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Escolas que vão perder o 6º ano reúnem 1 em cada 5 mestres e 1 a cada 4 doutores da rede municipal de Curitiba

Com 5% dos docentes da prefeitura, as 11 escolas concentram 21% dos mestres e 27% dos doutores. Fora delas, nenhuma escola regular do município tem turmas de anos finais, e o destino dos professores depende de um projeto de lei anunciado pela prefeitura.

Fachada bege da Escola Municipal Papa João XXIII, com rampa de corrimão amarelo e um Farol do Saber ao fundo
Escola Municipal Papa João XXIII. Foto: José Fernando Ogura/SECOM

As 11 escolas municipais de Curitiba que vão deixar de oferecer o 6º ao 9º ano reúnem uma parcela da equipe mais qualificada da rede, e não há outra escola regular do município para onde esses professores possam levar as turmas de anos finais. Segundo o Censo Escolar 2025, as 11 escolas têm 569 dos 10.812 docentes das unidades municipais de Curitiba (5,3%). Mas concentram 59 dos 276 professores com mestrado (21,4%) e 12 dos 45 com doutorado (26,7%). Pelo plano divulgado pela prefeitura e apresentado às famílias em 29 de outubro, a rede tem 258 profissionais na Docência II, a carreira que atua nos anos finais, e 49 deles podem ser afetados já em 2027. A prefeitura diz que eles poderão atuar em projetos educacionais ou migrar para a Docência I, e que vai enviar à Câmara Municipal um projeto de lei alterando a carreira do magistério.

O número da prefeitura bate com o do Censo Escolar, que registra 259 docentes nos anos finais das 11 escolas em 2025. Como a Plural mostrou, essas equipes são quase inteiramente concursadas e têm mais professores formados na disciplina que ensinam e mais estáveis na escola que os colégios estaduais que vão receber os alunos.

Uma equipe sem equivalente na rede

As 11 escolas são as únicas escolas regulares da prefeitura com turmas do 6º ao 9º ano. No Censo Escolar 2025, a única outra unidade municipal com matrícula nessa etapa é a Escola Municipal Matriz II, de educação especial, que registra um aluno de anos finais. A rede municipal também não oferece Educação de Jovens e Adultos (EJA) nos anos finais. Quando a transição terminar, não haverá na prefeitura turmas de 6º ao 9º ano para onde esses professores possam ser remanejados.

A concentração de formação também aparece na formação continuada. Dos 571 docentes da rede municipal com curso de formação continuada específico para os anos finais, 112 (19,6%) estão nas 11 escolas. E 76 dos 476 professores homens da rede municipal (16%) trabalham nelas, o triplo da participação das escolas no total de docentes.

11 escolas Rede municipal Participação das 11
Docentes 569 10.812 5,3%
Com mestrado 59 276 21,4%
Com doutorado 12 45 26,7%
Com formação continuada específica para os anos finais 112 571 19,6%
Homens 76 476 16,0%

Os números contam todos os docentes de cada escola, inclusive os da educação infantil e dos anos iniciais, porque o Censo não separa formação e perfil por etapa.

Quem são os professores dos anos finais

Os indicadores que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) calcula só para os anos finais mostram uma equipe especializada e dedicada a uma única escola:

Escola Docentes nos anos finais Dão aula no 6º ano Turmas de anos finais
Cândido Portinari 34 10 16
Julia A. Di Lenna 27 9 13
Omar Sabbag 27 11 14
São Miguel 27 10 13
Maria Clara B. Tesserolli 25 9 10
Novo CAIC 23 9 9
Durival Britto e Silva 22 11 9
Papa João XXIII 20 8 8
Erasmo Pilotto 19 18 6
Herley Mehl 19 10 8
Albert Schweitzer 16 9 7
Total 259 114 113

Fonte: Censo Escolar 2025 (Inep). A contagem é por escola: quem trabalha em duas escolas entra duas vezes.

A saída, série por série

Pelo plano da prefeitura, a transição começa em 2027 e termina em quatro anos. Quem já está matriculado entre o 6º e o 8º ano continua na mesma escola até concluir o 9º ano. Em 2027 não haverá novas turmas de 6º ano, e em 2028 a rede municipal já não terá turmas de 6º nem de 7º ano.

O 6º ano responde por 28 das 113 turmas de anos finais das 11 escolas, cerca de um quarto do total. Mas a saída dessa série não libera um grupo fechado de professores. Em 2025, 114 dos 259 docentes dos anos finais davam aula em pelo menos uma turma de 6º ano. E os professores costumam lecionar em mais de uma série: somadas as quatro séries, o Censo registra 442 vínculos para os 259 docentes. O fim do 6º ano, portanto, tende a reduzir ao mesmo tempo a carga de trabalho de muitos professores. O caso mais claro é o da Erasmo Pilotto, no Bairro Alto: das 19 professoras e professores dos anos finais, 18 dão aula no 6º ano.

A conta da prefeitura, de 49 profissionais afetados em 2027, corresponde a 19% dos 258 da Docência II. No plano divulgado, a prefeitura não detalhou como chegou a esse número, nem quais escolas e disciplinas serão atingidas primeiro.

Do outro lado, colégios que precisarão de professores

Nos colégios estaduais que vão receber os alunos, a proporção de professores por turma de anos finais é a mesma das municipais: 2,3. Como a Plural mostrou, para receber os 956 alunos de 6º ano das 11 escolas sem aumentar a média atual de alunos por turma, os 30 colégios estaduais mais próximos precisariam abrir cerca de 37 turmas de 6º ano. Mantida a proporção de 2,3 professores por turma, essas turmas exigiriam cerca de 85 professores.

Hoje, 57,6% dos professores desses 30 colégios não são concursados: 46,4% têm contrato temporário pelo Processo Seletivo Simplificado (PSS) do governo do Paraná, 7,2% são contratados pela CLT e 3,9% são terceirizados.

Em termos práticos, o mesmo movimento tira as turmas de professores concursados, formados na disciplina e com anos de casa na rede municipal e cria, na rede estadual, a necessidade de professores para turmas novas. Os dados públicos não mostram como o Estado vai preencher essas vagas, nem quantos professores municipais vão de fato mudar de função.

Como esta reportagem foi produzida

Formação, vínculo, perfil, turmas e docentes por série vêm dos microdados do Censo Escolar 2025 do Inep. A "rede municipal" reúne as 426 unidades municipais de Curitiba com docentes registrados, incluindo os centros de educação infantil. Adequação da formação e esforço docente vêm dos Indicadores Educacionais 2025 do Inep, só para os anos finais, como médias simples entre escolas. A permanência vem do SIOPE/FNDE (2024 a 2026, magistério efetivo). Os números da prefeitura (258 profissionais, 49 afetados e o calendário da transição) são os do plano divulgado em 29 de outubro, registrados pela Plural. A estimativa de professores para as turmas novas aplica a proporção atual de docentes por turma nos anos finais dos 30 colégios estaduais mais próximos às 37 turmas calculadas a partir das matrículas e turmas de 6º ano do Censo 2025.

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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