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Antes do anúncio, escolas que vão perder o 6º ano já tinham perdido metade dos alunos

Desde 2017, as 11 escolas municipais de Curitiba com anos finais perderam 46% das matrículas e fecharam 107 de 220 turmas, enquanto a etapa encolheu 12% na cidade. As turmas que ficaram seguiram cheias. A Albert Schweitzer não abriu o 6º ano em 2023, e a lacuna já chegou ao 8º.

Antes do anúncio, escolas que vão perder o 6º ano já tinham perdido metade dos alunos
Escola Albert Schweitzer. Foto: SCMS

As 11 escolas municipais de Curitiba que vão deixar de oferecer o 6º ao 9º ano a partir de 2027 já tinham perdido mais da metade dos alunos dessa etapa antes do anúncio da prefeitura. Segundo os microdados do Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), elas tinham 7.768 matrículas nos anos finais em 2007 e 3.706 em 2025, uma queda de 52%. O número de turmas caiu na mesma proporção, de 241 para 113. No mesmo período, as matrículas do 6º ao 9º ano em todas as redes da cidade caíram 26%.

A maior parte da redução é recente. Entre 2007 e 2017, as 11 escolas perderam 11% das matrículas de anos finais, menos que a rede estadual em Curitiba, que perdeu 29%. De 2017 a 2025, perderam 46% e fecharam 107 das 220 turmas que tinham. Nesses oito anos, as matrículas de anos finais caíram 12% na cidade como um todo e também 12% na rede estadual. Ou seja: a etapa encolheu em Curitiba, mas nas escolas municipais encolheu quase quatro vezes mais rápido.

Desde 2007, as 11 escolas perderam 4.062 matrículas de anos finais, mais do que as 3.706 que ainda restam. Pelo plano anunciado em 29 de outubro, essas vagas deixam de existir até 2030.

Ano Matrículas nas 11 municipais Turmas Alunos por turma Matrículas de anos finais em Curitiba (todas as redes)
2007 7.768 241 32,2 118.227
2011 7.445 231 32,2 119.759
2015 6.867 224 30,7 101.865
2017 6.910 220 31,4 98.832
2019 5.868 192 30,6 97.725
2021 4.960 158 31,4 86.324
2022 4.394 142 30,9 94.048
2023 4.117 129 31,9 91.279
2024 3.825 119 32,1 91.663
2025 3.706 113 32,8 87.147

Fonte: microdados do Censo Escolar (Inep). Anos com microdados na base da reportagem.

Menos turmas, turmas cheias

As turmas que continuaram abertas não ficaram vazias. Em 2025, as 11 escolas tinham em média 32,8 alunos por turma de anos finais, um pouco mais que em 2007 (32,2). Nas escolas estaduais de Curitiba, a média caiu de 32,9 para 28,2 no mesmo período.

A diferença está no ritmo com que cada rede fechou turmas. Na rede estadual, de 2007 a 2025, as turmas de anos finais diminuíram 28% e os alunos, 38%, e por isso cada turma ficou menor. Nas 11 municipais, turmas e alunos caíram juntos, 53% e 52%, e a média por turma se manteve.

O Censo Escolar registra as matrículas e as turmas que existiram, e não a procura. Os dados não mostram se as turmas foram fechadas por falta de interessados ou por decisão da rede. Mostram que, ano após ano, as turmas que sobraram seguiram com mais de 30 alunos em média.

A queda nas 11 escolas também é maior que a dos anos iniciais (1º ao 5º ano) na rede municipal, cujas matrículas caíram 17% desde 2017. Hoje as escolas municipais respondem por 4,3% das matrículas de anos finais em Curitiba. Em 2017, eram 7%.

Escola por escola

A redução não foi igual nas 11. Desde 2017, a Albert Schweitzer perdeu 77% dos alunos de anos finais e o Novo CAIC Guilherme Lacerda Braga Sobrinho, 70%. A Papa João XXIII perdeu 60%. A São Miguel foi a que menos encolheu, 18%.

