Pular para o conteúdo

Os Edifícios Dom Pedro I e II: por que usar esses nomes para prédios da UFPR?

Será que desejamos continuar homenageando imperadores e usando os termos de uma lei da ditadura?

Os Edifícios Dom Pedro I e II: por que usar esses nomes para prédios da UFPR?
Estudantes e Docentes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Paraná em evento de colação de grau, 1964. Fonte: Fundo de Arquivos do DEHIS-UFPR, cota documental 2020020/1-1

Ao Prof. Ulf Baranow (1938-2026), in memoriam, que encarnou, como poucos, o amor pela história da UFPR.

A fotografia acima reproduzida, de 1964, retrata formandas e formandos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Paraná, acompanhados por um bom número de docentes. Alguém minimamente familiarizado com o Campus Reitoria não terá dificuldade em situar a paisagem. Tirada a partir do pátio, ela dá a ver alguns pilares e a escadaria de acesso do prédio que, hoje, chama-se Dom Pedro I. Eis aí, nesse “hoje”, o nó da questão. O fato é que nem sempre as duas maiores torres do campus renderam homenagens aos imperadores brasileiros. De 1958, quando inauguradas, a 1972, elas eram simplesmente referidas pelos nomes das faculdades que abrigavam, como ainda é possível ler nos letreiros em metal colados às fachadas das edificações e visíveis a partir da Rua XV de Novembro. O Dom Pedro I, à época da fotografia, era “o prédio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras”. Já o Dom Pedro II ostentava o título de “prédio da Faculdade de Ciências Econômicas”.

A inconstância dos nomes incita a refletir sobre as circunstâncias e os sentidos das nomeações. Nessa dimensão muito particular do mundo natural que se convenciona chamar de social, nenhuma etiqueta encerra uma essência imutável, ou um destino. Quando atrelados a espaços, os rótulos, se devidamente problematizados, ajudam ainda a romper a ilusão escolástica da quantidade pura. De fato, não basta esquadrinhar com régua e compasso uma sala, um prédio, ou um campus para explicar a importância que cada um deles tem para quem os frequenta. Nomear um local significa, antes de mais tudo, qualificá-lo. Renomeá-lo implica, pois, requalificação. E aqui, os nomes conduzem aos numes: na sobreposição imperfeita entre as palavras e as coisas, eles dão a ver os ideais cultuados, seus ocasos e suas transformações. O problema que se coloca no título do presente texto parte dessas premissas. No caso do Campus Reitoria, afinal, o que motiva e permite novos nomes para os prédios, a ponto de os antigos terem caído em total desuso? E há mais: por que, dentre todos os nomes possíveis, são escolhidos aqueles de dois monarcas que, além de há muito falecidos, foram e continuam sendo personagens controversos?

As respostas a essas questões devem ser buscadas na articulação entre o Sesquicentenário da Independência do Brasil e o desfecho da Reforma Universitária, os quais remetem, por sua vez, às políticas, memoriais e educacionais, do regime ditatorial que assolou o país entre 1964 e 1985. O ano da mudança dos nomes, 1972, é aqui um bom ponto de partida.

