contar com o maior remanescente contínuo bem conservado de Mata Atlântica do planeta. A Grande Reserva Mata Atlântica abrange aproximadamente 3 milhões de hectares de florestas e outros ambientes naturais terrestres, conectados a uma extensa área marinha. Essa paisagem guarda biodiversidade e culturas locais, protege mananciais e cria oportunidades de desenvolvimento. Seu valor alcança também quem vive nas cidades e talvez nunca tenha percorrido uma de suas trilhas.
Trata-se de uma infraestrutura verde que já está em funcionamento. Quando conservamos ecossistemas para enfrentar problemas como insegurança hídrica e vulnerabilidade climática, recorremos a soluções baseadas nos ecossistemas, inseridas no campo mais amplo das Soluções Baseadas na Natureza. A tecnologia, nesse caso, está no funcionamento integrado do solo, da vegetação, da água e da biodiversidade. Manter esse sistema íntegro é uma escolha estratégica de investimento público e privado.
Nas florestas, a cobertura vegetal e a matéria orgânica presente no solo favorecem a infiltração da água e ajudam a reduzir a erosão. As raízes contribuem para a estabilidade das camadas superficiais das encostas, enquanto a vegetação nas margens dos rios retém sedimentos e protege a qualidade da água. Esses processos beneficiam os mananciais e podem diminuir parte do escoamento superficial rápido, a depender das características da chuva e da bacia hidrográfica.
Áreas úmidas e planícies de inundação oferecem espaço para o armazenamento temporário da água. No litoral, os manguezais podem dissipar a energia das ondas e reduzir danos provocados por inundações costeiras. Restingas e dunas vegetadas também integram os sistemas naturais de proteção da costa.
Conservar esses ambientes significa manter funções essenciais que a ocupação inadequada do território pode comprometer justamente nos locais em que mais precisamos de proteção. Ignorar esses processos naturais não apenas amplia prejuízos econômicos, como também expõe comunidades inteiras a riscos evitáveis.
É preciso reconhecer, no entanto, que essa capacidade tem limites. Chuvas extremas podem saturar o solo e provocar deslizamentos até mesmo em encostas florestadas. As mudanças climáticas estão alterando padrões históricos e ampliando a ocorrência e a intensidade de determinados eventos extremos.
Por isso, a conservação precisa estar associada a políticas de moradia segura, ordenamento territorial, drenagem urbana, obras tecnicamente necessárias, fiscalização e sistemas eficientes de monitoramento e alerta. Reconhecer os limites da proteção oferecida pelos ecossistemas permite incorporar a natureza às estratégias de prevenção com seriedade, sem prometer imunidade diante dos desastres.
Os benefícios também dependem da escala. Unidades de Conservação são essenciais, mas precisam estar inseridas em um território que preserve as conexões ecológicas e o funcionamento das bacias hidrográficas. A água atravessa limites de propriedades e municípios. Proteger uma nascente perde parte de sua eficácia se, ao longo do percurso, o rio recebe sedimentos, poluição ou sofre com ocupações inadequadas.
A conservação em escala de paisagem permite cuidar dessas relações, articulando florestas, rios, áreas úmidas e ambientes costeiros. É nesse horizonte que atua a iniciativa Grande Reserva Mata Atlântica, uma rede voluntária que aproxima comunidades, empreendedores, poder público, organizações e pesquisadores.
Nossa missão conecta a conservação dos ecossistemas e a valorização da cultura e da história locais ao desenvolvimento socioeconômico, tendo o ecoturismo como principal vetor. A paisagem conservada é a base dessa proposta e também de sua capacidade de contribuir para a adaptação às mudanças climáticas.
O conceito de “produção de natureza” parte desse entendimento: ecossistemas vivos e bem conservados geram benefícios contínuos para a sociedade e criam oportunidades econômicas compatíveis com sua manutenção. Para que esse potencial se traduza em desenvolvimento, precisamos investir em qualificação profissional, negócios locais e participação das comunidades nas decisões. O turismo, por sua vez, deve ser planejado e respeitar os limites de visitação adequados a cada ambiente.
Na prevenção de desastres, a comparação econômica precisa considerar não apenas o custo de conservar, mas também os prejuízos que podem ser evitados ou reduzidos. Uma inundação pode interromper atividades produtivas, comprometer o abastecimento, danificar estradas e destruir moradias, além de exigir investimentos elevados em reconstrução.
Um estudo publicado em 2020 na revista científica Scientific Reports, do grupo Nature, estimou que os manguezais proporcionam mais de US$ 65 bilhões por ano em benefícios relacionados à proteção contra inundações em todo o mundo. Trata-se de uma estimativa global, que não pode ser transferida diretamente para a realidade da Grande Reserva Mata Atlântica, mas que demonstra que a proteção oferecida pela natureza possui valor econômico concreto e mensurável.
Em nosso território, esse valor precisa ser incorporado às decisões sobre uso do solo e direcionamento de investimentos. Ao avaliar a conservação de uma bacia hidrográfica, de uma floresta ou de um manguezal, devem entrar na conta os riscos para as pessoas, para o abastecimento de água, para as atividades econômicas e para a biodiversidade.
Nossa qualidade de vida futura depende dessas escolhas. Ainda contamos com áreas naturais bem conservadas, mas esse patrimônio exige investimento permanente, planejamento e cuidado.
O alerta relacionado ao El Niño deve mobilizar respostas imediatas e, ao mesmo tempo, fortalecer decisões de longo prazo. Governos, empresas e sociedade podem apoiar a gestão das áreas protegidas, conservar mananciais, aperfeiçoar políticas públicas, recuperar conexões ecológicas e ampliar mercados para negócios comprometidos com a natureza.
Em um mundo que busca novas tecnologias para enfrentar os desafios climáticos, nem toda solução precisa chegar de um país distante ou depender de uma invenção milagrosa. Parte das respostas já está aqui, ao nosso lado, nos ambientes naturais que conseguimos conservar.
Inovar também é reconhecer esse patrimônio e unir ciência, conhecimentos locais, políticas públicas e investimentos para ampliar seus benefícios. O Brasil tem a oportunidade de se tornar uma referência mundial ao demonstrar como a conservação pode proteger pessoas, gerar trabalho e renda e orientar o desenvolvimento.
A Grande Reserva Mata Atlântica nos oferece uma base concreta para construir esse futuro a partir do que temos de mais valioso.