Escola Matrículas 2007 2017 2025 Variação 2017–2025 Turmas 2017 → 2025
Albert Schweitzer (Cidade Industrial) 982 980 226 −77% 30 → 7
Novo CAIC (Sítio Cercado) 1.194 997 304 −70% 35 → 9
Papa João XXIII (Portão) 732 711 283 −60% 22 → 8
Cândido Portinari (Cidade Industrial) 966 986 558 −43% 30 → 16
Durival Britto e Silva (Cajuru) 446 370 234 −37% 13 → 9
Herley Mehl (Pilarzinho) 447 383 247 −36% 12 → 8
Omar Sabbag (Cajuru) 921 703 455 −35% 23 → 14
Maria Clara B. Tesserolli (Novo Mundo) 452 467 337 −28% 15 → 10
Erasmo Pilotto (Bairro Alto) 399 249 198 −20% 8 → 6
Julia A. Di Lenna (Barreirinha) 707 517 418 −19% 16 → 13
São Miguel (Cidade Industrial) 522 547 446 −18% 16 → 13
Total 7.768 6.910 3.706 −46% 220 → 113

Fonte: microdados do Censo Escolar 2007, 2017 e 2025 (Inep).

Nas duas escolas que mais perderam alunos de anos finais, os anos iniciais cresceram. A Albert Schweitzer não tinha alunos de 1º ao 5º ano até 2017 e passou a ter 145 nessa etapa em 2025. No Novo CAIC, as matrículas de anos iniciais subiram de 378 para 557 no mesmo período. Entre as outras nove, só a Erasmo Pilotto ganhou alunos nos anos iniciais, de 220 para 236. Nas demais, essa etapa também encolheu.

O 6º ano que não abriu

O caso mais claro é o da Albert Schweitzer, na Cidade Industrial. Em 2023, o Censo Escolar não registra nenhum aluno no 6º ano da escola. Os alunos que tinham entrado no 6º em 2022 seguiram: eram 103 no 7º ano em 2023. A série vazia avançou com o tempo. Em 2024, a escola não teve 7º ano. Em 2025, não teve 8º ano.

Albert Schweitzer 6º ano 7º ano 8º ano 9º ano
2023 0 103 170 147
2024 53 0 103 153
2025 70 68 0 88

Fonte: microdados do Censo Escolar (Inep). Os dados por série só estão disponíveis a partir de 2023.

A escola voltou a receber alunos no 6º ano em 2024, com 53, e em 2025, com 70, em duas turmas. Se a lacuna seguir o mesmo caminho, a escola não terá 9º ano em 2026, o que o Censo 2026 ainda vai mostrar.

Na Albert Schweitzer, a queda foi a mais rápida das 11: eram 30 turmas de anos finais em 2017, 28 em 2019 e 7 em 2025. Como a Plural mostrou, a escola tem também o menor índice de regularidade docente do grupo, no mesmo nível dos colégios estaduais vizinhos.

Na Erasmo Pilotto, no Bairro Alto, a entrada no 6º ano oscilou de um ano para o outro: 56 alunos em 2023, 35 em 2024 e 67 em 2025. Em 2025, a escola tinha uma turma só no 7º ano e outra no 9º.

O que disse a prefeitura

Na reunião com os pais em 29 de outubro, na Rua da Cidadania do CIC, o secretário municipal da Educação, Paulo Afonso Schmidt, disse que a rede municipal chegou a ter 7,4 mil matrículas nos anos finais e que hoje são cerca de 3 mil, como a Plural registrou. Segundo ele, Curitiba passou a oferecer os anos finais quando o Estado deixou de dar conta da demanda.

O maior número da série consultada pela reportagem é o de 2007, com 7.768 matrículas. Em 2011, eram 7.445. Em 2025, o Censo registra 3.706 nas 11 escolas.

O plano divulgado pela prefeitura trata 2027 como o início da transição para a rede estadual. Os dados do Censo mostram que a redução começou antes: desde 2017, a rede municipal fechou, em média, 13 turmas de anos finais por ano nessas escolas.

Como esta reportagem foi produzida

Os dados vêm dos microdados do Censo Escolar do Inep de 2007, 2011, 2015, 2017, 2019, 2021, 2022, 2023, 2024 e 2025, os anos disponíveis na base da reportagem. Foram usadas as matrículas e as turmas de anos finais do ensino fundamental de cada escola de Curitiba. A série segue as mesmas 11 escolas, identificadas pelo código do Inep. Nenhuma outra escola regular da prefeitura teve matrículas de anos finais nesses anos; em 2025, a única outra unidade municipal com matrícula na etapa é a Escola Municipal Matriz II, de educação especial, com um aluno. Os dados por série (6º, 7º, 8º e 9º ano) só estão disponíveis nos microdados a partir de 2023. "Todas as redes" inclui escolas estaduais, municipais, privadas e federais. Alunos por turma é a divisão das matrículas pelo número de turmas de anos finais.

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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