Em primeiro lugar, é ele que dá ensejo ao evento comemorativo. Os 150 anos da Independência do Brasil, oficialmente celebrados entre abril e setembro, representam talvez a mais abrangente campanha autopromocional de um regime antidemocrático ávido por se legitimar. A festa cívica é o lado visível desse esforço, cuja contraparte sombria se faz sentir nos porões da repressão. O ponto nevrálgico da faceta pública passa pelo culto de um seleto conjunto de heróis da nação, os do passado e os do presente. As comemorações se iniciam no dia 21 de abril, data do martírio de Tiradentes, o primeiro “sonho brasileiro de liberdade”. No dia seguinte, o esquife com a maior parte dos restos mortais do “herói maior” da independência, Dom Pedro I, chegam de Portugal para aqui encontrar sua morada definitiva. Em um gesto de aproximação com o regime ditatorial salazarista, a cúpula militar brasileira investe no discurso ufanista acerca da grande civilização lusitana, cristã e ordeira, que supostamente uniria os povos na figura do antigo governante partilhado pelos dois países. Aposta-se igualmente na confusão entre as imagens do primeiro imperador, o libertador original da nação, e do ditador de circunstância, o general Emílio Garrastazu Médici, que teria renovado o gesto de Dom Pedro ao banir as ameaças externas, então enquadradas sob a alcunha de “comunistas”. Justificava-se a ditadura, inclusive, em nome desse combate “libertador”. O que se assiste nos meses seguintes é uma sequência de desfiles públicos em mais de vinte cidades do país, aos quais se soma o torneiro futebolístico da Taça Independência, reunindo 15 seleções de diversos países. As datas críticas que encerram as comemorações são o lançamento nacional, no dia 2 de setembro, do filme “Independência ou Morte”, patrocinado pelo regime, e, por fim, cinco dias mais tarde, a inumação dos restos mortais do imperador na capela do Monumento do Ipiranga, em São Paulo.

 

Efígies de Dom Pedro I e Emílio Garrastazu Médici na moeda comemorativa de 1 cruzeiro (1972). Fonte: Wiki Commons.

Curitiba participa ativamente desse “grande culto cívico”. Espelhando a programação nacional, as comemorações aqui se iniciam na Praça Tiradentes, no dia 21 de abril. Nove dias mais tarde, vindos de Florianópolis em um avião militar, chegam à capital do Paraná os restos mortais de Dom Pedro I. Instalados inicialmente sobre um tanque de guerra, eles percorrem as ruas entre o Aeroporto Afonso Pena e o Palácio Iguaçu, onde permanecem expostos para visitação pública por três dias. Curitiba acolhe ainda, no Estádio Belford Duarte, que mudaria de nome para Major Couto Pereira cinco anos depois, os jogos da Taça Independência entre Bolívia e Peru (11 de junho), bem como entre Iugoslávia e Venezuela (14 de junho). A própria universidade toma parte nas comemorações, organizando em conjunto com a Biblioteca Pública do Paraná o evento “O Paraná na Conjuntura da Emancipação”, entre os dias 2 e 4 de agosto. A ele se seguiu uma cerimônia solene realizada na manhã do dia 02 de setembro, com a presença do então Reitor, Algacyr Munhos Mader, em pleno teatro da Reitoria. Ora, é justamente entre esses dois eventos universitários que os prédios do campus são rebatizados. O pedido, feito pelo Instituto de Ciências Humanas, é aprovado no Conselho Universitário na reunião de agosto (processo no. 34.663). Heróis nacionais bem talhado ao gosto do regime vigente entram assim na, e se confundem com a, morada das ciências e das artes.

Fotogramas de "O Sesquicentenário da Independência", informe publicitário do regime militar com imagens do translado do corpo de Dom Pedro I em Curitiba. Fonte: Acervo do Arquivo Nacional.

 

Ocorre apenas que esses fatos, isolados, não bastam para explicar a imposição dos novos nomes. Deve-se ainda entender a razão de os antigos não terem sido fortes o suficiente para se manter. E é aqui que a Reforma Universitária, ampla intervenção política na educação superior sob pretexto “modernizador”, impõe-se. Iniciada com a lei 5.440 de 1968, ela representa na prática o sepultamento tanto das experiências universitárias anteriores, por demais alinhadas a modelos europeus, quanto de projetos modernizadores de cunho democrático, sobretudo no âmbito da recém-fundada Universidade de Brasília. No caso específico da Universidade Federal do Paraná, a Reforma é realizada entre 1968 e 1972, implicando sucessivas mudanças de regimentos. Do ponto de vista estrutural, e em resumo, ela sacramenta o desaparecimento de duas instâncias outrora fundamentais: as cátedras e as faculdades. As primeiras nada mais são que unidades hierárquicas organizadas em torno de um ramo específico do conhecimento e de um(a) professor(a). A cátedra era responsável por certas disciplinas e, a depender da carga horária sob sua responsabilidade, poderia contar com um número maior ou menor de colaboradores. As Faculdades eram precisamente formadas pela reunião dessas cátedras, tendo seus titulares – os/as catedráticos(as) – assento na Congregação das unidades. Eram essas Congregações as instâncias base de discussão para promover mudanças curriculares e discutir expansões ou aberturas de curso, o que permite composições hoje inusitadas entre representantes das mais distintas áreas. Na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, fundada em 1938 e incorporada à Universidade do Paraná em 1946, isso implica um cenário de debates em que votos de catedráticos das “humanidades” poderiam fazer a diferença em discussões relativas a cátedras hoje institucionalmente afastadas dessa área (por exemplo, exatas ou biológicas).

A Reforma Universitária destrói tudo isso. Tal como o regime ditatorial faz com as antigas instâncias partidárias, declarando-as ilegais, ou então obrigando mais tarde as agremiações a não mais se intitularem “partidos”, ele também promove uma mudança drástica no vocabulário da ciência. Guiado pelo acordo MEC-Usaid, o regime ditatorial cria, no lugar das antigas instâncias, os invólucros burocráticos característicos da universidade estadunidense. No lugar das cátedras, criam-se as coordenações de cursos e os departamentos, que isolam em novos invólucros burocráticos e corporativos cada saber particular. Acima dessas instâncias base, para usar os termos da lei 5440, estão os novos setores. Nominalmente, eles substituem as Faculdades, mas, na prática, seu funcionamento é outro. O Setor é uma instância suplementar e superior de burocracia, e não uma instância colegial de base. Nele, as novas unidades base – departamentos e coordenações de cursos – são representadas por chefias e coordenadores que disputam, entre si, recursos de vários tipos, em especial humanos e financeiros. Além disso, em muitos casos sequer há uma sobreposição direta, pois a antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras deu origem, ela própria, à maior parte dos Setores hoje ativos na UFPR (Exatas, Biológicas, Ciências da Terra, Humanas, Artes, Comunicação e Design). A congregação dessa faculdade se reúne pela última vez em 21 de maio de 1969, com a Reforma Universitária em andamento e quando seu estágio de decomposição em vários “institutos” já estava bem avançado. Em 28 de fevereiro de 1972, finda a Reforma, seu Diretor, o Professor Brasil Pinheiro Machado, oficialmente comunicou à comunidade acadêmica sua extinção. Não havia mais, portanto, Faculdades para nomear os prédios. Explica-se, assim, a conveniência da troca.

De todo modo, não deixa de ser espantoso perceber que muitos desses rótulos cunhados em pleno período ditatorial continuam demonstrando enorme resistência. A UFPR, por exemplo, está entre as poucas federais que jamais reviu a designação “setor”. O mesmo pode ser dito dos nomes de prédios arquitetonicamente tão emblemáticos quanto aqueles que do Campus Reitoria. Entender esses processos de nomeação não só ajuda a historicizar os espaços que se frequenta, mas também a problematizá-los. Afinal, deseja-se, em 2026, continuar homenageando imperadores ou utilizando os mesmos termos da lei 5440/68 para designar e organizar as unidades de uma instituição de ensino? Independente das diferentes tomadas de posição possíveis, o que importa mais é explicitar razões e fundamentar argumentos. Se a opção for mudar, outros nomes, e outros numes, podem ser aqui convocados. Pode-se pensar, talvez, em algo mais adequado a um país que se quer plural e democrático.

Newsletter

O que aconteceu em Curitiba e no Paraná hoje, em cinco minutos

De segunda a sexta, no fim do dia, direto no seu e-mail.

Sem spam. Você pode cancelar quando quiser.

Falta um passo

Enviamos um link para o seu e-mail. Clique nele para confirmar o cadastro.

Não conseguimos concluir agora. Tente de novo em instantes.

Assuntos: Curitiba Artigos

Mais em Curitiba

Ver todos